domingo, 22 de dezembro de 2019

"PARA O BONDE QUE EU QUERO VOLTAR"

por Ricardo Goldbach

Um texto com o título acima chegou a mim, um texto daqueles que evocam lembranças de um tempo que passou há tempos e de um Rio de Janeiro que não existe mais, com citações de nomes de boates, supermercados, cinemas e de outros marcos quê, com o passar do tempo, passam a integrar o nosso acervo de memórias afetivas.

Não é texto que eu escrevesse; o tema está mais para as reminiscências partilháveis com amigos em churrasco ou evento igualmente descompromissado com limites horários e/ou etílicos.

E por que estou escrevendo sobre ele? Porquê, simplesmente, de repente me vejo alçado ao patamar de uma Clarice Lispector, de um Rubem Alves ou de um Luis Fernando Veríssimo, e de todos aqueles que são citados como autores de textos que jamais escreveram.

Isso mesmo, ele é encontrável em blogs e postagens no Facebook, com o curioso rodapé "By@RicardoGoldbach". Pois é, pesquisei e encontrei essa "minha obra" em postagem de blog (19/09/2019), em postagem no Facebook (21/03/2019), e ele existe até sem citação de autoria em postagem mais antiga no Facebook (10/10/2018).

O fato é que resolvi espanar a poeira deste meu blog para registrar que "PARA O BONDE" não é coisa gestada no meu teclado. Meno male que tenha teor saudosista e seja singelamente saboroso; meu byline podia estar associado a coisa pior -- um pequeno manual de autoajuda, um tosco ataque à Lava Jato ou uma candente apologia a crimes políticos.

É isso. Segundo rezava a filosofia romena do séc. XIV, o que está registrado, registrado fica.

Abraços, beijos e Boas Festas!

domingo, 24 de setembro de 2017

Glock in Rio News

por Ricardo Goldbach

Não consigo deixar de ver, nas operações das Forças Armadas que visam impor trégua às guerras entre traficantes, o serviço de proteção a uma visível reserva de mercado.


Como todos os papelotes do Rio sabem, cada morro tem um dono, que dá ordens às tropas mesmo quando está preso (onde estão os bloqueadores de celulares e os parlatórios com isolamento?). Em condições normais de temperatura e pressão, é business as usual: chega na favela um novo lote de mercadoria, que depois é fracionada e distribuída aos alegres consumidores do asfalto. Um PM prende um pé-de-chinelo aqui, outro pega a sua mesada ali, e a modorrenta rotina prossegue.


No entanto, quando um traficante tenta se apoderar do território de outro, entram em cena as diversas instâncias de autoridades que, durante dias ou mesmo semanas, discursam, concordam, discordam e telegrafam aos bandidos que algo grande está para acontecer. É disso, desse aviso prévio, que a marginália precisa para esconder arsenais, paióis e mercadorias, e estabelecer táticas de confronto e rotas de fuga.

Encerrada a guerra, com o retorno da "sensação de segurança", o dono do morro (ou seu sucessor imediato) estará seguro para comemorar a ajuda que recebeu das tropas federais. No day after, asseguradas a reserva de mercado e a expulsão da quadrilha inimiga, tudo volta ao estadual, volta a ser business as usual: chega na favela um novo lote de mercadoria, um PM prende um pé-de-chinelo aqui, outro pega sua mesada ali, e a modorrenta rotina prossegue, até que nova disputa se inicie em alguma viela desse imenso Complexo do Rio de Janeiro que um dia já foi cidade.