sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Os referenciais? Ora, os referenciais...

por Ricardo Goldbach

Um vídeo, que supostamente mostra um barco da guarda costeira japonesa sendo abalroado por um pesqueiro chinês, está sendo considerado como evidência de ação agressiva por parte do Japão da China (lapso corrigido).

Um segundo olhar mostra que as coisas podem não são ser bem assim. Assim como o Sol parece girar em torno da Terra, porque nós estamos fixos no referencial de nosso planeta, é bem possível que o barco de patrulha pudesse estar descrevendo uma curva para estibordo, interrompendo a trajetória original do pesqueiro. Como a câmera que filmou a cena estava fixa no referencial do barco japonês, não há como se afirmar algo sobre as trajetórias relativas entre as duas embarcações.

O tira-teima, aqui, só poderia se dar por meio de um dos três seguintes cenários:
1. disponibilidade de imagens obtidas a partir da embarcação supostamente atingida, para confrontação;

2. disponibilidade de imagens que mostrassem a esteira de espuma deixada pelo barco patrulha, o que seria evidência incontestável da trajetória por ele descrita. Uma imagem da esteira de espuma do pesqueiro serviria ao mesmo objetivo;

3. disponibilidade de imagens obtidas por um observador situado em um terceiro ponto de vista.
Veja as imagens, visualize os três cenários acima, e tire suas próprias conclusões, nestes tempos em que as imagens podem ser lidas - ou manipuladas - como se quiser.






segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"PiG começa ofender a Dilma: ela não passa de um fantoche"

ou "sobre o PiG e os camarões"

por Ricardo Goldbach

Com o título acima (o subtítulo é meu), o jornalista Paulo Henrique Amorim inicia em seu blog um texto que, logo à primeira leitura, exibe o mesmo viés que ele combate nos veículos do "outro lado". A análise de discurso pode ser tarefa que mereça lupa e sagacidade, mas não é este o caso aqui.

A primeira linha da postagem estampa:
"Diz a manchete do Estadão: A vitória de Lula."
A segunda, emenda:
"Diz a manchete do Globo (sic): Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014."
A terceira e a quarta raspam, com caco de telha, qualquer vontade de leitura do restante, mesmo de considerar o blogueiro como opinador sério:
"Ou seja, a Dilma não é nada.
Não passa de um fantoche."
Este sofisma pueril, esta conclusão de Amorim que é ataque direto à lógica formal de primeira ordem, traz à minha memória uma quadra pré-adolescente, um poemeto non-sense que encerrava-se por
"... se camarão não tem pescoço, por que roubaram minha bicicleta?"
O título da postagem traz algo que não se confirma nas citações. Nenhuma alusão a Dilma, como sucessora de Lula, pode ser considerada ofensa, a não ser para contorcionistas do discurso. Tal condição de Dilma foi reafirmada pelo próprio Lula, inúmeras vezes ao longo da campanha, inclusive quando era proibido, por lei, que houvesse campanha. Mais ainda, a própria presidenta eleita agradeceu a Lula, em discurso proferido no day after das urnas, por tê-la feito chegar onde chegou. A tal transferência de votos - ainda que os 56% obtidos por Dilma estivessem muito abaixo dos 80% da suposta aprovação alcançada por Lula - acabou por manifestar-se, como resultado direto do apoio decisivo do presidente. Onde, então, a ofensa vista por Amorim? Onde qualquer ofensa, a não ser aquela feita à inteligência de quem lê desapaixonadamente um post como aquele?

Pois é, muitas perguntas cabem, dependendo de como se constroi a tese a ser defendida. A primeira que me ocorre, nestes tempos de muita baba raivosa e pouca honestidade intelectual, é: onde estão os articulistas e pensadores de pena própria?