quarta-feira, 15 de julho de 2009

Micronoticiário quente

Ricardo Goldbach

Michael van Poppel, um holandês de 19 anos de idade, é o novo fenômeno da mídia online. Ele iniciou, em setembro de 2007, um projeto de jornalismo online colaborativo, o Breaking News Online (BNO).

Poucos meses depois, Michael teve acesso, não se sabe como, a um vídeo inédito contendo uma declaração de Osama Bin Laden. O furo foi oferecido a várias agências, sendo finalmente comprado pela Reuters. O Twitter do BNO conta hoje com mais de 800 mil seguidores, uma audiência maior do que a da ABC News ou da Newsweek.

O que chama a atenção para este case é que não há trabalho de investigação e apuração, apenas o de agregação e difusão de notícias “quentes” (breaking news), a partir de uma rede de colaboradores. Operando com feeds, twitter e mensagens de e-mail, o BNO tem na web um mero ponto de presença, no site http://news.bnonews.com/i5xf

O próximo projeto do BNO é a transmissão de notícias para iPhone, a um custo estimado de 99 centavos de dolar ao mês. O aplicativo para download das mensagens custará 1,99 dolares.


Receita de sucesso para extinguir concorrência

Ricardo Goldbach*

A receita é simples: tente matar a concorrência com falsos anúncios, depois acuse-a falsamente pela mesma prática.

É enfadonhamente comum a desconexão com a realidade que acomete empresas bem-sucedidas. E, nesta época de tecnicalidades que se expandem enquanto dormimos, fica mais difícil ainda tomar as rédeas de nosso dia a dia. A onipresente Microsoft é um caso típico de avassalador cinismo e descaso em relação à clientela - praticamente o planeta inteiro. Esta constatação não é parte de nenhuma campanha de difamação: a Microsoft não precisa de detratores, pois dá conta do recado sozinha.

A companhia cresceu à sombra de práticas predadoras, desde a cópia da interface do Windows como a conhecemos - idéia original da Apple, baseada em objetos e mouse - até a destruição dos negócios de pequenos concorrentes. Usuários do PC-XT, por exemplo, conheciam um ótimo software de desfragmentação de disco, o OPTune, da Gazelle Software. Através de acordo, a Microsoft absorveu o OPTune, incorporou-o - com menos funcionalidades (possibilidade de alteração do interleave de setores, por exemplo) - ao MS-DOS 3.1, e o OPTune independente sumiu. A concorrência saudável desapareceu, assim como era comum sumirem os dados de muitos usuários do péssimo desfragmentador que passou a vir embutido no MS-DOS.

Após terem cometido coisas como o Windows 95 ou o Bob (alguém já ouviu falar desta interface criada por Melinda Gates, esposa de William?), os hunos de Redmond conseguiram finalmente inovar: ao saberem que a concorrência trabalhava em algo, passavam a anunciar - para dentro de meses - produtos superiores, que jamais iriam lançar ou lançariam anos depois. Como consequência, o mercado, sempre de olho num produto com a grife MS, dava preferência ao que não viria, e a concorrência era desestimulada. Esta prática foi muito comum nos anos 80 e 90, mas resiste até hoje. Às vêzes ela nem se destina à aniquilação da concorrência, apenas a iludir consumidores ou encobrir incompetências - como é o caso do WinFS; presente nas especificações do Longhorn em 2004, o supostamente inovador sistema de arquivos sumiu quando aquele sistema operacional, já batizado como Vista, foi lançado em janeiro de 2007. No decorrer daqueles três anos de expectativas em suspenso, cunhou-se, para o Longhorn, o merecido apelido de "Longwait". Já em tentativa de esmagar a concorrência da Novell no segmento de redes, o Microsoft Windows NT 5.0 (ou Windows 2000) teve seu lançamento adiado por três anos, numa estratégia comercial alavancada por problemas técnicos.

Mas o que a Microsoft fez, ao instalar-se confortávelmente na poltrona do virtual monopólio? Passou a ignorar controles de qualidade e marketing (estudo das necessidades do mercado, não confundir com publicidade), perpetrando produtos como o Vista, um erro desde o surgimento; além da ausência de características prometidas (como o WinFS), faltou comunicação proativa com fabricantes de periféricos e respectivos device drivers. Como consequência, era impossível fazer funcionar webcams, scanners, placas de áudio ou vídeo e por aí vai. E o que a Microsoft fez, ao detectar o desastre anunciado? Tentou ganhar fôlego financeiro, inflando artificialmente as vendas do Vista, empurrando-o em operações de venda casada ao redor do mundo, embutido em equipamentos novos. Ouvi pessoalmente a confirmação desta prática, vinda de um atendente de suporte da Dell. Segundo esta fonte, havia um acordo com a Microsoft, no sentido de que a Dell não fornecesse suporte técnico a clientes que optassem pelo XP pré-instalado, ao invés do Vista. Comprador de Vista tinha suporte, comprador de XP não. E, por recusa a fornecer suporte, entenda-se também a recusa em disponibilizar device drivers para instalação de periféricos sob o XP... Assim é fácil vender mais algumas dezenas de milhões de réplicas de um ôvo podre, não é?

Mas tem mais: falhas crônicas e já detectadas no projeto de componentes como o ActiveX ou do Internet Explorer têm sido e continuarão sendo portas escancaradas para ataques de hackers de chapéu preto (os black hats, que se opõem aos white hats, os do bem). O mundo gira e recebo, neste 15 de julho, um alerta de segurança da Computerworld (mais um...), reportando que
"A Microsoft divulgou nesta terça-feira (14/7) seis atualizações de segurança para corrigir nove vulnerabilidades em seu pacote mensal de correções, conhecido como Patch Tuesday".
Uma das falhas corrigidas neste patch é um
"bug no controle ActiveX [que] havia sido relatado à Microsoft há mais de 15 meses" [grifo meu].
Esta brecha que afetava o Internet Explorer e da qual a Microsoft tinha ciência há mais de um ano, vinha sendo cada vez mais explorada em ataques a usuários nos últimos tempos. Já o conserto de outra falha, que também afeta a segurança de usuários do IE, porém descoberta na véspera da distribuição do pacote de remendos, vai ficar para uma outra ocasião. Não parece coisa de quem precise concorrer para sobreviver.

Mas, juntando o desleixo ao condenável, nesta mesma data Steve Balmer, CEO da Microsoft, declara que o anúncio do Chrome OS é "vaporware", segundo o IDG Now. Ora, vaporware é o nome que se dá àquela prática lapidada pela Microsoft, de prometer o que não entregará, visando prejudicar a concorrência. É o software vapor, aquele que se desmancha no ar, que não se pode tocar e muito menos utilizar.

Apenas para alinhar os ponteiros, o Chrome OS é um sistema operacional projetado pelo grupo Google para utilização em netbooks, um forte concorrente de uma futura versão light do Windows 7, o sucessor do Vista. Após o lançamento do Android, para celulares e smartphones, o Google investirá em computadores propriamente ditos, de olho também no mercado de notebooks e desktops.

Mas Balmer vai mais longe e diz que "pelo que sei você não precisa ter dois sistemas operacionais. É bom ter um". Como assim, Steve? Windows Mobile 6.5 (lançado em maio de 2009), Windows Mobile 7 (já anunciado como sucessor do recém-lançado 6.5), Windows HPC Server 2008, Windows Server 2008, Windows Home Server(!), Windows Vista, Windows 7 (que tampona provisoriamente o fiasco do Vista), Windows Azure (voltado a cloud computing, com lançamento previsto para 2010)... as superposições na linha do tempo não são poucas. A Microsoft observa tanto o quintal dos vizinhos, buscando cachorros pequenos, que mal sobra percepção para o elefante às suas costas.

Skype x Messenger, Gmail x Hotmail, Firefox x Internet Explorer, Android x Windows Mobile, Thunderbird x Outlook, Linux x Windows... é bom viver num mundo tecnológico que seja ao menos dual. Um concorrente não desprezível do Windows em alguns nichos de utilização, o Linux é - como talvez o Chrome OS venha a ser - um dos alvos prioritários do desdém da Microsoft e da massa de ecos de um mercado que parece anestesiado. Se Linux fosse realmente um brinquedo hermético de nerds, como se diz, a IBM não se daria o trabalho de pré-instalá-lo em máquinas como o IBM 390, como no caso da Caixa Econômica, por exemplo; ainda que a Caixa use a plataforma OS 390 naquele monstro configurado em dupla redundância, ele é simplesmente o responsável pelo processamento de toda a área não-bancária da Caixa - coisa de gente grande.

Já as táticas fabris, mercadológicas e publicitárias da Microsoft, estas continuam sendo coisa de gente eticamente pequena.

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* O autor tem mais de 30 anos de experiência em TI, em ambientes de
mainframes, minicomputadores, supermicrocomputadores e microcomputadores, nas atividades de levantamento de requisitos, projeto, desenvolvimento, testes e homologação de sistemas, suporte, administração de dados e de bancos de dados, treinamento e coordenação de equipes de desenvolvimento.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A artista plástica Lena Bergstein expõe no Rio





Lena Bergstein é pintora, gravadora, professora de desenho e gravura, e programadora visual. Mora no Rio de Janeiro, onde nasceu.

Cursou o Instituto de Belas Artes (hoje Escola de Artes Visuais) e o atelier de Gravura do Museu de Arte Moderna do Rio;

Participou das mais importantes bienais de gravura nacionais e internacionais, como Curitiba, Ljubljana, Miami, Fredrikstad, Bradford, Taiwan e Montevideo;

Expôs gravuras e pinturas na Petite Galerie, pinturas na galeria Cândido Mendes, montou a instalação Tenda no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Expôs pinturas e os originais do livro "Enlouquecer o Subjétil" no Paço Imperial;

Expôs ainda na Galeria Segno Grafico (Itália), Centro Internazionale di Grafica (Itália), Biblioteca Wittockiana (Bélgica), e Galeria Debret (Paris);

Morou dois anos em Paris, onde participou dos seminários de Jacques Derrida: "Questions de Responsabilité: Du secret au témoignage" e "Hospitalité et Hostilité";

Ganhou o Prêmio Jabuti pela melhor produção editorial de 1999 com o livro "Enlouquecer o Subjétil", criado em parceria com Jacques Derrida;

Lecionou técnicas alternativas de gravura e iniciação à gravura na PUC/RJ, entre 1980 e 1983;

Lecionou desenho de observação, no Departamento de Artes da PUC/RJ, entre 1997 e 1998;

Deu aulas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage;

Apresentou, em janeiro de 2003, "Tramas", exposição de pinturas na Sílvia Cintra Galeria de Arte, e "Amarelo Cromo", exposição de gravuras, no Museu da Chácara do Céu;

Expôs telas e gravuras, no Istituto Ítalo Latino-Americano (Roma) e na Scuola Internazionale di Gráfica (Veneza), em 2004;

Participou da exposição coletiva “Só Pintura”, na galeria Mercedes Viegas, Arte Contemporânea, em 2006;

Participou da exposição “Manobras Radicais” no CCBB de São Paulo, em 2006;

Expôs "A Escrita do Silêncio", em 2004, no Solar de Grandjean de Montigny (PUC-RIO), trabalho sobre o qual escreveu:


A Escrita do Silêncio

Muitas coisas se passaram nesses últimos anos e meu trabalho foi gradualmente mudando. Reparei que as escritas de letras e palavras que impregnavam o trabalho foram se tornando mais espaçadas, mais esgarçadas, e foram pouco a pouco desaparecendo, dando lugar a uma outra escrita, bem diferente, mas que já aparecia pontualmente em desenhos e telas anteriores. Eram costuras, primeiro à mão, depois à máquina, à mão e a máquina, uma tessitura de pontos, linhas, nós, cerzidos, alinhavos, pespontos, pontos em ziguezague.

Se a escrita fonética de textos e palavras me parecia agora excessiva, barulhenta, as costuras a substituíam por um certo silêncio, uma pausa, um vazio povoado de possibilidades."Este é um livro silencioso, e fala, fala baixo", escreve Clarice Lispector, ou ainda como diz Rabi Nahman de Bratislav, numa de suas parábolas, "ele tocava um violino mudo - ou quase, pois o rei acabou por captar uma nota extremamente delicada".

O único ruído que se ouvia era o toque toque toque, da máquina costurando, os ritmos cadenciados do costurar, do cerzir, do levantar a sapatilha que, por sua vez, levantava a agulha e a linha principal, o retrós, do virar o tecido mudando o rumo da costura. Às vezes era necessário enrolar outra vez a linha da carretilha, ou bobina, que ficava embaixo do retrós. O ruído da carretilha enrolando a linha a toda velocidade e depois recolocá-la numa espécie de caixinha, fechar a tampa, abaixar a sapatilha, descer a agulha e a linha e outra vez toque toque toque.

Apesar de não se chamar retrós ou linha mestra, era a linha mais fina da carretilha (ou bobina) que dava solidez e consistência à costura. Mesmo que só aparecesse inteiramente no avesso do tecido, era ela que estruturava a costura e que a prendia ao tecido, arrematando-a.

A busca de uma extrema simplicidade, um quase nada trabalhado que desse a impressão de um se despir, era a trajetória que o trabalho tomava. E eu o seguia.

Através dessas linhas trançadas e costuradas, uma outra questão foi de repente vislumbrada. No texto Un Ver à Soie, de Jacques Derrida, do livro Voiles, me fascina a frase "une femme tisserait comme um corps secrète pour soi son propre textile". Comecei a pensar que a partir das linhas costuradas estaria tecendo uma tessitura, uma veste, um xale, o meu próprio, o meu xale.

Esse xale seria de um tecido da Babilônia, do linho mais puro, bordado de jacintos, de anêmonas violetas, de escarlate e de púrpura, das flores silvestres que traziam o índigo. Seria têxtil, táctil, "doçura mais doce que a própria doçura", uma outra pele, incomparável a qualquer outra pele. Ele não velaria nem esconderia, não mostraria nem anunciaria - ao contrário, ele traria a memória.

Meu xale, todo singular, sensível e calmo, que ia se criando a partir do meu trabalho, uma manufatura de telas, um entrelaçar de fios e fibras...

A leitura do texto Un ver à soie foi da ordem de um acaso, de um encontro que estimula e provoca, que vem se acrescentar a uma elaboração já em andamento abrindo novas nuances de horizontes possíveis. Ampliou minha relação com as tramas, as urdiduras, a tecelagem, fios torcidos e retorcidos, trançados, tecidos sucessivos e infinitos.

O que também ecoou dentro de mim, e "que se joga no tecido desse texto", é sua relação com o fazer da arte, com a criação, ao mesmo tempo com a subjetividade do artista. Constante e lenta elaboração, no diminuir e aumentar os pontos de uma trama, no fazer e desfazer das malhas. Transformação incessante e permanente, pela qual as coisas se criam e se dissolvem em outras coisas, algo que não é, mas se torna, que existe em constante alteração. Um se perder e se reencontrar, nascimento contínuo, que conduz a arte através da noite, mais longe que o visível ou o previsível, experiência muda de um sentido mudo.


sábado, 4 de julho de 2009

Jânio Quadros - um acerto e um erro

Ricardo Goldbach

Em saborosa matéria de Augusto Nunes sobre Jânio Quadros, publicada na Veja de 4 de junho de 1980, um box traz impressões do ex-presidente sobre pessoas e temas.

É impressionante constatar, neste final da primeira década dos anos 2000, como Jânio conseguiu acertar e errar tanto, ao mesmo tempo.



reprodução do acervo digital da revista Veja, originalmente sem as marcações

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ações afirmativas, resultados negativos

Ricardo Goldbach

(foto de Christopher Capozziello, The New York Times)
O Corpo de Bombeiros de New Haven, cidade do estado de Connecticut, realizou, no ano de 2003, exames para promoção aos postos de tenente e capitão. Como nenhum candidato negro conseguiu ser aprovado, a prefeitura houve por bem anular o exame, alegando que não queria ferir as leis dos direitos civis, vigentes desde a década de 1960. Em português claro, a administração temia processos judiciais por discriminação racial. Os 19 bombeiros brancos aprovados recorreram à Corte de Apelações e foram derrotados, mas uma decisão tomada pela Suprema Corte norte-americana neste dia 29 de junho reverteu a primeira sentença, por cinco votos contra quatro, expondo os limites do que se convencionou chamar de ação afirmativa, também conhecida como "discriminação positiva". De acordo com o voto do juíz Anthony M. Kennedy,
fear of litigation alone cannot justify an employer’s reliance on race to the detriment of individuals who passed the examinations and qualified for promotions.
(o mero receio de litígio não justifica que um empregador tome decisões com base em questões raciais, em detrimento dos indivíduos que foram aprovados e se qualificaram para as promoções).
Uma coisa é lutar para que seja assegurado a um cidadão negro o direito de sentar-se em um ônibus, sem a obrigatoriedade de cessão do lugar a um branco, como o fez Martin Luther King, com o posterior apoio de John F. Kennedy, nas décadas de 1950 e 1960. Outra coisa seria considerar válidos somente os concursos que tivessem representantes da etnia negra ou de qualquer outra, "positivamente discriminada", entre os aprovados.

Aparentemente, na raíz das distorções cometidas em nome da democracia está justamente a distorção do conteúdo semântico de "democracia". Com o significado original de "governo exercido em nome do povo" (demos kratein), "democracia" passou, por corruptela, a designar incorretamente o exercício da democracia direta (governo exercido diretamente pelo povo), o que termina por abrigar reivindicações de direitos abusivos, ou mesmo imaginários.

Um bom exemplo desta distorção são as eleições para elaboração da lista de candidatos a reitor das universidades públicas brasileiras. Votam alunos, professores, funcionários de segurança e conservação patrimonial, ainda que com pesos diferentes por categoria. Esta assim chamada "congregação" não tem plenas condições de avaliar os méritos administrativos e acadêmicos dos candidatos, e por vezes tornam-se dócil massa de manobra de movimentos sindicalistas, cujos projetos de poder ultrapassam as fronteiras da academia. Esta também é a opinião de Jacques Schwartzman, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e ex-membro da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional da Educação:
"... com algumas exceções, só disputa a eleição quem tem capacidades histriônicas e políticas. Pouco importa a qualidade como administrador. A equipe do reitor também acaba por refletir a composição política que o elegeu, e não necessariamente os mais aptos".
Basta conversar com alunos que convivem com os agraciados pelo sistema de cotas, nas universidades, para se constatar o quão perverso é o resultado. Aulas de "nivelamento" são insuficientes para dotar os quotistas de capacidade para acompanhamento das aulas convencionais, e o resultado é o nivelamento do conteúdo, por baixo. Que profissionais podem sair de tal sistema de ensino, senão os frutos estragados deste nivelamento? Pode parecer "politica" ou "racialmente" incorreto, mas o fato é que cabe ao Estado prover melhor preparo ao ingresso na universidade, ao invés de loteá-la, num processo de diminuição da qualidade de ensino. A pretensa compensação não vale, em absoluto, o irreparável estrago causado.

Enquanto as vagas nas universidades públicas brasileiras são franqueadas - num grotesco e populista processo de mea culpa - a quem não tem mérito intelectual minimamente suficiente, em New Haven, pelo menos, os mais aptos comandarão os bombeiros. Independentemente da pigmentação da pele, como deve ser, já que o fogo não reconhece políticas de cotas.


sábado, 20 de junho de 2009

Sobre jornalistas não diplomados

Ricardo Goldbach

As discussões sobre a discutível decisão do STF são muitas vezes temperadas por paixões; de um lado, citações a Fernando Gabeira e Ricardo Kotscho, ambos bem-sucedidos representantes da ala dos sem-diploma, numa argumentação contrária à necessidade de graduação específica. Do outro lado estão posições apaixonadas em defesa do que poderia passar por uma legitimação de reserva de mercado ou por grita classista de igual teor.

Mas é preciso lembrar que o STF não está a serviço apenas do lógico, do razoável, do esperado ou do óbvio previamente codificado; como a própria instituição tem demonstrado nos últimos tempos, interesses políticos, patronais, menores mesmo, são ali fatores de determinação, numa evidência da falibilidade - de boa ou má-fé - que caracteriza os feitos humanos.

Se o que alegadamente se consegue agora, com a decisão do STF, é a universalização da liberdade de expressão, eu pergunto: se um julgamento em tribunal é uma manifestação argumentativa de posições contraditórias, porque não posso me candidatar ao exercício da função de Defensor Público? Ou de Promotor de Justiça? Afinal, possuo capacidades mínimas de expressão e argumentação que me permitissem a aventura. Mas já conheço a resposta: o exercício daquelas funções pressupõe conhecimentos acerca dos códices, da teoria, da praxis e da ritualística envolvidas nas lides processuais. Não seria o caso, então, de o STF informar-se melhor - isso mesmo, informar-se melhor - e levar em conta o que a ementa de um curso de Jornalismo efetivamente acrescenta ao cidadão que, a princípio, tem apenas mero gosto pela coisa? Do domínio das técnicas de reportagem à compreensão fundamental das categorias éticas e jurídicas envolvidas na abordagem jornalística de uma pauta, passando pelo estudo e meditação sobre os aportes humanísticos oferecidos por saberes tais como o da filosofia, sociologia e antropologia, não é pouco o que difere um escrevinhador de um jornalista, e para muito melhor, no caso em questão.

O exemplo de jornalistas famosos e não-diplomados, como Gabeira e Kotscho, não deve ser tomado como pá de cal no debate, uma vez que já houve um tempo na História no qual absolutamente nenhuma profissão era regulamentada. Ainda assim casas eram construidas, gado era transportado, abatido e vendido, mercadorias eram comercializadas em feiras, curandeiros curavam. Mas a ausência de regulamentação prévia não aboliu a necessidade de estabelecimento de códigos e normas de conduta profissional ou exigência de formação específica. Pelo contrário, qualquer profissão que hoje envolva responsabilidade moral ou material é muito bem regulamentada. E no que consiste o exercício do jornalismo, senão no fornecimento de um produto - informação apurada e tratada, com linguagem adaptada ao veículo - que pode causar danos morais e materiais em caso de defeito de fabricação?

Vejo também muita confusão ser causada pela mistura, em um único saco, das funções de repórter e de articulista, por exemplo. O primeiro cumpre pautas pré-definidas, sendo levado às tarefas de pesquisa, apuração de fatos e entrevistas, tudo para relatar algo de interesse da sociedade, com objetividade que rejeite os "achismos" e opiniões do profissional. A linguagem deve ser direta e correta, em texto bem encadeado e fiel a fontes gabaritadas e documentos idem. Já ao articulista, categoria em que são encontrados os contra-exemplos da atualidade, é permitida a expressão de opinião, em função de sua própria e notória trajetória pessoal ou profissional. Desta forma, se vê diariamente artigos escritos por médicos, advogados, filósofos, economistas e clérigos, sem que isso configure exercício ilegal de profissão.

A argumentação favorável à liberalização do exercício da profissão de jornalista, segundo a qual a Lei de Imprensa era um entulho do autoritarismo a ser removido, também não se sustenta. Pelo contrário, o "é proibido proibir", que surgiu na França como resposta aos tempos de treva dos anos 60, tem desaguado cada vez mais em leniência e permissividade, num movimento pendular oposto, que confunde autoridade com autoritarismo, e que produziu efeitos até na educação de crianças e adolescentes, uma vez que reprimir "é feio", passou a ser politicamente incorreto.

Como subproduto benéfico da decisão do STF, tenderão a sobreviver as instituições realmente capacitadas e dedicadas à formação de profissionais; aquelas a que se convencionou chamar de caça-níqueis tenderão a desaparecer, sepultadas pelo ainda menor valor dos diplomas que imprimem e vendem em prestações mensais.

Por fim, como exemplo extremo de ataque a uma suposta reserva de mercado, descubro texto no site do Observatório da Imprensa, de autoria do jornalista Maurício Tuffani. A peça é coalhada de citações, reproduções e até mesmo de expressões matemáticas - que se estendem por três estéreis parágrafos - tudo em formato reconhecidamente acadêmico. Chega a lembrar o que o psicanalista Eduardo Mascarenhas, opositor intelectual de José Guilherme Merquior, classificava de "terrorismo bibliográfico", tamanha a intenção de fazer o leitor perder-se ao acompanhar a ancoragem dos argumentos em terceiros eruditos.

Vertendo para a forma textual minha resposta à Lógica Proposicional de Primeira Ordem empregada por Tuffani para desqualificar por completo a necessidade de diploma para o exercício da profissão de jornalista, e igualmente empregando aquela lógica, me restou concluir, em resposta ao autor, que:
  1. favelas consistem de uma enormidade de edificações erguidas em encostas de substrato rochoso, de configurações topográficas e geológicas de contorno sabidamente não trivial;

  2. as ditas edificações, como também se sabe, são erigidas por pedreiros, carpinteiros, mestres de obra e assemelhados;

  3. logo, não é necessário que alguém seja diplomado em Engenharia Civil para construir, com sucesso, casas em encostas de formação geológica rochosa, quod erat demonstrandum.

Mas prefiro me alinhar com o professor de Legislação e Ética no curso de Jornalismo da Univali (SC), doutorando em Jornalismo na USP e Assessor de Comunicação do Ministério Público da Federal, Rogério Christofoletti, quando ele diz que:

"Dispensar o diploma hoje é como rasgar o documento do obstetra e reconvocar a parteira em seu lugar. Ela pode ser hábil, atenciosa e certeira, mas não teve acesso aos conhecimentos do médico, não dispõe das mesmas condições de operação e expõe as gestantes a riscos maiores. Tempos atrás, quase não havia obstetras, e sempre se recorria às parteiras. Mas o tempo passou, e jogar o diploma do médico no lixo é voltar atrás, permitir-se involuir".

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Economia e Sincronicidade


Num desses acasos que insistem em acontecer, imediamente após o post sobre Franco Modigliani recebo por e-mail a fábula abaixo, que faço questão de compartilhar aqui.

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"Numa pequena vila na costa sul da França chove e nada de especial acontece. A crise é sentida. Todo mundo deve a todo mundo. A população está carregada de dívidas...

Subitamente, um rico turista russo chega ao foyer do pequeno hotel local. Ele pede um quarto e coloca uma nota de cem Euros sobre o balcão. Pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspecionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se não lhe agradar.

O dono do hotel pega a nota de €100 e corre ao fornecedor de carne a quem deve €100. O talhante pega o dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar €100 que devia há algum tempo.

Este, por sua vez, corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este corre a entregar os €100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os €100 e corre ao hotel a quem devia €100 pela utilização casual de quartos para atender clientes.

Neste momento, o russo desce à recepção e informa ao dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos €100. Recebe o dinheiro e sai.

Não houve neste movimento qualquer lucro ou valor acrescido. Contudo, todos liquidaram as suas dividas e estas pessoas da pequena vila costeira agora encaram o futuro com otimismo.

Dá o que pensar..."


Abrindo uma exceção, para Franco Modigliani

ou "uma previsão sobre o estouro da 'bolha' econômica"

Ricardo Goldbach

Vou fazer um Ctlr-C / Ctrl-V, apesar do motto deste blog.

O caso é que o laureado com o Prêmio Nobel Honorário de Economia de 1985, Franco Modigliani, merece ser reconhecido por sua visão inteligente e premonitória, apesar de a premonição não ser aqui um dom metafísico, mas antes uma capacidade de interpretar fenômenos e acontecimentos dos processos econômicos que, queiramos ou não, regulam nossas vidas. Reproduzo aqui uma brilhante antecipação daquele economista, falecido em 2003, do momento que vivemos, em tempos de crise econômica de escala planetária, na forma de matéria de Floyd Norris, originalmente veiculada no The New York Times em 01/04/2000, e posteriormente reproduzida no Estado de São Paulo e no site do Observatório da Imprensa. É leitura de qualidade.

Observação: o prêmio ao qual a matéria de Norris faz alusão, o Nobel Memorial Prize de Economia, não tem associação direta com os desígnios originais de Alfred Nobel ou com o Prêmio que leva seu nome. À época da concessão, tal distinção levava o nome de Prêmio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel. Esta associação entre o prêmio concebido pelo Banco da Suécia e o nome de Nobel é repudiada pelos herdeiros do inventor sueco, segundo matéria do Le Monde Diplomatique veiculada na edição online de 12/02/2005, assinada por Hazel Henderson. Uma versão traduzida desta matéria pode ser encontrada aqui, sob o título "A impostura do Nobel de Economia". No entanto, o site oficial do Prêmio Nobel faz menção a Modigliani como sendo o laureado em Economia, no ano de 1985.

Vamos ao Ctrl-V da matéria de Floyd Norris, que é o que interessa.

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Nobel de economia prevê estouro da ‘bolha’


"Franco Modigliani afirma que a atual mania por ações da Internet e de outras companhias de tecnologia não é irracional. Entretanto, é uma bolha, e vai explodir. ‘Posso mostrar, com precisão, que há dois preços para uma ação’, afirmou Modigliani, em entrevista telefônica. O preço que ele prefere é o baseado em fatores fundamentais, como lucros e índices de crescimento.

‘Mas’, acrescentou, ‘a bolha é racional, de certa forma.’ A expectativa de crescimento produz o crescimento, que confirma a expectativa. As pessoas comprarão a ação porque seu valor aumentou. ‘O problema é que o preço de bolha é naturalmente instável’, admitiu. ‘Ele só continuará a aumentar enquanto as expectativas continuarem a crescer’, diz. ‘Mas assim que os investidores se convencem de que determinada ação não está aumentando, nenhum deles estará disposto a manter um papel pelo fato de ele estar supervalorizado.’ Farão questão de vendê-lo e a ação cairá abaixo do preço determinado pelos fundamentos.

Modigliani sabe alguma coisa sobre isso. Atualmente com 81 anos, ele recebeu o Nobel Memorial Prize de Economia em 1985, em parte por causa do seu trabalho pioneiro, desenvolvido justamente em torno da análise dos fundamentos.

Um de seus ‘insights’ - que pareciam estranhos na década de 50, quando ele propôs suas teses pela primeira vez - foi o de que o preço dos valores mobiliários de uma companhia, inclusive o de ações e obrigações, deveria basear-se nos lucros esperados, descontados a uma taxa de juros apropriada. Isso também se aplica ao mercado de ações como um todo.

Sob essa luz, não é fácil racionalizar as gigantescas relações preço/lucro.

Modigliani argumenta que é impossivel, para a economia, crescer tão rapidamente quanto o mercado parece estar prevendo, ainda que algumas companhias venham a ter resultados muito bons.

‘Não se pode acreditar que os lucros das companhias continuarão a aumentar, sempre, na proporção de 7%’, enfatizou Modigliani. ‘Em algum momento, toda a renda nacional será tomada pelos lucros.’ Esses cálculos podem ser ignorados quando os investidores julgam estar testemunhando a chegada de uma nova era brihante, como ocorreu na década de 20 com o broadcasting e está acontecendo agora com a Internet. O presidente Bill Clinton será o anfitrião da Conferência sobre a Nova Economia, que se realizará na Casa Branca, na próxima semana.

Modigliani não é um homem dado a falar muito sobre o mercado de ações com freqüência. Telefonei-lhe depois de ouvir dizer que ele havia falado sobre bolhas em um discurso pronunciado na sede da Boston Security Analysts Society. No único discurso que havia dirigido anteriormente àquele grupo, em 1976, Modigliani havia caçoado de Wall Street por subvalorizar as ações.

Ele acha que as ações que compõem a Média Industrial Dow Jones poderiam cair para 8.000 ou 9.000 pontos, mas acha que as ações de companhias de tecnologia são muito mais vulneráveis. No caso da Internet, é muito dificil determinar os fundamentos para compreender até que ponto se trata de uma bolha’, afirmou. ‘Na minha opinião, há muito de bolha nessas ações.’ E então? ‘Não há bolha que se esvazie sem fazer barulho. Por sua própria natureza, a bolha tem de explodir. Eu não sei quando.’ Mas isso acontecerá e a dor será maior se a bolha for grande. Ele acredita que o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) tem razão em aumentr as taxas de juros, mas talvez esteja agindo lentamente demais.

Não é dificil encontrar administradores que admitam, em particular, que estão petrificados, mas seus portfólios estão plenamente investidos. A maioria deles estudou Modigliani na Escola de Administração de Empresas. A maioria viu seus pares que não compraram as ações mais ‘quentes’ perderem os respectivos empregos. Seu nervosismo aumenta com a volatilidade do mercado.

Modigliani começou a vender ações há cerca de um ano e não se desculpa por isso. ‘As únicas pessoas que se saíram bem em 1929 foram aquelas que venderam cedo demais’, afirmou. ‘O teste final ocorrerá se houver um colapso. Se não houver, eu estou enganado.’"

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O melhor emprego do mundo

Ricardo Goldbach

Recentemente o mundo conheceu o vencedor da promoção que buscava um zelador para uma ilha na Grande Barreira de Corais, na costa australiana. A propaganda anunciava aquele como sendo o melhor emprego do mundo. Mas será que era mesmo?

Descobri um outro trabalho que, se não for melhor do que o melhor, ao menos chega bem perto ou empata. Quem tem esse ofício - e nem ao menos tem patrão - é Clark Little. A mulher do ex-surfista de Waimea, no Havaí, pediu-lhe um dia que fizesse uma foto para usar como decoração, pendurada na parede do quarto do casal. Clark pegou a câmera - à época uma Nikon D200, com uma incrivelmente boa grande angular - pulou na água, fez fotos de dentro do mar e não parou mais. Hoje ele tem fama internacional, é objeto de matérias nas grandes redes de televisão norte-americanas e não pensa em ganhar a vida de outra forma - suas fotos têm alto valor comercial. Alto o suficiente para ele ter podido comprar a D3 que usa hoje em dia dentro da caixa estanque, dentre outras coisas.





Clark Little no local de trabalho (autoria desconhecida)





Ainda no local de trabalho... (autoria ainda desconhecida)



E dois dos resultados:




"Marlin"




"Sand Monster"

Terra de ninguém

Ricardo Goldbach

Quanto mais evolui a chamada inclusão digital ao redor do planeta, mais iniciativas surgem na esteira das oportunidades comerciais. É coisa absolutamente normal, manifestação do espírito empreendedor que já existia antes dos textos marxistas, antes mesmo de o capitalismo reconhecer-se pelo próprio nome.

O problema é que rede está infestada com as mesmas práticas apelativas, quando não antiéticas ou ilegais, que se vê no mundo de tijolo e cimento. Agora mesmo, mais uma rede de relacionamentos online começa a se promover no Brasil e as mesmas táticas condenáveis de sempre são usadas na empreitada.

Desta vez é a inglesa Badoo que quer disputar fatia de mercado com as operações já estabelecidas. Este clone das redes sociais famosas usa o resultado de phishing para se promover. "Phishing" é o nome que se dá ao uso de práticas e artifícios que enganam os usuários e acabam viabilizando o arrastão de endereços que volta e meia infecta nossas caixas postais com worms, que por sua vez enviam os endereços de todos os nossos contatos para os malfeitores. Algumas vêzes o phishing é alimentado pela ingenuidade de uns poucos (?), aqueles que repassam para seus contatos mensagens que trazem expostos todos os endereços dos destinatários anteriores. As consequências? Os endereços acabam nas bases de dados de spammers ou nos CDs vendidos a R$1,99 pelos camelôs. Estes dados, por sua vez, são comprados por marketeiros inescrupulosos, no Brasil e em Shangai, ou então na Inglaterra, pelo povo do Badoo, e assim a maré de lixo postal reflui de volta à nossa porta.

Comecei a receber recentements mensagens de gente de quem nunca ouvi falar, me convidando para aderir à rede Badoo de fulano, que mora na Itália, ou de sicrano, habitante da Tunísia. Uma das mensagens continha, sintomaticamente, convite de uma pessoa que me incluiu, à revelia, em sua lista de mensagens melosas, aquelas compostas em Power Point e repassadas ad nauseam por este mundão afora. Tudo com os nomes dos destinatários à mostra, contrariando a netiqueta que recomenda o uso de cópia oculta. Só que depois que a pasta de dentes sai do tubo não há mais volta, não há bispo com quem se possa queixar.

A Internet, como já se imaginava em meados da década de 90, virou um universo paralelo onde se copia as práticas do asfalto. Não é sintoma de paranóia proteger nossos dados pessoais e os de nossos amigos, evitando a disseminação indesejada deles. O delírio paranóide é uma reação temorosa diante de uma ameaça imaginária, mas não há nada de imaginário aqui; com o crescimento exponencial da Internet, aumenta também a incidência de práticas antiéticas ou criminosas através dela. A Internet virou mesmo terra de ninguém.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Bansky


Ricardo Goldbach






"When I was a kid I used to pray every night for a new bicycle. Then I realized God doesn’t work that way, so I stole one and prayed for forgiveness”.

[Tradução livre: Quando criança, eu rezava todas as noites, pedindo uma bicicleta nova. Ao perceber que Deus não agia desta forma, roubei uma e rezei pedindo perdão.]

Este é o manifesto de Bansky, um artista de rua cujo nome real é desconhecido, mas que tem trabalhos preservados pelo conselho municipal de Bristol, Inglaterra, onde teria nascido em 1975.

Mordaz, sensível e realista, Bansky tem como temas o Estado e o indivíduo, o non-sense, a denúncia cáustica, às vêzes um humor fino e descomprometido, como se pode ver nestas reproduções que mostram o domínio do artista sobre a técnica do stêncil.

A obra acima - Flower Chucker (O atirador de flores) - está presente no filme "Age of Stupid", que em uma das cenas traz um homem se perguntando, no mundo devastado de 2055: "Por que não interrompemos as mudanças climáticas enquanto havia tempo?"


Veja mais sobre esta fascinante obra em www.bansky.co.uk


(clique nas imagens para vê-las em tamanho ampliado)

"Menina na chuva"


"Revista em Pilton"

[NT: Pilton é um subúrbio ao norte de Edinburgh, Escócia, habitado por operários de baixa renda]


"Bronx"


"Mídia"


"Flor"


"Saqueadores"

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Dylmo Elias - Missa de trigésimo dia


A missa de trigésimo dia de falecimento de Dylmo Elias será realizada às 19h da próxima quinta-feira (21/05), na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, situada à Praça Edmundo Rego nº 27, Grajau.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Não faça isso em casa - pode ser um tiro no pé

ou "uma história que a Microsoft gostaria de esquecer"

Ricardo Goldbach*

Vem de longe a sequência de erros e consertos da empresa de Redmond. Tem sido assim desde o Windows 2.0, cujo lançamento em dezembro de 1987 passou desapercebido, até o Windows 7.0 RC, lançado há poucos dias e que a cada hora sofre novas correções. Como ocorreu com o Windows Vista, nota-se no Windows 7 RC uma sequência infindável de erros primários, nem sempre corrigidos a tempo. Estamos em maio de 2009 e acabo de ler que a Microsoft corrige falha importante no Windows 7 RC.

Um pouco de História

Com uma interface gráfica que era inteiramente suportada pelo sistema operacional MS-DOS, o Windows 95 (lançado em agosto de 1995) sucedeu as versões 3.0, 3.1 e 3.11. Mas, da mesma forma que os antecessores, o 95 continuava a ser apenas uma versão do MS-DOS, embelezada pelo uso do mouse e de uma tela gráfica com ícones coloridos. Falhas gritantes que existiam no 95 fizeram com que a MS o substituísse pelo Windows 98, que se mostrou igualmente como um queijo suiço, no que se refere a buracos na segurança e falhas de execução e usabilidade.

Apostando no universo corporativo, a Microsoft já havia iniciado o desenvolvimento, em 1993, de um novo sistema operacional, o Windows NT (de New Technology). Ele deveria ser menos sujeito a panes, mais seguro e suportar aplicações multitarefa – na acepção acadêmica do termo, além de introduzir conceitos de segurança até então inexistentes, como o de propriedade (ownership) de arquivos por parte do usuário logado. Não vale a pena aprofundar aqui considerações sobre o amadorismo que caracterizou a implementação do NT, que chegou a permitir o tráfego de senhas não encriptadas através da rede.

Como o Windows NT prometia ser uma evolução das versões 3.x e 9x, grandes corporações e
instituições sérias, como a Marinha dos Estados Unidos, o adotaram como plataforma padrão de operação de suas atividades.

O
USS Yorktown e o Projeto Smart Ship

Em 4 de julho de 1984 a Marinha dos EUA comissionou o cruzador USS Yorktown (CG 48), da classe Ticonderoga, equipado com mísseis mar-ar e antisubmarino, além de lançadores de torpedo e outros armamentos usuais de naves desta categoria. Em dezembro de 1995 o cruzador foi escolhido como protótipo do ambicioso projeto Smart Ship (navio inteligente), passando a contar também com uma rede de 27 computadores, cada um deles dispondo de duas CPUs Pentium Pro de 200 MHz em configuração dual, todas rodando o Windows NT 4.0, sucessor do Windows NT 3.51.

O projeto Smart Ship visava a redução do contingente de marinheiros responsáveis pela operação de navios de guerra e tinha como meta a automação de operações da ponte de comando, monitorando e controlando processos de geração de relatórios de danos, de otimização do consumo de combustível, de propulsão e navegação, dentre outros.

Um projeto desgovernado em alto mar


Ocorre que em 21 de setembro de 1997, durante operações na costa do estado da Virginia, um administrador do sistema de bordo do USS Yorktown digitou um algarismo zero num campo do banco de dados do programa Remote Database Manager (administrador remoto de banco de dados), de acordo com um memorando do comandante da Frota de Superfície do Atlântico, Vice-Almirante Henry Giffin. Ainda segundo o memorando, uma divisão por zero – o conteúdo incorretamente digitado – causou um colapso do banco de dados, além de acarretar a paralisação de terminais remotos e consoles de gerenciamento da rede.

Na conclusão do memorando,
reproduzido no site da Universidade de Stanford, o Vice-Almirante Henry Giffin declara que
"The Yorktown's Standard Monitoring Control System administrators entered zero into the data field for the Remote Data Base Manager program. That caused the database to overflow and crash the LAN consoles and miniature remote terminal units".
A divisão por zero é uma impropriedade matemática que ocorre na execução de programas tanto por falha de projeto e implementação de sistemas operacionais, compiladores e aplicativos, quanto pela entrada incorreta e não verificada de dados, como no caso da pane do USS Yorktown. O resultado foi a conhecida tela azul ou blue screen of death, tão familiar aos usuários mais antigos do Windows. Como consequência da pane, o cruzador ficou à deriva por cerca de duas horas, sendo depois rebocado para a base naval de Norfolk. Dois dias se passaram até que as condições operacionais do navio fossem recuperadas.

"usar Windows NT [...] em um navio de guerra
é o mesmo que ter esperança
de que a sorte esteja a nosso favor"

Fé em Deus e mão na roda do leme?

De acordo com o engenheiro Anthony DiGiorgio, do Centro de Suporte Técnico da Frota do Atlântico, “usar Windows NT, conhecido por ter falhas em alguns modos [de operação], em um navio de guerra, é o mesmo que ter esperança de que a sorte esteja a nosso favor”. No original,
"using Windows NT, which is known to have some failure modes, on a warship is similar to hoping that luck will be in our favor".
É isso. Não consigo me esquecer do caso do USS Yorktown quando vejo a Microsoft emitir alerta após alerta, sobre novas descobertas em falhas de operação ou segurança de seus sistemas operacionais e aplicativos, principalmente quando se referem ao buffer overflow. Este problema resulta de erro em desenvolvimento de software (falta de observância forçada à presença do caractere null ou "\0" ao final de um buffer em memória). Falhas causadas por buffer overflow existem ou existiram em praticamente todos os aplicativos desenvolvidos até hoje pela Microsoft; em algumas vêzes ele compromete a segurança dos dados do usuário ou torna-o vulnerável a ataques online, em outras trava completamente o sistema.

Em tempo: à época, a Marinha dos EUA considerou esta primeira experiência com um Smart Ship como tendo sido um sucesso.

Já vi este filme antes. Hasta la Vista.


____

* O autor tem mais de 30 anos de experiência em TI, em ambientes de
mainframes, minicomputadores, supermicrocomputadores e microcomputadores, nas atividades de levantamento de requisitos, projeto, desenvolvimento, testes e homologação de sistemas, suporte, administração de dados e de bancos de dados, treinamento e coordenação de equipes de desenvolvimento.


Associações interessantes:

Government Computer News: Software glitches leave Navy Smart Ship dead in the water, matéria também referenciada no site do Massachussets Institute of Technology (MIT)

Universidade de Stanford: Military cases - Smart Ship

Site de Jerry Pournelle, colunista da revista Byte Magazine entre os anos de 1982 e 2006: The Yorktown Affair

Site oficial da Marinha dos EUA: Navy News

Site oficial da Marinha dos EUA: "Smart ships" initiatives successful

PC World (11/05/2009):
Microsoft corrige falha importante no Windows 7 RC

sexta-feira, 1 de maio de 2009

"O Jogo"

Ricardo Goldbach

Uma infinidade de jogos foi criada ao longo da história da Humanidade desde que o gamão – por muitos considerado o mais antigo jogo de que se tem notícia – foi inventado. Uns mais complicados, outros nem tanto. Alguns duram minutos, como uma rodada de pôquer, outros podem durar meses, como os RPG’s ou os jogos de simulação disputados coletivamente em rede. Todos os jogos se caracterizam pela existência de regras claramente definidas, o que, aliás, determina a própria essência de cada um deles, diferenciando-os dos demais. Mas um jogo que tem poucos anos de idade, conhecido como “O Jogo” ou “The Game”, consegue ser diferente, dentre os diferentes.

O Jogo se destaca por ter apenas três regras fundamentais. A primeira delas é na verdade um axioma, uma premissa auto-contida autocontida: “todas as pessoas do mundo estão jogando, mesmo que não o saibam”. Neste caso já estávamos jogando, eu e você. Vamos adiante, para a segunda regra, que diz que “quem se lembra da existência do Jogo está automaticamente eliminado”. Isso quer dizer que nós dois já perdemos. Parece coisa de loucos? Parece, mas espere, ainda tem mais. O que torna O Jogo mais interessante ainda é a terceira regra, segundo a qual quem perde é obrigado a anunciar o fato, em voz alta ou por escrito, para ao menos uma outra pessoa. Qualquer ser humano serve. Mas no fundo, o objetivo do Jogo é esquecer-se de que ele existe. E, como o ser humano não falha, alguns jogadores têm como objetivo secundário fazer os outros perderem, lembrando-os da existência do Jogo, por meio de uma infinidade de artifícios. Vale escrever mensagens em cédulas, pichar muros ou deixar grafitti em paredes de banheiros públicos.

Lembrou? Perdeu.


É na derrota de um jogador que a coisa fica verdadeiramente curiosa. Se quem ouve a confissão não estava jogando, aquele que confessou a derrota faz papel de doido; por outro lado, se o ouvinte estava jogando também, ele é lembrado da existência do Jogo, o que o torna automaticamente um perdedor. Então pode ser divertido perder (gostei desta parte, ser divertido perder algo), como no caso de um grupo de estudantes norte-americanos que perambulava por um shopping center. Alguma coisa lembrou a um dos jovens a existência do Jogo, ele perdeu e anunciou isto em voz alta. Imediatamente, o restante do grupo seguiu-o, também anunciando perda, quando então cada um soube que os demais também jogavam. Até o primeiro anúncio, nenhum deles sabia se os outros estavam ou não jogando – o que me faz lembrar, guardadas as diferenças, do observador da experiência do Gato de Schröedinger. Para completar a cena, um casal que estava numa loja próxima também anunciou a perda, lembrados que foram pelo grupo de adolescentes. Reação atômica em cadeia perde. Mas se é assim, da mesma forma que numa reação atômica, a massa combustível tende a se consumir e o ciclo se encerra, correto? Quase, pois aqui há uma diferença crucial: bastam três segundos ou uma hora, dependendo das limitações particulares de cada um, para que a pessoa se esqueça do Jogo e se torne imediatamente apta a recomeçar.

E?


E quando é que O Jogo termina de vez? Uma corrente de jogadores acredita que ele acabe em definitivo quando o primeiro-ministro da Inglaterra assim o determinar, em cadeia nacional de TV. Não consta que Downing Street tenha se pronunciado a respeito, no entanto.


E para que serve O Jogo? Ora, serve exatamente para aquilo que os jogos insistem em servir: distração, divertimento, uma pequena e sadia dose de breve alienação - talvez por isso tenha se alastrado como gripe entre jovens do mundo inteiro. Serve também, penso, como uma metáfora para outros jogos, como por exemplo o da Vida; será que perdemos quando a trazemos para um plano central da consciência, quando a tornamos mais cerebral do que supostamente ela deveria ser?


Associações interessantes:

Site oficial - LoseTheGame
O Gato de Schröedinger
Ironic process theory
Thought supression
Comunidade Facebook - I just lost The Game