terça-feira, 9 de julho de 2013

O atendimento de emergência na visão dos profissionais de saúde

Matéria produzida a partir de entrevista que fiz, em setembro de 2008, com o prof. Jorge de Campos Valadares, pesquisador da Fiocruz/ENSP.

por Ricardo Goldbach
Estudo liderado pela psicóloga Marilene de Castilho Sá, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz, e publicado na edição de junho dos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, conclui que trabalhar em um hospital de emergência é lidar com uma demanda que não se esgota na busca por assistência médica num sentido estrito. “Usuários desses serviços também buscam sentido e amparo, pois são uma população em grande parte à margem da cidadania e das redes sociais de apoio e solidariedade”, esclarece Marilene.
"O paciente chega ao hospital procurando um amparo que vai além do atendimento médico".
Segundo o doutor em Saúde Pública pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz/ENSP - onde é pesquisador titular - Jorge de Campos Valadares, “esse quadro não tende a se alterar enquanto não forem reestruturadas as condições de atenção primária e a infra-estrutura de oferta de serviços na área de saúde”. Valadares concorda com a autora do estudo, no sentido de que “o atendimento de emergência, especificamente, tem como ônus extra o estado emocional do paciente, que chega ao hospital procurando um amparo que vai além do atendimento médico”.
O especialista diz que a “procura pela estrutura hospitalar poderia ser reduzida com a implementação de atividades e programas de acolhimento, com esclarecimento e prevenção, fundamentados na atenção primária, regionalizada, incluindo aí o trabalho de saúde ambiental”. Não pensar desta forma, segundo Valadares, implica em “se estar continuamente apagando incêndios pontuais”, com as conseqüências recaindo sobre a população e a estrutura de atendimento.
Nas reuniões entre especialistas "muita coisa se dá de forma não transmissível, inclusive os jogos de poder."
“As políticas de saúde pública no Brasil favorecem a manutenção de uma demanda em muito superior à oferta”, diz Valadares. Para o especialista, uma política completa deveria incluir uma prática não somente pluridisciplinar, mas transdisciplinar. Segundo ele, “essa prática implica em uma travessia de confrontos, em que os investimentos afetivos são expressos e reavaliados pelo grupo multidisciplinar, composto por médicos, psicanalistas, enfermeiros, antropólogos, sociólogos, assistentes sociais, dentre outros, além da necessária disposição política de promover a transformação. Isto vai além dos dispositivos técnicos das diversas teorias”. Para o pesquisador, “o trabalho transdisciplinar é um trabalho de grupo que implica a mencionada experiência de confronto, não somente de teorias como também de experiências”, e ele lembra que “a arte da argumentação consiste em trazer a discussão para o seu próprio campo de saber”, segundo o ex-presidente da Fiocruz, Prof. Dr. Luis Fernando Ferreira.
Valadares afirma que “esses trabalhos transdisciplinares, incluindo-se aí a captação de fomento, são muito subalternos à prática política como um todo, e que a saúde pública ainda está num nível pré-freudiano. O ser humano age e produz ‘atuações’, negando que atua”. “Há comportamentos humanos que não são passíveis de ‘esclarecimentos’, pois se dão em ato e não são teorizáveis, se dão na prática dos encontros e dos desencontros”, acrescenta. Nas reuniões entre especialistas “muita coisa se dá de forma não transmissível, inclusive os jogos de poder. Em muitos hospitais se decide quem vai morrer, como uma conseqüência da escassez e do contingenciamento de verbas feitos em instâncias superiores” diz Valadares. Ele afirma ainda que “no âmbito local o investimento poderia ser melhorado através de conselhos municipais de saúde, pois as verbas seriam direcionadas para onde são necessárias, no nível da ação”.
Nosso entrevistado cita Foucault, dizendo que "não há saber sem poder", mas completa afirmando que "mesmo havendo este cuidado com os meandros do poder, pode haver a cooptação, no exercício da política de distribuição de verbas".
Quanto às pesquisas, “as decisões cabem aos pesquisadores mais articulados”, diz. “Isto poderia ser equacionado com a participação de especialistas com experiência consagrada em psicologia social, nas etapas de pesquisa, ensino e planejamento. O pensamento não pode ser baseado em certezas. Para que se tenha uma prática que não seja pré-freudiana, é necessário que se tenha em mente a afirmação de Heidegger: ‘a dúvida é a piedade do pensamento’”, afirma o cientista. “A cada minuto as certezas devem ser abaladas para que os conceitos não se transformem em preconceitos”, diz. Nosso entrevistado cita Foucault, dizendo que “não há saber sem poder”, mas completa afirmando que “mesmo havendo este cuidado com os meandros do poder, pode haver a cooptação, no exercício da política de distribuição de verbas”.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Prism, o Echelon 2.0

Ricardo Goldbach

Quem não tem lido jornais nas últimas décadas pode surpreender-se com o sistema de espionagem eletrônica Prism e seus objetivos, que o presidente Barack Obama tanto busca esconder ou minimizar. Trata-se de mais um aparato de dominação global dos EUA, operado por serviços de inteligência, a ganhar atenção da mídia, desta vez com a exposição dada por Edward Snowden.

O fato é que o Prism é como um sucessor do Echelon, turbinado com algo de Big Data. O Echelon é uma rede de coleta e processamento de dados de telefonia, fax e e-mail implementada com a cumplicidade dos governos do Canadá, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia. O sistema chegou a ser usado para espionagem industrial, de modo a dar às empresas sediadas nos países-membros vantagens competitivas sobre os concorrentes europeus. Foi essa a natureza da denúncia da então ministra da Justiça da Franca, Elizabeth Guigou, nos idos de 2000, segundo a BBC, em matéria com o título “França acusa EUA de espionagem”:
The Echelon surveillance network - which can intercept private telephone conversations, faxes and e-mails worldwide - had apparently been diverted to keep watch on commercial rivals.
A BBC explica:
Her comments came as a report commissioned by the European Parliament alleged that the UK was helping the US to spy on its European partners.
Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, James Rubin, fez seu papel – mentiu: "US intelligence agencies are not tasked to engage in industrial espionage or obtain trade secrets for the benefit of any US company or companies", no que foi acompanhado pelo então primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Ainda em 2000, a Wired deu atenção ao caso, sob o título “França perplexa e aterrorizada com o Echelon”.

No Wall Street Journal, em 17 de março daquele mesmo ano, James Woolsey, ex-diretor da CIA durante a administração Clinton, explica, com arrogância, “Por que espionamos nossos aliados”, em artigo que tem precisamente este título. Já no primeiro parágrafo Woolsey mostra a que veio e desmente o porta-voz do Departamento de Estado:
Yes, my continental European friends, we have spied on you. And it's true that we use computers to sort through data by using keywords. Have you stopped to ask yourselves what we're looking for?
Curiosa e inocentemente, a explicação de Woolsey diz que a espionagem permitiu que se descobrisse casos de corrupção, que então foram levados aos governos interessados, o que por sua vez alterou o resultado de concorrências. Assim, o projeto Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi ganho pela Raytheon, em 1995, porque a francesa Thomson havia subornado autoridades brasileiras. Igualmente, segundo Wolsey, numa concorrência para a aquisição de aviões pela Arábia Saudita, o consórcio europeu Airbus perdeu a vez para a Boeing porque havia subornado autoridades sauditas. O fato é que em ambos os casos empresas norte-americanas saíram-se bem.

Woolsey termina sua peroração com uma recomendação:
Get serious, Europeans. Stop blaming us and reform your own statist economic policies. Then your companies can become more efficient and innovative, and they won't need to resort to bribery to compete.
And then we won't need to spy on you.
Algo como, “Europa, pare de nos culpar e modifique suas políticas econômicas estatizantes. Se suas empresas forem mais eficientes e inovativas, não precisarão recorrer a subornos para poder competir, e nós não precisaremos espionar vocês”. Um primor de cinismo, não?

Em maio de 2001, o jornal The Guardian ainda se dedicava ao tema, fazendo um descrição sucinta do Echelon e trazendo links diversos sobre os ecos do escândalo.

Em julho de 2008, a CSN informa que o Parlamento Europeu abrirá investigação sobre o caso.

Somente agora, em meados de 2013, a exposição de Snowden consegue colocar o assunto nas primeiras páginas de todo o mundo. Old news, pode-se dizer. Mas pelo menos foi reaceso um tema sobre o qual a Casa Branca e seus cúmplices de além-mar tanto mentiram ao longo dos últimos anos. E provavelmente continuam mentindo, pois faz pouco sentido investir bilhões de dólares na coleta e filtragem de metadados, mas deixar de lado a coleta da informação propriamente dita -- o áudio de um telefonema ou o corpo de um e-mail, por exemplo -- quando relevante.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Brazilian major cities set on fire - part 1

understanding the June, 2013 riots

by Ricardo Goldbach (reporting from Rio de Janeiro)

The stunning outburst of violence that raided São Paulo, Rio de Janeiro and other major Brazilian cities presented two kinds of players. Small groups of hooligans and looters took advantage of the protests of a much larger group, the latter comprising students and workers concerned with the buildup of the corruption that is endemically spread throughout Brazilian political elites -- including the once left winged, now dominant Labor Party.


Photo by Marcelo Carnaval (Agência O Globo)
Brazilian media says that masses negative feelings were ignited by an average R$ 0,20 bus fare raise. But there is something missing here: the public transport business was recently granted some tax exemptions, provided that fares would go cheaper accordingly. However, that compensation didn't see the light and authorities played dead. Nonetheless, the mere fare raise is considered to be the initial movement's flagship, per se.

Besides that, a buildup of several factors lies behind the scenes that led to the social unrest we now see, the first of them being related to the big sporting events Brazil is going to host.

The Fifa World Cup, the Confederations Cup and The Olympics

Since Fifa first disclosed its rules regarding both World Cup and Confederations Cup, it was clear that they were kind of taking Brazil on lease. Among other things, Fifa was firm as for beverage being sold inside Brazilian arenas. National laws established a veto on liquor vending at major sporting venues, an effort to prevent violence among spectators, but Fifa won this round; Brazilian laws were revised as to comply with Fifa sponsors' needs (here, here, here, here and here). On a shameful move, federal government let to each involved city the task of handling the issue, on a local basis.

The rules imposed by Fifa established an exclusion zone of 100m radius around places holding official Fifa events, which extends to 2km when it comes to the sporting venues, where the selling of food and beverage of non-official sponsors brands is precluded.

Photo by Tiago Di Araujo (redebahia.com.br)
































Most surprisingly, "baianas" (women named after Bahia state), who sell a typical dish known as "acarajé", both on streets and at sporting venues, were forbidden to run their business inside the arenas. As popular outcry was huge, some arrangements took place in order to honor the most valuable tradition of the "baianas" (here and here). But the damage is visible, since Fifa proved able to make way through -- and even against -- Brazilian laws and traditions.

On a side note, few days ago Brazilian president Dilma Roussef was heavily booed when, sided by Fifa president Joseph Blatter, attended the opening of the Fifa Confederations Cup.


    

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Sobre charretes e computadores

Ricardo Goldbach

O portal de jornalismo Comunique-se traz, no dia 04/06/13, uma matéria sobre a onda de demissões que atingiu jornalistas do grupo Folha -- um "passaralho", como se costuma chamar.

Dos fatores que podem contribuir para estreitar o mercado de trabalho de jornalistas, dois são determinantes:  a existência de um governo avesso ao papel investigativo da imprensa e a irreversível migração dos veículos para o meio digital. Ficarei com este último.

À época em que eu trabalhava na Cobra -- para quem nasceu depois nos 70, naqueles anos a Cobra Computadores Brasileiros S.A. desenvolvia desde projetos de placas até compiladores e linguagens de programação, passando por assistência técnica em campo -- o Brasil vivia uma onda desenfreada de informatização dos negócios. Com a mesma intensidade, os sindicatos gritavam alertas de que a informatização levaria à redução da oferta de postos de trabalho.

Talvez, por eu ter viés de um trabalhador da indústria de computadores, eu comprava um peixe que era muito vendido: "Os postos de trabalho não vão desaparecer; haverá apenas a necessidade de os trabalhadores se adaptarem para preencher os novos postos de trabalho". A falácia ia além, descendo a exemplos: "Quando o automóvel surgiu, bastava que os charreteiros aprendessem a dirigir. O emprego não desapareceu, apenas mudou de cara".

Acreditei nisso por algum tempo, até que estendi um pouco aquele raciocínio. Com os motores a explosão não vieram apenas os automóveis; vieram também os ônibus, que levavam, de uma só vez, mais passageiros do que as antigas charretes e carruagens. Apenas como exercício de raciocínio, suponhamos que uma charrete levasse quatro pessoas, ao passo que um ônibus primitivo conduzisse, digamos, uns vinte passageiros. Assim, um charreteiro virou motorista de ônibus, enquanto quatro outros tiveram que inventar outro modo de ganhar a vida.

Enquanto isso, na época das cavernas...

Anúncio de emprego publicado no JB (18/12/1969)
Trazendo aquele cenário para época mais recente, lembro-me de quando as agências bancárias tinham listagens, atualizadas diariamente, contendo os saldos de todos os correntistas. Desse modo, quando eu queria sacar dinheiro da minha conta, na boca do caixa, o funcionário ia consultar meu saldo e anotava na listagem o valor que eu queria sacar. Antes disso, ele conferia visualmente minha assinatura, é claro, comparando-a com a que constava na minha ficha de correntista, que estava armazenada num armário, em algum canto da agência. Ao final do dia, as listagens contendo as anotações feitas à mão eram devolvidas ao CPD (centro de processamento de dados) do banco, onde digitadores (provavelmente em perfuradoras IBM 026, antecessoras das saudosas 029) preparavam as massas de cartões que atualizariam os saldos armazenados nos computadores.

É fácil olhar para essa cena e associá-la à época das cavernas, diante dos atuais cartões bancários chipados cuja senha é a palma da minha própria mão. Por outro lado, desapareceram funções administrativas tais como confrontar assinaturas, anotar saldos e perfurar cartões para atualização de contas. No lugar daqueles funcionários estão hoje os programadores de Visual Basic, COBOL e CICS, além de batalhões de analistas e gerentes de projeto, mas em muito menor quantidade, comparando-se relativamente.

Voltando à imagem dos charreteiros, é como se os quatro desempregados tivessem que ir estudar Odontologia, por exemplo. Antigos trabalhos são extintos, novos surgem em seus lugares, mas a quantidade de postos de trabalho é reduzida. Neste cenário não há lugar para adaptação; trata-se, mesmo, de reorientação profissional, se é que isso está ao alcance de um trabalhador técnico ou administrativo de nível médio.

Os Jetsons chegaram. E agora?

Quando os Jetsons encarnavam o divertido paradigma da sociedade do futuro (inclusive com a empregada Rosie, uma robô que, profeticamente, dispensava carteira de trabalho, férias e FGTS), dizia-se que com a automação do cotidiano as pessoas teriam mais tempo fazer o que quisessem. O futuro chegou, e é grande o contingente de pessoas que dedicam o tempo que têm a mais (o dia inteiro) às atividades de procurar emprego ou estudar desesperadamente para prestar concursos públicos. Isso é visível, tanto nas matérias de comportamento quanto nas de economia -- as publicadas em veículos digitais, é claro, já que rádio e jornal impresso estão em vias de extinção, no mundo inteiro. Com o progresso, os jornalistas daquelas mídias, da Folha e de outro veículos, agora têm mais tempo... para procurar novos empregos, cada vez mais escassos, ou para mudar de carreira, se tiverem o fôlego suficiente.

Esse não é pensamento de um ludita. Mas, como diz aquele filósofo romeno do século XIV, não custa pensar no assunto.

Feliz 2038.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Lamento, Hermínio. Cheguei muito atrasado.

ou “tempo é aquilo que a gente só descobre que tinha depois de ter perdido”

Ricardo Goldbach

Escalação que conquistou o 1º Campeonato Brasileiro do Colorado
(foto: site de Milton Neves)
Conheci Hermes Rianelli – o Hermínio – no início dos anos 90, por meio de um contato em comum. Hermínio tinha um casarão de dois andares, vazio, na Rua Pedro Alves, no bairro de Santo Cristo, e queria dar a ele alguma destinação. Quem nos aproximou foi um “executivo de fronteira” (apelido dado naqueles tempos ao “importador” de peças para a montagem de PCs) que já havia me atendido a contento –  à época, eu era gerente de sistemas de uma empresa dedicada à gestão terceirizada de processos de administração e engenharia de manutenção.

Nosso primeiro contato, um cafezinho para avaliarmos o que poderíamos fazer juntos, foi marcante. Aquele querido ex-zagueiro do Internacional era a simpatia em pessoa, ao mesmo tempo que simples, franco e perspicaz. Com o início da popularização dos PCs, ele havia enxergado uma oportunidade de negócio na qual eu me encaixava como a terceira peça. Assim, durante algum tempo, os três tocamos a vida profissional juntos, na 99 Computer (não me lembro de onde veio o nome da empresa, mas eu brincava com ele, dizendo que só não éramos “100” porque ninguém é perfeito).

Por motivos outros, que não passaram por falta de competência ou de clientela, a coisa não chegou a durar muito. Entre mim e Hermínio, no entanto, permaneceu a forte amizade, o respeito e a confiança: pouco depois do fim da 99, ele me contratou para informatizar os processos administrativos da Gymania, indústria de vestuário que possuía em Itaboraí, juntamente com mais dois sócios. Mais adiante, depois do fechamento da fábrica – arrastada pela falência da Mesbla, maior cliente e maior devedora – matávamos a saudade em ocasiões esparsas: um churrasco em Papucaia, uma visita à casa dele, durante recuperação de problema circulatório na perna, alguns telefonemas para marcar o almoço que jamais aconteceu.

Desde nosso último e longínquo contato, volta e meia Hermínio me vinha à cabeça. “Preciso saber dele, como andam a saúde e a vida”, eu me impunha. Ao mesmo tempo, as cobranças da vida cobravam mais alto (ou ao menos eu acreditava nisso).

Neste maio de 2013, decidido a pagar o débito para comigo mesmo, dou uma googlada em “Hermes Rianelli” para recuperar dados de contato. O jornalista esportivo Milton Neves me dá a notícia, através da seção “Que Fim Levou”, do blog “3º Tempo”:
"Ex-zagueiro do Coritiba, Internacional e São Paulo, Hermes Rianelli, o Hermínio, morreu no dia 12 de setembro de 1988. Ele chegou a atuar no Colorado ao lado de Carpegiani, Falcão, Valdomiro e outras feras."
Buscando um pouco mais, descubro que após aquela data Hermínio havia sido presidente do Sindicato dos Treinadores de Futebol Profissional do Estado do Rio de Janeiro. Segundo o site da entidade, Hermínio foi o segundo presidente, tendo exercido o mandato entre 1997 e 1999, ano este em que teria se dado sua morte.

Não sei quando nem como Hermínio se foi, mas pretendo descobrir. Nesse meio tempo, fico com a memória de um episódio que ele me contou, que bem mostra o faro e a determinação que possuía. No início dos anos 70, jogador consagrado do Internacional, Hermínio era consultado pelos dirigentes do clube quanto a contratações de novos talentos. Tendo assistido a uma partida de aspirantes, o zagueiro foi categórico: “Aquele garoto ali tem um tremendo futuro, ele tem cancha de campeão!”

Os dirigentes foram unânimes em discordar, ao que Hermínio me disse ter respondido: “Se ele não entrar no Inter, saio eu. E vou para o clube que o aceitar”. O garoto acabou sendo contratado, e não se passaram muitos anos até que o Brasil e o mundo reconhecessem o que Hermínio já havia identificado: a categoria e a raça do craque Paulo Roberto Falcão.

Descanse em paz, grande Hermínio.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Bitcoins: a moeda do futuro tem futuro?

Entusiasmos, pragmatismos e ameaças

Ricardo Goldbach

Muitos kWh e pouco retorno (autor desconhecido)
Apesar de a garimpagem de moedas digitais ser um mau negócio nos dias que correm, os adeptos (eu inclusive, por mero diletantismo e curiosidade) continuam descobrindo moedas e perdendo dinheiro no processo. A aritmética mostra que o investimento torna-se deficitário na medida em que os blocos tornam-se mais raros: gasta-se mais com energia elétrica e depreciação do computador do que se ganha com a remuneração pelo esforço computacional dedicado. O ponto de equilíbrio já foi alcançado, em algum momento do passado. Ponto.

Em que pese o obstinado entusiasmo, os garimpeiros de Bitcoins (BTC) têm mais um motivo para perceber que o jogo está com os dias contados. Fabricantes de ASICs (application-specific dedicated chips, chips voltados a aplicações específicas) e de FPGAs (field-programmable gate arrays, circuitos genéricos, com as configurações de hardware sendo programáveis pelo usuário), começam a oferecer boxes com capacidades de processamento antes inimagináveis.

A Butterfly Labs oferece um produto com capacidade de 50 Gh/s (50 bilhões de hashes são calculados por segundo), e a Avalon promete mais de 65 Gh/s, o equivalente a 1000 desktops parrudos, com Intel Core i7. Em termos comparativos, um i7 3930k está limitado a cerca de 65 Mh/s. Se a máquina contar com uma placa de vídeo ATI 6870, por exemplo, cerca de 280 Mh/s serão acrescentados ao poder de fogo: os processadores das atuais placas de vídeo turbinam um PC, sendo mais poderosos do que a própria CPU, quando se trata de cálculos criptográficos. No setor de mineração com placas de vídeo (GPU mining), a nVidia está perdendo feio.

No entanto, mesmo considerando-se os pools de garimpagem -- aos quais usuários se unem para somar esforços de CPU e dividir resultados -- um único ASIC conectado à rede é capaz de morder significativa parcela dos ganhos obtidos coletivamente por um pool.

We Accept Bitcoin Only – Bitcoin allow us to collect large sum of assets in a short period of time, and due their nature the bitcoins can also be move to where they are suppose to go in a similar time frame. It also make sense as the Avalon units mine bitcoins so they should be priced as such accordingly.
E por que prefiro o universo dos Litecoins (LTC)? É mera questão de bom senso. Por questões técnicas -- diferenças entres os algoritmos de criptografia usados na geração dos blocos originais de BTC (SHA-256) e de LTC (Scrypt), a garimpagem de LTC, seja individual seja coletiva, não sofrerá a concorrência desleal dos ASICs que começam a sair do forno: é impossível garimpar LTC com os princípios que fundamentam a arquitetura usada naqueles monstros capazes de dezenas de Gh/s. Quanto a ASICs dedicados a LTC, tendo a achar que são inviáveis, mas, se já é possível fabricar armas de fogo em casa, com impressoras 3D, há que se desconfiar de certezas tecnológicas.

Já os analistas de tecnologia e mercado têm um enfoque mais pragmático e realista: trata-se de uma bolha, que hipnotiza gente que não percebe que os tempos áureos de um BTC valer menos de US$10 (e ser bem mais fácil de ser encontrado) já se acabaram, além de haver o insofismável critério de custo x benefício. Neste exato momento (06/05/2013, 12h45) um BTC está cotado a cerca de US$ 110, mas de 40 dias para cá já registrou valores que oscilaram entre US$ 40 e US$ 260.

O raciocínio, realista, deve também apoiar-se no fato de que num futuro próximo (por volta de 2030, podendo ser antes, com a evolução de hardware e a adesão de novos mineradores), não haverá mais blocos a descobrir:

Curva assintótica de novas descobertas, assumindo-se intervalo constante de 10 minutos
entre cada dois achados (fonte: Wikipedia)

O que importa é que nada disso importa muito: as moedas digitais não têm na garimpagem seu objetivo último; a ideia é a disseminação e o uso corrente do BTC, com a descentralização do controle dos meios de pagamento, aí incluída a impossibilidade de rastreamento das transações. É na ameaça aos bancos centrais e às legislações vigentes que se concentram as atenções, nestes tempos em que traficantes mexicanos usam BTC como moeda corrente, empresas começam a dar aos empregados a opção de receber salários em BTC e os esforços regulatórios das autoridades monetárias dos EUA estão a todo vapor.

O grande temor da comunidade, por outro lado, está na "ameaça dos 51%": quem detiver isoladamente mais de 50% do poder computacional da rede, pode, em tese, adulterar blocos de transações mais rapidamente do que eles sejam autenticados pelo esforço coletivo. Por enquanto, o agente fiscalizador e disciplinador é a própria rede, mas até isso pode mudar.

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PS 1: A título de curiosidade, os sólidos e elegantes fundamentos conceituais por trás do Bitcoin estão neste paper produzido em 2009 por Satoshi Nakamoto, seja este o nome de uma pessoa, um apelido, ou mesmo o nome de um coletivo de desenvolvedores -- ninguém sabe ao certo, até agora.

PS 2: As referências que fiz a Bitcoins aplicam-se igualmente a Litecoins, à exceção do que diz respeito às particularidades dos algoritmos empregados. De resto, o panorama é o mesmo.

sábado, 27 de abril de 2013

Nuvens e ondas

Ricardo Goldbach

A baixa autonomia da bateria do meu Xperia X10 Mini Pro (u20i, para os rooted) me fez vasculhar, madrugadas a fio, os forums do XDA Developers. Em agosto de 2011, depois de esquadrinhar em vão as dicas de otimização de consumo -- filhas de saudáveis trocas de experiência -- postei minha desconfiança sobre os desenvolvedores do Google Inc. terem deixado perdido e ativado, em meio ao código do Android, um recurso de debug que jamais poderia ter deslizado para o ambiente de produção.

Dentre outros comportamentos suspeitos, a geração de milhares de entradas a entupir o log com alertas sobre o fato de o sensor de luz estar desativado -- à razão de dezenas delas por segundo. Esse desvio comportamental de um sistema operacional que, após ganhar as ruas, foi adotado em massa por significativa parcela da Humanidade, me levou a postar, à época, o texto abaixo:

Battery drain: blame it on Google Inc?
My CM7 u20i has a 20% nightly drain, even with WF, BT, GPS and whichever drain mongers turned off. After extensive reading (and trying) on the issue and analysing all kinds of near voodoo reasoning, I decided to peek into real OS activity - the ultimate place to see what's going on. OS Monitor showed me some interesting issues, in the case its ps functionality works as expected.
My attention was first caught by the constant activity of Google Backup Transport process, accounting from CPU loads varying from 1 to 14%(!), rarely 0%, even though I never use cloud backup - in any case, in any of my devices. No can do.
The other significant mistery is the existence of a log that holds 1945 entries generated in the mere past 9 minutes. This intensive logging policy is something I myself would implement (#define switch) at pre-release phase, but just for debugging sake - never letting it slip into production environment. Does Google Inc still considers Android to be at beta phase? ;)

Ocorre que neste março de 2013, cerca de um ano e meio depois, recebo um alerta de comentário. Uma dica, que recomendava a desativação de um serviço de transporte do sistema operacional, me convidou a ressuscitar o X10 do período de exílio forçado a que foi destinado, nestes tempos em que a "nuvem", onipresente em fluxogramas de décadas atrás e em todas as implementações de conectividade desde então, "nasce" com toda a força que nela marqueteiros encantados conseguem investir.

A reativação do thread que originei me faz pensar (de novo again) sobre a resiliência da informação, com bits que navegam incessantemente pelo éter-net, qual garrafas lançadas de ilha deserta que resistem, teimosas, à pressão das ondas e das marés, até vir a dar num porto. Ou não, como diria aquele famoso filósofo romeno cujo nome ora me escapa ao cache.

sábado, 23 de março de 2013

Sobre a qualidade do miojo intelectual que o Brasil produz


Ricardo Goldbach

Em conversa recente com um empresário atento à qualidade dos produtos da empresa que dirige, refletíamos os dois sobre o futuro do negócio dele, no que se refere a existir uma real demanda por padrões elevados – ou ao menos mínimos – de qualidade, daquilo que nenhum dicionário define em termos absolutos, por impossível. Busque-se por "qualidade", "quality", "quālis" (a raiz latina do termo) ou pelo que seja, e chega-se à conclusão de que qualidade é coisa que só se afere, valora ou identifica em contraste com um ideal ou padrão já estabelecido, por decisão, consenso ou descaso.

Lendo o noticiário, divago sobre a qualidade de ensino e aferição que o Brasil destina aos educandos de hoje, os que amanhã estabelecerão padrões para aferir a qualidade de produtos e serviços (inclusive os de ensino!). Para as autoridades brasileiras responsáveis pela área, basta que a redação de um aluno de curso superior contenha alguma alusão ao tema para que o conteúdo seja aceito. Para quem está chegando agora, refiro-me a duas redações apresentadas em exame do Enem que continham, de modo aparentemente provocador, referências a receita de preparo de macarrão, uma delas, e trechos completos de um hino de time de futebol, a outra.

Ocorre que em ambos os casos os estudantes fizeram referências difusas à "Imigração no século 21", o tema da redação. Assim, segundo os critérios de qualidade vigentes, eles atenderam às expectativas de quem maquinou o exame. Por motivos igualmente obscuros, "trousse" pôde ocupar o lugar de "trouxe", e "rasoável" pôde substituir "razoável", sem qualquer prejuízo para outros examinandos que, apesar dos pesares, conseguiram alcançar nota máxima. Vale lembrar que sem a imprensa investigativa – essa eterna perseguida por regimes políticos fechados ou em vias de discretamente sê-lo – esse descalabro, como tantos outros, não teria vindo à tona, já que não depõe a favor da elite decisória.

E o que demandarão os futuros demandadores de qualidade? Muito pouco, cada vez menos, imagino. Se o miojo e o hino do time foram meras provocações, como alegam os estudantes (de cursos superiores, não nos esqueçamos), outros sintomas da enfermidade cultural não "trousseram" nenhuma esperança "rasoável".

Os que têm saído dessa máquina de produzir estatísticas favoráveis, conhecida como "ensino superior" ("superior a quê?", pergunto, relativizando ainda mais o que já era relativo), já se encontram em todas as áreas de atividade, aí incluídos os meios de comunicação, em particular, e mesmo os controles de qualidade, em geral. É justamente aí que o parafuso dá mais uma volta: quando se lê coisas como "energia heólica" ou "métodos pioneros" (JB online, 22/03) – para ficar em parcas e não cansativas amostras do que seja a imprensa atual – é possível ver um perverso efeito realimentador que, em ciclo vicioso, deprime o já baixo padrão cultural médio dos brasileiros.

Não penso que a grafia errada seja o pior dos efeitos. Com bastante complacência (na verdade, com muito mais do que apenas isso), pode-se argumentar, como já argumentaram autoridades da área educacional, que o receptor da mensagem tomou conhecimento do teor, assim como me lembro da validade linguística que já se conferiu a "pegar os peixe". Prestar atenção aos erros, no entanto, é o maior dos erros; é preciso antes observar o quadro com mais atenção, com o que se chega à inevitável conclusão de que aqueles desvios têm origem na falta do hábito da leitura – e é aí que o que já é ruim caminha na direção de tornar-se pior.

A simples leitura de jornais online e de posts no Twitter não resolve a questão, já que o iletrado nada aprende com o semialfabetizado – pode até involuir; uma busca por “energia heólica”, no Google (a Barsa, a Britannica e a Delta Larousse dos admiráveis tempos novos), já serve como ilustração disso. E lembro, mesmo que não seja necessário, que a leitura não serve apenas para aprender ou reter o uso correto de ortografia e gramática; serve (ou deveria servir), antes de mais nada, como estímulo ao enriquecimento do universo interior e ao exercício do pensar.

Já escrevi por aí que "Se a juventude de hoje não sabe se Erich Fromm é coisa de comer ou de passar no cabelo, a de amanhã poderá ter dificuldade em escrever 'cabelo'" (“kblo”? “cabelu”?). Do mesmo modo, o professor, escritor e dramaturgo Osman Lins (autor do saboroso e certeiro texto "Reflexões sob um quadro-negro") disse, em entrevista que li há pouco, que

Os dentistas têm observação que, com os liquidificadores, os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram enormemente as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação.”

A “energia heólica” está, em 2013, naquele mesmo JB no qual, nos idos de 1980, aguardava-se o round seguinte da esgrima intelectual entre José Guilherme Merquior e Eduardo Mascarenhas, com a mesma ansiedade com que o público médio espera, atualmente, pelo próximo capítulo de uma novela que esteja “pegando fogo”.

Chegando-se (ou já se tendo chegado) a esse ponto, esvazia-se qualquer pretensão de especular sobre como incrementar a qualidade de bens e serviços culturais, a não ser como exercício de ganha-pão. No diagnóstico de Theodor Adorno, o fruto da indústria cultural destina-se, em última instância, a ser consumido durante as horas do “falso lazer”, aquelas em que o consumidor apenas descansa e se distrai entre duas jornadas de trabalho consecutivas. E parece certo que é na direção do suprimento dessa ração que governo, sistema de ensino, estudantes e mercado de trabalho – meios de comunicação, em especial – têm ido.

A proximidade da Páscoa, com o frenético celebrar de lendas sobre coelhos e ovos (aliás, coelhos põem ovos?) me parece bom momento para se rememorar esta outra lenda, a da educação de qualidade(?), que produz ovos e miojos tão pouco nutritivos, indigestos, até.

Até.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Lost Joomla admin password / correct password doesn't work?

by Ricardo Goldbach

Two easy fixes to very common issues:

1. To reset a fogotten admin password, just login at phpMyAdmin, select your application database and run the command

UPDATE  jos_users 
   SET  password='e6053eb8d35e02ae40beeeacef203c1a' 
  WHERE name='Administrator';

This is the MD5 hash string corresponding to "newpass", your new admin password. Don't forget to change it to a safe one as soon as you log in.

2. If the admin login panel starts recycling without granting access -- but not issuing "wrong user/password" message, just check the "Authentication - Joomla" and "User - Joomla!" rows, at the "jos_plugins" table. Both should have "1" at "published" column.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in ... " [SOLVED, AS FOR MooTools FRAMEWORK]

Ricardo Goldbach


[an english version of this text is provided a few lines below]


Durante experiência de uso com o Joomla! CMS, esbarrei no problema abaixo, mensagens de erros oriundos do framework MooTools:
Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 246

Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 505
Através de pesquisas no Google constatei que isso afeta a comunidade há anos e que não há (ao menos não encontrei após horas de buscas) nenhuma indicação de solução. Verificando o código do mosmodule (coisa que eu deveria ter feito logo de início), vi que bastava remover o & que especifica a (agora pré-obsoleta) passagem de parâmetro por indireção, transformando-a em passagem por valor:



Correção feita, bastou repeti-la na linha 505, que originalmente estava como abaixo:






Não ligue para a aparente quebra de string apontada pelo syntax highlighting do TextPad; colocando-se um fechamento de aspas simples em ...LIMIT 1' o problema estará apenas "cromaticamente" resolvido, pois o PHP passa a apontar erro na última linha do arquivo. O bug aqui aparenta estar no parser do editor (e no meu olho :), mesmo:






[english version]

While running some Joomla! CMS code in a MooTools framework environment, I hit something that -- as pointed out by Google -- wasn't happening only to my code. Out of the blue, PHP started issuing the following error messages:
Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 246

Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 505

Since the community was unsuccessfully trying to clear this for years, I'm glad to publish the ammendment I've made, as simple as removing the (now deprecated) indirection operator, thus forcing the parameter to be passed by value -- please refer to the pictures above.

Don't mind the string break pointed out by TextPad's syntax highlighting; when I placed a closing single quote  at ... LIMIT 1', the problem was "chromatically" solved, the code colors being rendered correctly; on the other hand, PHP started signaling a syntax error (my visual quote parsing was as bad as TextPad's :). It seems that the editor is the buggy culprit, in this case.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sobre pedágios, leis e desinformação

por Ricardo Goldbach
 
De acordo com um texto replicado à exaustão pelas redes sociais e blogs, uma jovem gaúcha teria elaborado, como TCC do curso de Direito da Universidade Católica de Pelotas, o texto "Direito fundamental de ir e vir", que versa sobre a inconstitucionalidade da cobrança de pedágio nas rodovias brasileiras.

Na impossibilidade de acesso ao texto original do trabalho acadêmico ou a fontes fidedignas, mas dada a repercussão do assunto, me permito comentá-lo, assumindo que os fatos e alegações sejam reais, pelo mero exercício intelectual que suscitam.

Segundo texto corrente(*), Marcia dos Santos Silva fundamenta seu pensamento no artigo 5º da CF, que estabelece que

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens;

A jovem ainda teria alegado que "o direito de ir e vir é cláusula pétrea na Constituição Federal, o que significa dizer que não é possível violar esse direito. E ainda que todo o brasileiro tem livre acesso em todo o território nacional. O que também quer dizer que o pedágio vai contra a constituição".

Em tese, concordo com a ideia, na medida em que o pedágio tenha sido instituído para ressarcir serviços prestados por terceiros (a empresa concessionária) visando conservação e melhoria de bens públicos (as rodovias). No entanto, segundo meu entendimento leigo, deveria caber à União o provisionamento de recursos para aquele ressarcimento, como igualmente deveria caber, para a realização de obras e melhorias, no caso de não ter havido a terceirização dos serviços. Para tanto já existem impostos, que não têm destinação específica (a exemplo do Imposto de Renda) e servem à cobertura de despesas genéricas da União.

O que chama a atenção é que a suposta autora, valendo-se de sua convicção, estabelece artifícios para fugir ao recolhimento do pedágio, tais como ficar "no vácuo" no veículo à sua frente ou simplesmente forçar a cancela e seguir adiante.

Nesse ponto ela passaria a incorrer em crime definido no Código Penal Brasileiro (DL 2.848/1940), que em seu Art.345 estabelece a figura do Exercício Arbitrário das Próprias Razões: "fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite".

A suposta formanda também escorrega na interpretação da Carta Maior quando desconsidera o Art. 150, que preconiza que

Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
[...]
V - estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou bens, por meio de tributos interestaduais ou intermunicipais, ressalvada a cobrança de pedágio pela utilização de vias conservadas pelo Poder Público. [grifo meu]

Resumindo, o direito de ir e vir é assegurado, mas a União reserva para si - na forma da lei - o direito de instituir a cobrança de pedágio em rodovias.

Por último, lembro que "cláusula pétrea" não é o mesmo que cláusula inviolável. Por definição, todas as "cláusulas" da CF são invioláveis, sendo crime a violação de qualquer delas. Na verdade, cláusula pétrea é aquela que não pode ser submetida a alteração ou emenda, nos termos do parágrafo 4º do Art. 60:

Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:
I - de um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal;
II - do Presidente da República;
III - de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros.
[...]
§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
I - a forma federativa de Estado;
II - o voto direto, secreto, universal e periódico;
III - a separação dos Poderes;
IV - os direitos e garantias individuais. [grifo meu]

Concluindo, estou plenamente de acordo com a tese relativa à ilegitimidade da cobrança de pedágio em rodovias, embora legal. No entanto, penso que a forma correta de se estabelecer ou restabelecer a legalidade do que é legítimo esteja na melhor escolha dos representantes que elaboram e emendam as leis brasileiras - deputados federais e senadores - bem como na pressão da sociedade sobre a atuação dos eleitos. Outra possibilidade seria a de que todos fossem livres para exercer suas próprias razões, de brigas de botequim a conflitos fundiários, mas a escolha me soa óbvia.

Uma terceira opção seria a desobediência civil organizada, mas isso já é coisa que requer bom senso, discernimento desapaixonado, capacidade de organização e informação.


Referências:

Constituição da República Federativa do Brasil

Código Penal - DL 2.848/1940

(*) Listo abaixo algumas das fontes secundárias do texto em questão, todas contendo textos idênticos:

Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul (publicado em 05/12/2007)

Jornal Vox Populi (publicado em 31/05/2011)

Centro de Mídia Independente (publicado em 31/05/2011)

Hort, Rosa & Vogel Advogados Associados (publicado em 11/12/2007)


terça-feira, 29 de março de 2011

Até quando manter a vida do paciente após uma parada cardiorrespiratória?

por Ricardo Goldbach, com entrevista concedida por João Gonçalves Pereira em outubro de 2008


Os cuidados para com um paciente que tenha sofrido uma parada cardiorrespiratória (PCR) constituem grande desafio para médicos intensivistas. O comentário Neurological Prognostication After Cardiac Arrest, de Hans Friberg, publicado no Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine 2008, 16:10, avalia critérios de tomada de decisão quanto à tentativa de manutenção da vida do paciente. Segundo o comentário, a PCR fora do hospital é responsável por cerca de 275.000 mortes na Europa, anualmente, e, no momento, quase todos os hospitais escandinavos empregam hipotermia terapêutica (HT) no tratamento de pacientes em coma decorrente de PCR.

Friberg sugere que a decisão de suspensão de tratamento só ocorra quando um exame neurológico for comprovado por, ao menos, uma das seguintes avaliações objetivas: EEG com padrão patológico em normotermia, potencial evocado somatosensorial (PESS) com ausência bilateral de resposta cortical e níveis altos ou crescentes de enolase neurônio-específica, como marcadora de dano cerebral. Assim, segundo Friberg, um escore de 3 ou 4 na Escala de Coma de Glasgow, associado a um ou mais dos valores paramétricos indicadores de dano cerebral severo, constitui base para a decisão de retirada do tratamento.

Segundo o artigo Abordagem do Paciente Reanimado, do Assistente de Medicina Intensiva da Unidade Polivalente de Cuidados Intensivos do Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, João Gonçalves Pereira, publicado na Revista Brasileira de Terapia Intensiva Vol. 20 Nº 2, Abril/Junho, 2008, as intervenções terapêuticas destinadas a preservar a vida e as funções orgânicas após a PCR melhoram o prognóstico, "mas aumentam concomitantemente a sobrevivência de pacientes com lesões neurológicas e comprometimento cognitivo seqüelar grave".

Pereira nos conta que, antes da adoção da HT, o prognóstico era baseado em critérios neurológicos e neurofisiológicos. Com a HT tais critérios foram alterados, primeiramente porque a hipotermia influi, em pacientes nos quais foi iniciada de forma suficientemente precoce, a história natural da lesão neurológica, pela inibição da lesão de reperfusão. Em segundo lugar, "porque altera o metabolismo de fármacos sedativos que interferem com qualquer avaliação". Finalmente, porque pode alterar "as próprias manifestações neurológicas que permitem a identificação do prognóstico", conclui.

"É prudente considerar que não há no momento experiência suficiente para se poder considerar um prognóstico definitivo precoce nos pacientes submetidos a esta estratégia terapêutica", diz o especialista, concordando com observação de Friberg.

Em seu artigo, Pereira diz que "a ausência do reflexo pupilar e de resposta à dor ao 3º dia de evolução após a PCR, em paciente não sedado" é um fator de mau prognóstico, com especificidade superior a 95%". Outro fator considerado no artigo é "a ausência bilateral da resposta precoce (N20) nos PESS dos nervos medianos, com especificidade muito elevada para ausência de recuperação do nível da consciência".

Nosso entrevistado não defende o adiamento de "decisões de suspensão de medidas terapêuticas fúteis, que limitam a dignidade do paciente agônico e prolongam desnecessariamente o sofrimento familiar", e conclui que "se a avaliação determinar um prognóstico funcional fechado, ou seja, ausência de capacidade de recuperação de uma vida de relação mesmo mínima, as medidas de suporte vital extraordinário devem ser descontinuadas".

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Os referenciais? Ora, os referenciais...

por Ricardo Goldbach

Um vídeo, que supostamente mostra um barco da guarda costeira japonesa sendo abalroado por um pesqueiro chinês, está sendo considerado como evidência de ação agressiva por parte do Japão da China (lapso corrigido).

Um segundo olhar mostra que as coisas podem não são ser bem assim. Assim como o Sol parece girar em torno da Terra, porque nós estamos fixos no referencial de nosso planeta, é bem possível que o barco de patrulha pudesse estar descrevendo uma curva para estibordo, interrompendo a trajetória original do pesqueiro. Como a câmera que filmou a cena estava fixa no referencial do barco japonês, não há como se afirmar algo sobre as trajetórias relativas entre as duas embarcações.

O tira-teima, aqui, só poderia se dar por meio de um dos três seguintes cenários:
1. disponibilidade de imagens obtidas a partir da embarcação supostamente atingida, para confrontação;

2. disponibilidade de imagens que mostrassem a esteira de espuma deixada pelo barco patrulha, o que seria evidência incontestável da trajetória por ele descrita. Uma imagem da esteira de espuma do pesqueiro serviria ao mesmo objetivo;

3. disponibilidade de imagens obtidas por um observador situado em um terceiro ponto de vista.
Veja as imagens, visualize os três cenários acima, e tire suas próprias conclusões, nestes tempos em que as imagens podem ser lidas - ou manipuladas - como se quiser.