terça-feira, 30 de junho de 2009

Ações afirmativas, resultados negativos

Ricardo Goldbach

(foto de Christopher Capozziello, The New York Times)
O Corpo de Bombeiros de New Haven, cidade do estado de Connecticut, realizou, no ano de 2003, exames para promoção aos postos de tenente e capitão. Como nenhum candidato negro conseguiu ser aprovado, a prefeitura houve por bem anular o exame, alegando que não queria ferir as leis dos direitos civis, vigentes desde a década de 1960. Em português claro, a administração temia processos judiciais por discriminação racial. Os 19 bombeiros brancos aprovados recorreram à Corte de Apelações e foram derrotados, mas uma decisão tomada pela Suprema Corte norte-americana neste dia 29 de junho reverteu a primeira sentença, por cinco votos contra quatro, expondo os limites do que se convencionou chamar de ação afirmativa, também conhecida como "discriminação positiva". De acordo com o voto do juíz Anthony M. Kennedy,
fear of litigation alone cannot justify an employer’s reliance on race to the detriment of individuals who passed the examinations and qualified for promotions.
(o mero receio de litígio não justifica que um empregador tome decisões com base em questões raciais, em detrimento dos indivíduos que foram aprovados e se qualificaram para as promoções).
Uma coisa é lutar para que seja assegurado a um cidadão negro o direito de sentar-se em um ônibus, sem a obrigatoriedade de cessão do lugar a um branco, como o fez Martin Luther King, com o posterior apoio de John F. Kennedy, nas décadas de 1950 e 1960. Outra coisa seria considerar válidos somente os concursos que tivessem representantes da etnia negra ou de qualquer outra, "positivamente discriminada", entre os aprovados.

Aparentemente, na raíz das distorções cometidas em nome da democracia está justamente a distorção do conteúdo semântico de "democracia". Com o significado original de "governo exercido em nome do povo" (demos kratein), "democracia" passou, por corruptela, a designar incorretamente o exercício da democracia direta (governo exercido diretamente pelo povo), o que termina por abrigar reivindicações de direitos abusivos, ou mesmo imaginários.

Um bom exemplo desta distorção são as eleições para elaboração da lista de candidatos a reitor das universidades públicas brasileiras. Votam alunos, professores, funcionários de segurança e conservação patrimonial, ainda que com pesos diferentes por categoria. Esta assim chamada "congregação" não tem plenas condições de avaliar os méritos administrativos e acadêmicos dos candidatos, e por vezes tornam-se dócil massa de manobra de movimentos sindicalistas, cujos projetos de poder ultrapassam as fronteiras da academia. Esta também é a opinião de Jacques Schwartzman, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e ex-membro da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional da Educação:
"... com algumas exceções, só disputa a eleição quem tem capacidades histriônicas e políticas. Pouco importa a qualidade como administrador. A equipe do reitor também acaba por refletir a composição política que o elegeu, e não necessariamente os mais aptos".
Basta conversar com alunos que convivem com os agraciados pelo sistema de cotas, nas universidades, para se constatar o quão perverso é o resultado. Aulas de "nivelamento" são insuficientes para dotar os quotistas de capacidade para acompanhamento das aulas convencionais, e o resultado é o nivelamento do conteúdo, por baixo. Que profissionais podem sair de tal sistema de ensino, senão os frutos estragados deste nivelamento? Pode parecer "politica" ou "racialmente" incorreto, mas o fato é que cabe ao Estado prover melhor preparo ao ingresso na universidade, ao invés de loteá-la, num processo de diminuição da qualidade de ensino. A pretensa compensação não vale, em absoluto, o irreparável estrago causado.

Enquanto as vagas nas universidades públicas brasileiras são franqueadas - num grotesco e populista processo de mea culpa - a quem não tem mérito intelectual minimamente suficiente, em New Haven, pelo menos, os mais aptos comandarão os bombeiros. Independentemente da pigmentação da pele, como deve ser, já que o fogo não reconhece políticas de cotas.


sábado, 20 de junho de 2009

Sobre jornalistas não diplomados

Ricardo Goldbach

As discussões sobre a discutível decisão do STF são muitas vezes temperadas por paixões; de um lado, citações a Fernando Gabeira e Ricardo Kotscho, ambos bem-sucedidos representantes da ala dos sem-diploma, numa argumentação contrária à necessidade de graduação específica. Do outro lado estão posições apaixonadas em defesa do que poderia passar por uma legitimação de reserva de mercado ou por grita classista de igual teor.

Mas é preciso lembrar que o STF não está a serviço apenas do lógico, do razoável, do esperado ou do óbvio previamente codificado; como a própria instituição tem demonstrado nos últimos tempos, interesses políticos, patronais, menores mesmo, são ali fatores de determinação, numa evidência da falibilidade - de boa ou má-fé - que caracteriza os feitos humanos.

Se o que alegadamente se consegue agora, com a decisão do STF, é a universalização da liberdade de expressão, eu pergunto: se um julgamento em tribunal é uma manifestação argumentativa de posições contraditórias, porque não posso me candidatar ao exercício da função de Defensor Público? Ou de Promotor de Justiça? Afinal, possuo capacidades mínimas de expressão e argumentação que me permitissem a aventura. Mas já conheço a resposta: o exercício daquelas funções pressupõe conhecimentos acerca dos códices, da teoria, da praxis e da ritualística envolvidas nas lides processuais. Não seria o caso, então, de o STF informar-se melhor - isso mesmo, informar-se melhor - e levar em conta o que a ementa de um curso de Jornalismo efetivamente acrescenta ao cidadão que, a princípio, tem apenas mero gosto pela coisa? Do domínio das técnicas de reportagem à compreensão fundamental das categorias éticas e jurídicas envolvidas na abordagem jornalística de uma pauta, passando pelo estudo e meditação sobre os aportes humanísticos oferecidos por saberes tais como o da filosofia, sociologia e antropologia, não é pouco o que difere um escrevinhador de um jornalista, e para muito melhor, no caso em questão.

O exemplo de jornalistas famosos e não-diplomados, como Gabeira e Kotscho, não deve ser tomado como pá de cal no debate, uma vez que já houve um tempo na História no qual absolutamente nenhuma profissão era regulamentada. Ainda assim casas eram construidas, gado era transportado, abatido e vendido, mercadorias eram comercializadas em feiras, curandeiros curavam. Mas a ausência de regulamentação prévia não aboliu a necessidade de estabelecimento de códigos e normas de conduta profissional ou exigência de formação específica. Pelo contrário, qualquer profissão que hoje envolva responsabilidade moral ou material é muito bem regulamentada. E no que consiste o exercício do jornalismo, senão no fornecimento de um produto - informação apurada e tratada, com linguagem adaptada ao veículo - que pode causar danos morais e materiais em caso de defeito de fabricação?

Vejo também muita confusão ser causada pela mistura, em um único saco, das funções de repórter e de articulista, por exemplo. O primeiro cumpre pautas pré-definidas, sendo levado às tarefas de pesquisa, apuração de fatos e entrevistas, tudo para relatar algo de interesse da sociedade, com objetividade que rejeite os "achismos" e opiniões do profissional. A linguagem deve ser direta e correta, em texto bem encadeado e fiel a fontes gabaritadas e documentos idem. Já ao articulista, categoria em que são encontrados os contra-exemplos da atualidade, é permitida a expressão de opinião, em função de sua própria e notória trajetória pessoal ou profissional. Desta forma, se vê diariamente artigos escritos por médicos, advogados, filósofos, economistas e clérigos, sem que isso configure exercício ilegal de profissão.

A argumentação favorável à liberalização do exercício da profissão de jornalista, segundo a qual a Lei de Imprensa era um entulho do autoritarismo a ser removido, também não se sustenta. Pelo contrário, o "é proibido proibir", que surgiu na França como resposta aos tempos de treva dos anos 60, tem desaguado cada vez mais em leniência e permissividade, num movimento pendular oposto, que confunde autoridade com autoritarismo, e que produziu efeitos até na educação de crianças e adolescentes, uma vez que reprimir "é feio", passou a ser politicamente incorreto.

Como subproduto benéfico da decisão do STF, tenderão a sobreviver as instituições realmente capacitadas e dedicadas à formação de profissionais; aquelas a que se convencionou chamar de caça-níqueis tenderão a desaparecer, sepultadas pelo ainda menor valor dos diplomas que imprimem e vendem em prestações mensais.

Por fim, como exemplo extremo de ataque a uma suposta reserva de mercado, descubro texto no site do Observatório da Imprensa, de autoria do jornalista Maurício Tuffani. A peça é coalhada de citações, reproduções e até mesmo de expressões matemáticas - que se estendem por três estéreis parágrafos - tudo em formato reconhecidamente acadêmico. Chega a lembrar o que o psicanalista Eduardo Mascarenhas, opositor intelectual de José Guilherme Merquior, classificava de "terrorismo bibliográfico", tamanha a intenção de fazer o leitor perder-se ao acompanhar a ancoragem dos argumentos em terceiros eruditos.

Vertendo para a forma textual minha resposta à Lógica Proposicional de Primeira Ordem empregada por Tuffani para desqualificar por completo a necessidade de diploma para o exercício da profissão de jornalista, e igualmente empregando aquela lógica, me restou concluir, em resposta ao autor, que:
  1. favelas consistem de uma enormidade de edificações erguidas em encostas de substrato rochoso, de configurações topográficas e geológicas de contorno sabidamente não trivial;

  2. as ditas edificações, como também se sabe, são erigidas por pedreiros, carpinteiros, mestres de obra e assemelhados;

  3. logo, não é necessário que alguém seja diplomado em Engenharia Civil para construir, com sucesso, casas em encostas de formação geológica rochosa, quod erat demonstrandum.

Mas prefiro me alinhar com o professor de Legislação e Ética no curso de Jornalismo da Univali (SC), doutorando em Jornalismo na USP e Assessor de Comunicação do Ministério Público da Federal, Rogério Christofoletti, quando ele diz que:

"Dispensar o diploma hoje é como rasgar o documento do obstetra e reconvocar a parteira em seu lugar. Ela pode ser hábil, atenciosa e certeira, mas não teve acesso aos conhecimentos do médico, não dispõe das mesmas condições de operação e expõe as gestantes a riscos maiores. Tempos atrás, quase não havia obstetras, e sempre se recorria às parteiras. Mas o tempo passou, e jogar o diploma do médico no lixo é voltar atrás, permitir-se involuir".

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Economia e Sincronicidade


Num desses acasos que insistem em acontecer, imediamente após o post sobre Franco Modigliani recebo por e-mail a fábula abaixo, que faço questão de compartilhar aqui.

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"Numa pequena vila na costa sul da França chove e nada de especial acontece. A crise é sentida. Todo mundo deve a todo mundo. A população está carregada de dívidas...

Subitamente, um rico turista russo chega ao foyer do pequeno hotel local. Ele pede um quarto e coloca uma nota de cem Euros sobre o balcão. Pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspecionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se não lhe agradar.

O dono do hotel pega a nota de €100 e corre ao fornecedor de carne a quem deve €100. O talhante pega o dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar €100 que devia há algum tempo.

Este, por sua vez, corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este corre a entregar os €100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os €100 e corre ao hotel a quem devia €100 pela utilização casual de quartos para atender clientes.

Neste momento, o russo desce à recepção e informa ao dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos €100. Recebe o dinheiro e sai.

Não houve neste movimento qualquer lucro ou valor acrescido. Contudo, todos liquidaram as suas dividas e estas pessoas da pequena vila costeira agora encaram o futuro com otimismo.

Dá o que pensar..."


Abrindo uma exceção, para Franco Modigliani

ou "uma previsão sobre o estouro da 'bolha' econômica"

Ricardo Goldbach

Vou fazer um Ctlr-C / Ctrl-V, apesar do motto deste blog.

O caso é que o laureado com o Prêmio Nobel Honorário de Economia de 1985, Franco Modigliani, merece ser reconhecido por sua visão inteligente e premonitória, apesar de a premonição não ser aqui um dom metafísico, mas antes uma capacidade de interpretar fenômenos e acontecimentos dos processos econômicos que, queiramos ou não, regulam nossas vidas. Reproduzo aqui uma brilhante antecipação daquele economista, falecido em 2003, do momento que vivemos, em tempos de crise econômica de escala planetária, na forma de matéria de Floyd Norris, originalmente veiculada no The New York Times em 01/04/2000, e posteriormente reproduzida no Estado de São Paulo e no site do Observatório da Imprensa. É leitura de qualidade.

Observação: o prêmio ao qual a matéria de Norris faz alusão, o Nobel Memorial Prize de Economia, não tem associação direta com os desígnios originais de Alfred Nobel ou com o Prêmio que leva seu nome. À época da concessão, tal distinção levava o nome de Prêmio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel. Esta associação entre o prêmio concebido pelo Banco da Suécia e o nome de Nobel é repudiada pelos herdeiros do inventor sueco, segundo matéria do Le Monde Diplomatique veiculada na edição online de 12/02/2005, assinada por Hazel Henderson. Uma versão traduzida desta matéria pode ser encontrada aqui, sob o título "A impostura do Nobel de Economia". No entanto, o site oficial do Prêmio Nobel faz menção a Modigliani como sendo o laureado em Economia, no ano de 1985.

Vamos ao Ctrl-V da matéria de Floyd Norris, que é o que interessa.

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Nobel de economia prevê estouro da ‘bolha’


"Franco Modigliani afirma que a atual mania por ações da Internet e de outras companhias de tecnologia não é irracional. Entretanto, é uma bolha, e vai explodir. ‘Posso mostrar, com precisão, que há dois preços para uma ação’, afirmou Modigliani, em entrevista telefônica. O preço que ele prefere é o baseado em fatores fundamentais, como lucros e índices de crescimento.

‘Mas’, acrescentou, ‘a bolha é racional, de certa forma.’ A expectativa de crescimento produz o crescimento, que confirma a expectativa. As pessoas comprarão a ação porque seu valor aumentou. ‘O problema é que o preço de bolha é naturalmente instável’, admitiu. ‘Ele só continuará a aumentar enquanto as expectativas continuarem a crescer’, diz. ‘Mas assim que os investidores se convencem de que determinada ação não está aumentando, nenhum deles estará disposto a manter um papel pelo fato de ele estar supervalorizado.’ Farão questão de vendê-lo e a ação cairá abaixo do preço determinado pelos fundamentos.

Modigliani sabe alguma coisa sobre isso. Atualmente com 81 anos, ele recebeu o Nobel Memorial Prize de Economia em 1985, em parte por causa do seu trabalho pioneiro, desenvolvido justamente em torno da análise dos fundamentos.

Um de seus ‘insights’ - que pareciam estranhos na década de 50, quando ele propôs suas teses pela primeira vez - foi o de que o preço dos valores mobiliários de uma companhia, inclusive o de ações e obrigações, deveria basear-se nos lucros esperados, descontados a uma taxa de juros apropriada. Isso também se aplica ao mercado de ações como um todo.

Sob essa luz, não é fácil racionalizar as gigantescas relações preço/lucro.

Modigliani argumenta que é impossivel, para a economia, crescer tão rapidamente quanto o mercado parece estar prevendo, ainda que algumas companhias venham a ter resultados muito bons.

‘Não se pode acreditar que os lucros das companhias continuarão a aumentar, sempre, na proporção de 7%’, enfatizou Modigliani. ‘Em algum momento, toda a renda nacional será tomada pelos lucros.’ Esses cálculos podem ser ignorados quando os investidores julgam estar testemunhando a chegada de uma nova era brihante, como ocorreu na década de 20 com o broadcasting e está acontecendo agora com a Internet. O presidente Bill Clinton será o anfitrião da Conferência sobre a Nova Economia, que se realizará na Casa Branca, na próxima semana.

Modigliani não é um homem dado a falar muito sobre o mercado de ações com freqüência. Telefonei-lhe depois de ouvir dizer que ele havia falado sobre bolhas em um discurso pronunciado na sede da Boston Security Analysts Society. No único discurso que havia dirigido anteriormente àquele grupo, em 1976, Modigliani havia caçoado de Wall Street por subvalorizar as ações.

Ele acha que as ações que compõem a Média Industrial Dow Jones poderiam cair para 8.000 ou 9.000 pontos, mas acha que as ações de companhias de tecnologia são muito mais vulneráveis. No caso da Internet, é muito dificil determinar os fundamentos para compreender até que ponto se trata de uma bolha’, afirmou. ‘Na minha opinião, há muito de bolha nessas ações.’ E então? ‘Não há bolha que se esvazie sem fazer barulho. Por sua própria natureza, a bolha tem de explodir. Eu não sei quando.’ Mas isso acontecerá e a dor será maior se a bolha for grande. Ele acredita que o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) tem razão em aumentr as taxas de juros, mas talvez esteja agindo lentamente demais.

Não é dificil encontrar administradores que admitam, em particular, que estão petrificados, mas seus portfólios estão plenamente investidos. A maioria deles estudou Modigliani na Escola de Administração de Empresas. A maioria viu seus pares que não compraram as ações mais ‘quentes’ perderem os respectivos empregos. Seu nervosismo aumenta com a volatilidade do mercado.

Modigliani começou a vender ações há cerca de um ano e não se desculpa por isso. ‘As únicas pessoas que se saíram bem em 1929 foram aquelas que venderam cedo demais’, afirmou. ‘O teste final ocorrerá se houver um colapso. Se não houver, eu estou enganado.’"

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O melhor emprego do mundo

Ricardo Goldbach

Recentemente o mundo conheceu o vencedor da promoção que buscava um zelador para uma ilha na Grande Barreira de Corais, na costa australiana. A propaganda anunciava aquele como sendo o melhor emprego do mundo. Mas será que era mesmo?

Descobri um outro trabalho que, se não for melhor do que o melhor, ao menos chega bem perto ou empata. Quem tem esse ofício - e nem ao menos tem patrão - é Clark Little. A mulher do ex-surfista de Waimea, no Havaí, pediu-lhe um dia que fizesse uma foto para usar como decoração, pendurada na parede do quarto do casal. Clark pegou a câmera - à época uma Nikon D200, com uma incrivelmente boa grande angular - pulou na água, fez fotos de dentro do mar e não parou mais. Hoje ele tem fama internacional, é objeto de matérias nas grandes redes de televisão norte-americanas e não pensa em ganhar a vida de outra forma - suas fotos têm alto valor comercial. Alto o suficiente para ele ter podido comprar a D3 que usa hoje em dia dentro da caixa estanque, dentre outras coisas.





Clark Little no local de trabalho (autoria desconhecida)





Ainda no local de trabalho... (autoria ainda desconhecida)



E dois dos resultados:




"Marlin"




"Sand Monster"

Terra de ninguém

Ricardo Goldbach

Quanto mais evolui a chamada inclusão digital ao redor do planeta, mais iniciativas surgem na esteira das oportunidades comerciais. É coisa absolutamente normal, manifestação do espírito empreendedor que já existia antes dos textos marxistas, antes mesmo de o capitalismo reconhecer-se pelo próprio nome.

O problema é que rede está infestada com as mesmas práticas apelativas, quando não antiéticas ou ilegais, que se vê no mundo de tijolo e cimento. Agora mesmo, mais uma rede de relacionamentos online começa a se promover no Brasil e as mesmas táticas condenáveis de sempre são usadas na empreitada.

Desta vez é a inglesa Badoo que quer disputar fatia de mercado com as operações já estabelecidas. Este clone das redes sociais famosas usa o resultado de phishing para se promover. "Phishing" é o nome que se dá ao uso de práticas e artifícios que enganam os usuários e acabam viabilizando o arrastão de endereços que volta e meia infecta nossas caixas postais com worms, que por sua vez enviam os endereços de todos os nossos contatos para os malfeitores. Algumas vêzes o phishing é alimentado pela ingenuidade de uns poucos (?), aqueles que repassam para seus contatos mensagens que trazem expostos todos os endereços dos destinatários anteriores. As consequências? Os endereços acabam nas bases de dados de spammers ou nos CDs vendidos a R$1,99 pelos camelôs. Estes dados, por sua vez, são comprados por marketeiros inescrupulosos, no Brasil e em Shangai, ou então na Inglaterra, pelo povo do Badoo, e assim a maré de lixo postal reflui de volta à nossa porta.

Comecei a receber recentements mensagens de gente de quem nunca ouvi falar, me convidando para aderir à rede Badoo de fulano, que mora na Itália, ou de sicrano, habitante da Tunísia. Uma das mensagens continha, sintomaticamente, convite de uma pessoa que me incluiu, à revelia, em sua lista de mensagens melosas, aquelas compostas em Power Point e repassadas ad nauseam por este mundão afora. Tudo com os nomes dos destinatários à mostra, contrariando a netiqueta que recomenda o uso de cópia oculta. Só que depois que a pasta de dentes sai do tubo não há mais volta, não há bispo com quem se possa queixar.

A Internet, como já se imaginava em meados da década de 90, virou um universo paralelo onde se copia as práticas do asfalto. Não é sintoma de paranóia proteger nossos dados pessoais e os de nossos amigos, evitando a disseminação indesejada deles. O delírio paranóide é uma reação temorosa diante de uma ameaça imaginária, mas não há nada de imaginário aqui; com o crescimento exponencial da Internet, aumenta também a incidência de práticas antiéticas ou criminosas através dela. A Internet virou mesmo terra de ninguém.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Bansky


Ricardo Goldbach






"When I was a kid I used to pray every night for a new bicycle. Then I realized God doesn’t work that way, so I stole one and prayed for forgiveness”.

[Tradução livre: Quando criança, eu rezava todas as noites, pedindo uma bicicleta nova. Ao perceber que Deus não agia desta forma, roubei uma e rezei pedindo perdão.]

Este é o manifesto de Bansky, um artista de rua cujo nome real é desconhecido, mas que tem trabalhos preservados pelo conselho municipal de Bristol, Inglaterra, onde teria nascido em 1975.

Mordaz, sensível e realista, Bansky tem como temas o Estado e o indivíduo, o non-sense, a denúncia cáustica, às vêzes um humor fino e descomprometido, como se pode ver nestas reproduções que mostram o domínio do artista sobre a técnica do stêncil.

A obra acima - Flower Chucker (O atirador de flores) - está presente no filme "Age of Stupid", que em uma das cenas traz um homem se perguntando, no mundo devastado de 2055: "Por que não interrompemos as mudanças climáticas enquanto havia tempo?"


Veja mais sobre esta fascinante obra em www.bansky.co.uk


(clique nas imagens para vê-las em tamanho ampliado)

"Menina na chuva"


"Revista em Pilton"

[NT: Pilton é um subúrbio ao norte de Edinburgh, Escócia, habitado por operários de baixa renda]


"Bronx"


"Mídia"


"Flor"


"Saqueadores"

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Dylmo Elias - Missa de trigésimo dia


A missa de trigésimo dia de falecimento de Dylmo Elias será realizada às 19h da próxima quinta-feira (21/05), na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, situada à Praça Edmundo Rego nº 27, Grajau.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Não faça isso em casa - pode ser um tiro no pé

ou "uma história que a Microsoft gostaria de esquecer"

Ricardo Goldbach*

Vem de longe a sequência de erros e consertos da empresa de Redmond. Tem sido assim desde o Windows 2.0, cujo lançamento em dezembro de 1987 passou desapercebido, até o Windows 7.0 RC, lançado há poucos dias e que a cada hora sofre novas correções. Como ocorreu com o Windows Vista, nota-se no Windows 7 RC uma sequência infindável de erros primários, nem sempre corrigidos a tempo. Estamos em maio de 2009 e acabo de ler que a Microsoft corrige falha importante no Windows 7 RC.

Um pouco de História

Com uma interface gráfica que era inteiramente suportada pelo sistema operacional MS-DOS, o Windows 95 (lançado em agosto de 1995) sucedeu as versões 3.0, 3.1 e 3.11. Mas, da mesma forma que os antecessores, o 95 continuava a ser apenas uma versão do MS-DOS, embelezada pelo uso do mouse e de uma tela gráfica com ícones coloridos. Falhas gritantes que existiam no 95 fizeram com que a MS o substituísse pelo Windows 98, que se mostrou igualmente como um queijo suiço, no que se refere a buracos na segurança e falhas de execução e usabilidade.

Apostando no universo corporativo, a Microsoft já havia iniciado o desenvolvimento, em 1993, de um novo sistema operacional, o Windows NT (de New Technology). Ele deveria ser menos sujeito a panes, mais seguro e suportar aplicações multitarefa – na acepção acadêmica do termo, além de introduzir conceitos de segurança até então inexistentes, como o de propriedade (ownership) de arquivos por parte do usuário logado. Não vale a pena aprofundar aqui considerações sobre o amadorismo que caracterizou a implementação do NT, que chegou a permitir o tráfego de senhas não encriptadas através da rede.

Como o Windows NT prometia ser uma evolução das versões 3.x e 9x, grandes corporações e
instituições sérias, como a Marinha dos Estados Unidos, o adotaram como plataforma padrão de operação de suas atividades.

O
USS Yorktown e o Projeto Smart Ship

Em 4 de julho de 1984 a Marinha dos EUA comissionou o cruzador USS Yorktown (CG 48), da classe Ticonderoga, equipado com mísseis mar-ar e antisubmarino, além de lançadores de torpedo e outros armamentos usuais de naves desta categoria. Em dezembro de 1995 o cruzador foi escolhido como protótipo do ambicioso projeto Smart Ship (navio inteligente), passando a contar também com uma rede de 27 computadores, cada um deles dispondo de duas CPUs Pentium Pro de 200 MHz em configuração dual, todas rodando o Windows NT 4.0, sucessor do Windows NT 3.51.

O projeto Smart Ship visava a redução do contingente de marinheiros responsáveis pela operação de navios de guerra e tinha como meta a automação de operações da ponte de comando, monitorando e controlando processos de geração de relatórios de danos, de otimização do consumo de combustível, de propulsão e navegação, dentre outros.

Um projeto desgovernado em alto mar


Ocorre que em 21 de setembro de 1997, durante operações na costa do estado da Virginia, um administrador do sistema de bordo do USS Yorktown digitou um algarismo zero num campo do banco de dados do programa Remote Database Manager (administrador remoto de banco de dados), de acordo com um memorando do comandante da Frota de Superfície do Atlântico, Vice-Almirante Henry Giffin. Ainda segundo o memorando, uma divisão por zero – o conteúdo incorretamente digitado – causou um colapso do banco de dados, além de acarretar a paralisação de terminais remotos e consoles de gerenciamento da rede.

Na conclusão do memorando,
reproduzido no site da Universidade de Stanford, o Vice-Almirante Henry Giffin declara que
"The Yorktown's Standard Monitoring Control System administrators entered zero into the data field for the Remote Data Base Manager program. That caused the database to overflow and crash the LAN consoles and miniature remote terminal units".
A divisão por zero é uma impropriedade matemática que ocorre na execução de programas tanto por falha de projeto e implementação de sistemas operacionais, compiladores e aplicativos, quanto pela entrada incorreta e não verificada de dados, como no caso da pane do USS Yorktown. O resultado foi a conhecida tela azul ou blue screen of death, tão familiar aos usuários mais antigos do Windows. Como consequência da pane, o cruzador ficou à deriva por cerca de duas horas, sendo depois rebocado para a base naval de Norfolk. Dois dias se passaram até que as condições operacionais do navio fossem recuperadas.

"usar Windows NT [...] em um navio de guerra
é o mesmo que ter esperança
de que a sorte esteja a nosso favor"

Fé em Deus e mão na roda do leme?

De acordo com o engenheiro Anthony DiGiorgio, do Centro de Suporte Técnico da Frota do Atlântico, “usar Windows NT, conhecido por ter falhas em alguns modos [de operação], em um navio de guerra, é o mesmo que ter esperança de que a sorte esteja a nosso favor”. No original,
"using Windows NT, which is known to have some failure modes, on a warship is similar to hoping that luck will be in our favor".
É isso. Não consigo me esquecer do caso do USS Yorktown quando vejo a Microsoft emitir alerta após alerta, sobre novas descobertas em falhas de operação ou segurança de seus sistemas operacionais e aplicativos, principalmente quando se referem ao buffer overflow. Este problema resulta de erro em desenvolvimento de software (falta de observância forçada à presença do caractere null ou "\0" ao final de um buffer em memória). Falhas causadas por buffer overflow existem ou existiram em praticamente todos os aplicativos desenvolvidos até hoje pela Microsoft; em algumas vêzes ele compromete a segurança dos dados do usuário ou torna-o vulnerável a ataques online, em outras trava completamente o sistema.

Em tempo: à época, a Marinha dos EUA considerou esta primeira experiência com um Smart Ship como tendo sido um sucesso.

Já vi este filme antes. Hasta la Vista.


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* O autor tem mais de 30 anos de experiência em TI, em ambientes de
mainframes, minicomputadores, supermicrocomputadores e microcomputadores, nas atividades de levantamento de requisitos, projeto, desenvolvimento, testes e homologação de sistemas, suporte, administração de dados e de bancos de dados, treinamento e coordenação de equipes de desenvolvimento.


Associações interessantes:

Government Computer News: Software glitches leave Navy Smart Ship dead in the water, matéria também referenciada no site do Massachussets Institute of Technology (MIT)

Universidade de Stanford: Military cases - Smart Ship

Site de Jerry Pournelle, colunista da revista Byte Magazine entre os anos de 1982 e 2006: The Yorktown Affair

Site oficial da Marinha dos EUA: Navy News

Site oficial da Marinha dos EUA: "Smart ships" initiatives successful

PC World (11/05/2009):
Microsoft corrige falha importante no Windows 7 RC

sexta-feira, 1 de maio de 2009

"O Jogo"

Ricardo Goldbach

Uma infinidade de jogos foi criada ao longo da história da Humanidade desde que o gamão – por muitos considerado o mais antigo jogo de que se tem notícia – foi inventado. Uns mais complicados, outros nem tanto. Alguns duram minutos, como uma rodada de pôquer, outros podem durar meses, como os RPG’s ou os jogos de simulação disputados coletivamente em rede. Todos os jogos se caracterizam pela existência de regras claramente definidas, o que, aliás, determina a própria essência de cada um deles, diferenciando-os dos demais. Mas um jogo que tem poucos anos de idade, conhecido como “O Jogo” ou “The Game”, consegue ser diferente, dentre os diferentes.

O Jogo se destaca por ter apenas três regras fundamentais. A primeira delas é na verdade um axioma, uma premissa auto-contida autocontida: “todas as pessoas do mundo estão jogando, mesmo que não o saibam”. Neste caso já estávamos jogando, eu e você. Vamos adiante, para a segunda regra, que diz que “quem se lembra da existência do Jogo está automaticamente eliminado”. Isso quer dizer que nós dois já perdemos. Parece coisa de loucos? Parece, mas espere, ainda tem mais. O que torna O Jogo mais interessante ainda é a terceira regra, segundo a qual quem perde é obrigado a anunciar o fato, em voz alta ou por escrito, para ao menos uma outra pessoa. Qualquer ser humano serve. Mas no fundo, o objetivo do Jogo é esquecer-se de que ele existe. E, como o ser humano não falha, alguns jogadores têm como objetivo secundário fazer os outros perderem, lembrando-os da existência do Jogo, por meio de uma infinidade de artifícios. Vale escrever mensagens em cédulas, pichar muros ou deixar grafitti em paredes de banheiros públicos.

Lembrou? Perdeu.


É na derrota de um jogador que a coisa fica verdadeiramente curiosa. Se quem ouve a confissão não estava jogando, aquele que confessou a derrota faz papel de doido; por outro lado, se o ouvinte estava jogando também, ele é lembrado da existência do Jogo, o que o torna automaticamente um perdedor. Então pode ser divertido perder (gostei desta parte, ser divertido perder algo), como no caso de um grupo de estudantes norte-americanos que perambulava por um shopping center. Alguma coisa lembrou a um dos jovens a existência do Jogo, ele perdeu e anunciou isto em voz alta. Imediatamente, o restante do grupo seguiu-o, também anunciando perda, quando então cada um soube que os demais também jogavam. Até o primeiro anúncio, nenhum deles sabia se os outros estavam ou não jogando – o que me faz lembrar, guardadas as diferenças, do observador da experiência do Gato de Schröedinger. Para completar a cena, um casal que estava numa loja próxima também anunciou a perda, lembrados que foram pelo grupo de adolescentes. Reação atômica em cadeia perde. Mas se é assim, da mesma forma que numa reação atômica, a massa combustível tende a se consumir e o ciclo se encerra, correto? Quase, pois aqui há uma diferença crucial: bastam três segundos ou uma hora, dependendo das limitações particulares de cada um, para que a pessoa se esqueça do Jogo e se torne imediatamente apta a recomeçar.

E?


E quando é que O Jogo termina de vez? Uma corrente de jogadores acredita que ele acabe em definitivo quando o primeiro-ministro da Inglaterra assim o determinar, em cadeia nacional de TV. Não consta que Downing Street tenha se pronunciado a respeito, no entanto.


E para que serve O Jogo? Ora, serve exatamente para aquilo que os jogos insistem em servir: distração, divertimento, uma pequena e sadia dose de breve alienação - talvez por isso tenha se alastrado como gripe entre jovens do mundo inteiro. Serve também, penso, como uma metáfora para outros jogos, como por exemplo o da Vida; será que perdemos quando a trazemos para um plano central da consciência, quando a tornamos mais cerebral do que supostamente ela deveria ser?


Associações interessantes:

Site oficial - LoseTheGame
O Gato de Schröedinger
Ironic process theory
Thought supression
Comunidade Facebook - I just lost The Game

sexta-feira, 24 de abril de 2009

"Após a chuva" - homenagem ao Mestre Dylmo Elias


Homenagem a Dylmo, que partiu numa noite chuvosa e foi devolvido à terra em dia de sol.





Dylmo Elias - Missa de sétimo dia


A missa de sétimo dia em intenção da alma de Dylmo Elias será realizada às 19h da próxima segunda-feira (27/04), na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, situada à Praça Edmundo Rego nº27, Grajau.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ao Mestre, com carinho

Ricardo Goldbach

É muito comum que uma pessoa parta da vida e tenha suas virtudes, qualidades e conquistas imediatamente ampliadas pela lente que separa este mundo do próximo, mas não é isso o que acontece no caso da ida do Dylmo. O Dylmo Elias da Rádio MEC, dos palcos de teatro onde dirigia as peças que escrevia, da sala de técnica de onde acompanhava os trabalhos de seus alunos.

Quer saber o quão as palavras estão próximas - ou distantes - do personagem que descrevem? Converse com as pessoas que o conheceram no dia a dia. Leia o que se escreveu sobre ele, ainda em vida, ou mesmo depois. Avalie o legado que deixou, as impressões dos agraciados que o receberam. Ainda assim, dê um certo desconto e veja o que sobra depois.

Não sobra pouca coisa, no caso do Dylmo. Marido amantíssimo, deixou uma companheira de vida, parceira de lutas descritas em livro e em conversas. Não teve filhos, mas se os tivesse tido teria sido mais que um pai para eles; teria sido o educador e amigo que seus alunos tiveram a felicidade e o prazer de conhecer. Melhor dizendo, Dylmo não tinha alunos, tinha equipes que trabalhavam na rádio dele; a sala não era local de aula, mas de redação e produção. E o marcante brilho nos olhos pontuava todos os momentos, o espírito sempre inquieto e criativo.

Lúcido e de memória afiada no alto de seus 80 anos (estreou na vida em 16 de setembro de 1928), o Mestre se recordava de nomes, fatos e histórias da Era de Ouro, e contava tudo com inegável misto de prazer e saudade. Dylmo homenageou outros veteranos do rádio - com a humildade que só os grandes sabem ter - custeando do próprio bolso despesas com placas alusivas. Não que lhe sobrassem recursos; era remunerado com menos que valia, e, mesmo assim, nem sempre em dia.

Muitos beberam lições de seus lábios; não apenas de radiojornalismo, mas também de vida. Era procurado por jovens recém-saídos da adolescência, com suas angústias, incertezas e dificuldades. E ouvia muito, empatia era um de seus fortes. E tinha palavras de consolo, alento ou orientação, conforme o caso.

É bom que se saiba que, com a cumplicidade de D. Glacy, Dylmo deixou muitos filhos - além de amigos e irmãos - por esse mundo afora...


Dylmo, você fez a diferença, você já faz muita falta. Até um dia. Ou, como eu encerrava nossos telefonemas, "... até qualquer momento, em edição extraordinária".

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Arquivos RAW - afinal, o que é a realidade?

Ricardo Goldbach
com informações de Jens Tønnesen

O fotojornalista dinamarquês Klavs Bo Christensen foi excluído, em janeiro passado, do concurso "Foto do ano", promovido na Dinamarca. A competição tem no juri membros do Danish Union of Press Photographers, o sindicato de classe local, e o fato é inédito nos 35 anos de existência do concurso. O motivo alegado foi a existência de "Photoshop demais" nas imagens de Christensen, cujos originais foram captados durante viagem ao Haiti.

O jurado Peter Dejong alegou que "ele deliberamente selecionou uma cadeira e tornou-a amarela, além de ter selecionado uma parede e tê-la feito azul". "Para mim isso é inaceitável", completou Dejong.

Observando-se a imagem citada (fig. 2) é possível constatar o aumento de saturação e constraste. Isto acentuou a tonalidade amarela original que, no entanto, não foi "criada" - já existia na imagem (fig. 1). O mesmo se pode dizer do tom azul da parede. A ampla gama tonal da imagem processada sugere que Christensen tenha empregado a técnica de HDR (high dynamic range), com a qual se mescla várias imagens, obtidas com diferentes compensações de EV, em uma única.



fig. 1 - imagem RAW


fig. 2 - imagem processada

Na foto seguinte encontra-se outro exemplo de "puxada" de imagem, através de aumento de saturação e contraste (fig. 4) de cores e tons pré-existentes (fig. 3). Neste caso, especificamente, os efeitos acrescentaram dramaticidade à cena original, não somente pelo maior impacto cromático obtido, como também pela acentuação das características de insalubridade e precariedade sanitária do local. No meu entendimento, esta foto não tem atributos que a tornem uma vencedora, quer na versão RAW, quer na versão manipulada. Contra ela pesam vários fatores, inclusive o erro primário de enquadramento, que a fez ficar inclinada, como é usual em fotos de amadores.



fig. 3 - imagem RAW


fig. 4 - imagem processada

Outro jurado, Miriam Dalsgaard, disse que "isso não significa que não aceitemos ou não reconheçamos edição em Photoshop, mas este exemplo realmente é extremo". Em seu favor, Christensen alegou que os formatos RAW, NEF, DNG e CR2 não refletem necessáriamente os parâmetros originais de uma imagem captada. Ele também não aceita que o confronto com a imagem RAW sirva como parâmetro de avaliação da imagem submetida ao juri. O fotógrafo afirmou, ainda, que percebeu diferenças significativas entre as imagens RAW obtidas por equipamentos Canon, Nikon e Leica, além das diferenças entre os algoritmos de diversos aplicativos de conversão a partir do formato RAW, bem como entre os perfis de gerenciamento de espaço cromático que podem ser configurados antes de uma edição.

Christensen vai mais além e diz que, mesmo quando se emprega filmes, a especificação técnica dos mesmos pode levar a exposição de uma mesma cena a ter resultados diferentes. Segundo ele, o registro de uma cena reflete diretamente as configurações de exposição do equipamento - abertura do diafragma, velocidade do obturador e ISO, por exemplo. A meu ver, neste ponto Christensen tem razão: RAW e realidade que se apresenta ao olho humano não estão necessariamente atrelados.

O que vejo aqui, como subproduto do celeuma, são os efeitos deletérios de normas difusas e subjetivas*. Elas permitem que conceitos como "extremo", "demais", "normal" e "boa prática" sirvam como argumentos de exclusão, apesar da subjetividade inerente a eles. No entanto, é salutar que, aos 35 anos de existência do concurso, as fotos de Christensen tenham suscitado debate tão intenso na comunidade. Ele, por sua vez, decidiu que de agora em diante apenas participará de concursos com fotos P&B.

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* "
Photos submitted to Picture of The Year must be a truthful representation of whatever happened in front of the camera during exposure. You may post-process the images electronically in accordance with good practice. That is cropping, burning, dodging, converting to black and white as well as normal exposure and color correction, which preserves the image's original expression. The Judges and exhibition committee reserve the right to see the original RAW image files, RAW tape, negatives and/or slides. In cases of doubt, the photographer can be pulled out of competition".

Tradução:

"As fotos submetidas ao [concurso] "Foto do ano" devem ser representações reais do que quer que tenha ocorrido diante da câmera durante a exposição. Você pode pós-processar as imagens eletrônicamente, de acordo com a boa prática. Isso significa croping, burning, dodging, conversão para P&B, bem como correção de cor e exposição normais, que preservem a expressão original da imagem. Os juízes e o comitê da mostra se reservam o direito de verificar arquivos RAW originais, fitas RAW originais, negativos e/ou slides. Em caso de dúvida, o fotógrafo pode ser excluído da competição".