domingo, 4 de abril de 2010

Sobre Orwell, Endemol e "Boninho"

Ricardo Goldbach

Um artigo de Ivana Bentes, professora, pesquisadora e diretora da ECO-UFRJ, traz considerações sobre o Big Brother Brasil. O texto é lúcido, apesar de não diferir em muito das demais avaliações críticas que já li, até mesmo quanto a merchandising. Nenhuma das resenhas faz uma leitura que considero relevante, sobre esta criação da Endemol. O que é feito pelo mundo afora - com a cumplicidade de um universo de candidatos a celebridades e suas torcidas de arquibancada fabricada, além de patrocinadores e diretores inescrupulosos - é desconstruir e eclipsar um ícone de terror e totalitarismo, o "Grande Irmão" de George Orwell. E totalitarismo é coisa contra a qual o escritor já havia lutado, ao cerrar fileiras com opositores de Franco, na Espanha fascista.

O Big Brother da obra "1984" é figura aglutinadora e diretora de um partido oficial, o único a decidir as políticas de economia, guerra e paz de um continente ajoelhado e subjugado pelo IngSoc (o partido do socialismo inglês). Nesta missão, o Grande Irmão é secundado por uma nomenklatura cujo matiz pode ser hoje em dia comparado a qualquer sabor de fascismo, quer à esquerda quer à direita de um centro para todos os efeitos conceitual e abstrato. A submissão é conseguida por meio da fabricação de verdades e da distorção de números e estatísticas, além de brutal repressão à opinião e ao pensamento, o que inclui a reinvenção do conteúdo semântico dos vocábulos. Mais ainda, o Grande Irmão detém o controle da câmera que invade a privacidade dos lares dos cidadãos, em busca de indícios de crimes insidiosos tais como ler, pensar e escrever.

O personagem principal, Winston Smith, tem como atividade profissional alterar o passado, reeditando páginas antigas do "Time", jornal oficial e único, ao sabor de necessidades e interesses do partido igualmente único. E Smith termina por incorrer no crime de pensar, pelo que paga caro - abdica de sua certeza literal de que "2+2=4", depois de perceber-se amedrontável e torturável, moralmente vulnerável como qualquer ser humano confrontado com seus limites físicos e psicológicos. E abdicar de si mesmo diante de um regime opressor acaba por mostrar-se como algo fatalmente humano, demasiadamente humano.

O que Endemol et caterva fazem, ao eclipsar e refrasear em centro de picadeiro o que deveria ser um convite à reflexão e à resistência, não é mais do que o próprio Smith fazia a mando do Partido - reescrever a história da política e da cultura, com vistas a atender interesses centralizados. No caso aqui, vender detergentes e televisores para uma massa disforme cujos olhos e pensamentos estão conturbados pelo excesso de areia que a tela atira em sua direção.

Ao nomear jovens despreparados, ocos e desesperançados como "brothers" e "sisters", o BBB não serve somente ao merchandising. Também - e principalmente - anestesia e deseduca. Com o sentido da câmera de vigilância invertido, com os lares vigiando os "privilegiados" pelo sistema, a Endemol e seus cúmplices atingem por plágio malicioso os mesmos objetivos do Grande Irmão, e o fazem praticando o newspeak conforme concebido pelo autor original. Sem direito a copyright defendido com garras e presas por batalhões de advogados.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sobre pivetes e empresários

Ricardo Goldbach

O sinal está fechado, a janela idem. O pivete quebra o vidro e, rápido como se furta, leva o fruto da ação consigo. O e-mail está protegido por senha, o perfil no Facebook idem. No entanto, pego em flagrante de sabotagem comercial, Mark Zuckerberg dá uma de pivete. Pensando nas ações de sua empresa, imita a ação do moleque, infiltra-se numa operação concorrente ao seu ainda não lançado Facebook, visando retardá-la em proveito de sua própria criação, e de quebra estilhaça sigilos como se de vidro fossem. E fez mais, de acordo com o Business Insider.

Segundo a publicação, uma sucessão de atos de escroqueria de Zuckerbeg é trazida à tona pela investigação jornalística da publicação Harvard Crimson, da universidade onde ele estudava, ainda no frescor e inexperiência de seus 19 anos. O criador do Facebook é exposto pelo Business Insider, que aprofunda mais a investigação (aqui, aqui e aqui), como um hackeador de contas de e-mail de repórteres, além de invasor e adulterador de perfis do Facebook, e criador de contas-fantasma no provedor de e-mail da universidade.

O Facebook respondeu ao Business Insider com o seguinte e inexpressivo texto:

We’re not going to debate the disgruntled litigants and anonymous sources who seek to rewrite Facebook’s early history or embarrass Mark Zuckerberg with dated allegations. The unquestioned fact is that since leaving Harvard for Silicon Valley nearly six years ago, Mark has led Facebook's growth from a college website to a global service playing an important role in the lives of over 400 million people.

A assessoria de imprensa do Facebook tem razão: é fato inquestionável que o empresário tenha transformado um site acadêmico em estrondoso sucesso empresarial, em cerca de de seis anos. Mas, a bem da verdade, o texto de resposta não responde nada quanto aos supostos atos de Zuckerberg, e menos ainda o faz ao desqualificar o esforço investigativo, que nada de braçada em evidências testemunhais e documentais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Entrevista - O paciente terminal na UTI e os Cuidados Paliativos

Cuidando do paciente, de seus familiares e da equipe de saúde - para além dos fármacos


Ricardo Goldbach

O conceito de Cuidados Paliativos (CP) é uma categoria da especialidade de Medicina Intensiva que visa proporcionar alívio a pacientes terminais internados em uma UTI. Estes cuidados, que vão além da diminuição do sofrimento físico propriamente dito, estendem-se também aos familiares do paciente e à equipe hospitalar envolvida. A entrevista a seguir foi concedida, em 2008, pelo médico nefrologista, coordenador da rotina de CTI do Hospital Pró-Cardíaco e professor concursado de Clínica Médica da Unirio, com MBA em Gestão de Serviços de Saúde pela FGV, João Luiz Ferreira Costa.

RG  - Uma vez que a dig­nidade humana é o foco central dos CP, quais são as características necessárias a um profissional que atue diretamente com um paciente de UTI, esteja este em estado terminal ou não?

JLFC - Em primeiro lugar, o conhecimento técnico do profissional em relação ao diagnóstico primário do paciente, ao diagnóstico que determinou sua internação na UTI. Em seguida, o conhecimento técnico em relação ao tratamento técnico resolutivo e paliativo. Não adianta apenas fornecer a morfina, é necessário o en­tendimento do mecanismo da dor. Por exemplo, a fisioterapia passiva, que evita a imobilidade articular, pode ser tão ou mais importante que o fármaco.

O profissional deve, ainda, ter completo entendimento anamnésico da história patológica pregressa, psicológica, familiar e sócio-econômica do paciente, resgatando valores evolutivos de vida e sociológicos, sem se esquecer dos valores religiosos envolvidos.

RG - Qual é a importância do conhecimento do médico sobre o ambiente sócio-familiar do paciente?

JLFC - O médico deve entender a família, familiares consanguíneos e pessoas relacionadas, envolvidas com o cuidado e a vida afetiva do paciente. Deve envolver a família, com suas facilidades e dificuldades de relacionamente entre si, com o paciente e com a equipe de saúde, bem como os conflitos envolvendo todo esse universo, até mesmo os burocráticos e financei­ros relativos à cobertura de saúde, como elementos indissociáveis do plano de CP. Isto pode significar até mesmo o envolvimento de profissionais usualmente estranhos à área da saú­de, tais como gerentes de banco e advogados.

O especia­lista deve ser capaz de iden­tificar, no univer­so familiar do paciente, o responsável pelo seu cuidado direto, o responsável pela administração do patrimônio e o responsável legal pelo paciente – podem ser uma ou mais figuras. Uma vez identificados os personagens, usá-los para atenuar e eventualmente resolver esses conflitos.

É preciso entender conflitos como oportunidades de melhoria e não como situações indesejáveis, estabelecendo um canal de comunicação direto, franco e aberto com todos esses elementos e com a equipe de saúde, desestimulando desequilíbrios e conflitos.

O médico deve, por fim, ser capaz de entender e aceitar as suas fragilidades técnicas e emocionais para esse cuidado continuado ao paciente e também à equipe, sendo capaz de solicitar ajuda às instâncias superiores, quando necessário.

"O paciente e sua família transitam entre perplexidade,
negação, negocia­ção, revolta e,
final­mente, aceitação do processo de morte"


RG - Quais são as inter­disciplinaridades atualmente envolvidas em CP e qual é a dinâmica da atuação entre elas?

JLFC - Melhor que a interdisciplinaridade é a transdisciplinaridade, pois o plano de CP deve abordar metas a serem atingidas no prazo do processo de morte. Os fundamentos desse plano de CP são:

1. todos estamos em processo de morte e isto é um fato inexorável;

2. o conhecimento do item anterior não resolve a aceitação, plena ou parcial.

Todas as ações dos profissionais de disciplinas múltiplas devem se passar e se interdigitar de forma transdisciplinar, tendo-se em mente as duas afirmações acima e o fato de que o paciente e sua família transitam entre perplexidade, negação, negociação, revolta e finalmente aceitação do processo de morte.

Assim, uma vez estabelecidos os diagnósticos médicos da primeira questão, estabelece-se um plano de cuidados que envolve ações médicas, de enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, e de outros tantos profissionais necessários, voltados ao alívio do paciente, da família e da própria equipe de saúde. Isto evita excessos de parte a parte, incluindo a propria banalização do processo de morte e do evento do óbito propriamente dito.

RG - É possível a avaliação da eficácia de ações não-técnicas - avaliação do estado emocional do paciente, preparação do paciente ou da família sobre haver um assunto difícil a ser tratado - e para-farmacológicas, no que diz respeito ao alívio do sofrimento de um paciente terminal, ou mesmo na ampliação de sobrevida, com qualidade?

JLFC - Existem iniciativas neste sentido, que já foram instrumentalizadas pela Society of Critical Care Medicine em um questionário chamado Qualifying of Death and Dying (QoDD22). Este questionário está disponível na CCM de março de 2008, e desconheço ainda quaisquer resultados práticos em nosso meio.

RG - Há alguma observação ou comentário extra que você considere como contribuição significativa às reflexões sobre o tema?

JLFC - Acredito que as disciplinas da graduação médica, que privilegiam a excelência do profissional, além de efetividade de habilidades diagnósticas e de estabelecimento de planos terapêuticos e visões prognósticas, deveriam contemplar posturas filosóficas e éticas, indissociáveis de uma prática médica ancorada em conhecimento, habilidade psicomotora e afetividade voltados aos CP.

Os domínios da aprendizagem de Lewis, cognitivos, psicomotores e afetivos, deveriam ser valorizados e aplicados às disciplinas específicas de filosofia ainda no curso básico da graduação médica. Sem isso, não conseguiremos desenvolver as habilidades e predisposição à comunicação necessárias aos cuidados médicos como um todo e aos Cuidados Paliativos, em especial.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Aí ela veio e bateu

Ricardo Goldbach

Aí ela veio e bateu. Bateu forte. A insônia. Do tipo terminal, sabe? Não, insônia terminal não é aquela que antecede o final, a do cara que está tão mal de saúde que já nem consegue mais dormir. Não é essa. Insônia terminal é outra, é a que faz a gente acordar antes da hora. Sabe aquela hora em que a gente acha que tem que resolver todos os problemas? Aquela hora em que eles ficam ali, desfilando provocantes, um atrás do outro, se oferecendo naquela passarela do escuro? Pois é, a gente acorda justamente na hora em que não dá para resolver nenhum deles, não dá para resolver nada, a não ser ir até a janela. Pois é, resolvi ir. A insônia veio e eu fui. Fui até a janela, ver a madrugada. Um cigarro? Não, estou resistindo. E vai que fui até a janela, visitar a madrugada.


E vai que eu fiquei ali, olhando em volta, para a rua e para o céu, para o céu e para a rua. E o que são aqueles pássaros voando baixo, pouco abaixo das copas das árvores de Copa? Nunca sei se são morcegos tardios ou pombos cedios. Existe cedios? Não? Agora existe. Mas vai que entre o céu e a rua tem mais coisas do que a gente imagina, além daqueles pombos que podem ser morcegos que podem ser pombos. Tem também um monte de janelas, nos prédios, com aquela luzinha azulada fraca lá dentro, aquela luzinha que dá uma tremida de quando em vez. Sei, conheço isso, a minha está ligada também.


Uma, duas, oito, quinze. Então lá fora tem mais um monte de gente que também não pode resolver nada a essa hora e resolveu ligar a luzinha azulada. Como tem gente que gosta da companhia dela. Ou então não gosta, mas também isso não é hora de ligar para alguém e bater papo, imagina só... Então fica ali, diante daquele colorido que de longe é azul. Parece que de longe tudo é azul, até a Terra. E quem mais é azul, a fraternidade ou a igualdade? Não me lembro, droga de memória. Mais um problema. Vou para a cama, dormir, esquecer, talvez sonhar. Um abraço, um beijo, bom dia.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Antes que você corra para o iPad, saiba que…

... não é a maravilha que a Apple sugeria ao mercado.

por Ricardo Goldbach

Você tem o costume de plugar o pen drive na entrada USB do seu computador? Gosta de usar câmera embutida para tirar fotografias ou usar aplicativos com reconhecimento de face? Tem o hábito de rodar vários programas ao mesmo tempo? Gosta de ler arquivos em PDF ou rodar aplicativos em Flash?

Então esqueça o iPad. Com ele você só lerá livros digitais compatíveis com o padrão específico da Apple, e não poderá fazer backups no pen drive. Nem pense, também, em usar um HD externo ou qualquer outro dispositivo USB. Mais ainda, este iPod vitaminado não sabe o que fazer diante de um arquivo Flash ou PDF. Como se isso fosse pouco, se você quiser consultar a agenda vai ter que parar de ouvir música - ele executa apenas um aplicativo de cada vez.

É hora de aguardar o futuro anunciado deste que parece ser o equivalente Apple do Windows Vista, um fracasso anunciado com muito estardalhaço mas que já é mal percebido pelos acionistas, que estão perdendo dinheiro. Infelizmente, muita gente irá atrás da propaganda, sem ler as letrinhas miúdas, e perderá dinheiro também.

Resumindo a história, você certamente comprará coisa melhor com os 500 dolares que este brinquedo custa - na configuração mínima.

Uma alternativa anunciada, para quem prefere esperar a poeira baixar, é um dispositivo semelhante, um projeto conjunto das empresas Microsoft e HP. Certamente rodará alguma versão de Windows, provavelmente haverá compatibilidade no que diz respeito a arquivos. Para a HP pode ser uma boa alternativa à sua fonte de receita mais evidente, que é a venda de tinta para impressoras.

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O autor tem mais de 30 anos de experiência em TI, em ambientes de mainframes, minicomputadores,supermicrocomputadores e microcomputadores, nas atividades de levantamento de requisitos, projeto, desenvolvimento, testes e homologação de sistemas, suporte, administração de dados e de bancos de dados, treinamento e coordenação de equipes de desenvolvimento.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

1984 - um ano que nunca termina

Ricardo Goldbach


Notícia e opinião. Separados e identificados. É assim que a cartilha do bom jornalismo define os dois tipos de conteúdo de um veículo impresso ou online, além do terceiro, o anúncio publicitário, que é essencial à sobrevivência financeira da empresa jornalística.

A notícia nos traz um relato sobre algo atual, do interesse de uma significativa parcela da sociedade. É encimada por um título que informa o leitor sobre o conteúdo do texto em si, da matéria. Ao ler o título, o leitor decide o quanto o texto interessa a ele, se prefere ler ou seguir adiante.

Já a opinião é o pensamento de alguém em particular, um pensamento que pode estar baseado em crença, interesse, experiência própria ou qualquer outro viés pessoal. Este alguém pode ser o editor, um especialista em tema relevante ou mesmo o leitor. A opinião é usualmente identificada por estar em um editorial, numa coluna assinada, na seção de cartas de leitores ou ainda representada por uma charge. Mas o que acontece quando um título de matéria expressa uma opinião?

Nessa hora acaba o jornalismo e começa a panfletagem ideológica. Nessa hora o leitor é poupado de ler nas entrelinhas, já está tudo nas linhas, sem maiores vergonhas. Com o acirramento das tensões políticas, que no frigir dos ovos representam mera briga por reserva de mercado, simples luta despudorada entre interesses comerciais – um situado na máquina governamental corrompida, outro na empresa privada - fica exposta uma face daninha da imprensa. Nessa hora o fazedor de opinião vira empurrador de opinião, abaixo de goelas que vão se acostumando a olhar sem ver, a ver sem pensar, a pensar sem criticar. Opinião e notícia não devem jamais se misturar, pelo bem da informação, que nunca é transmitida com isenção, mas que também não pode ser tão contaminada assim. Parece constatação romântica? Parece. É pétrea verdade fundamental? Também.

Tudo isso é muito aparente, óbvio demais, até. Mas não custa lembrar, não custa pensar. Quando o Globo traz uma matéria com o título Governo federal prepara novo ataque à mídia, ele me lembra, mais uma enfadonha vez, que o ano de 2010 terminará, mas o de 1984 não, neste bordel onde não há virgens. Com esse tipo de autofagia da imprensa, não são necessários ataques governamentais interesseira e grosseiramente dirigidos - a mídia faz o serviço sozinha.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Ady Gil x Shonan Maru II - crônica sobre um tiro no pé


Ricardo Goldbach

As imagens são impressionantes. Um catamarã futurista, que à primeira vista parece mais a lancha do Batman, é abalroado no dia 6 de janeiro por um navio de porte respeitável, em águas australianas.

O barco Ady Gil, pertencente à organização ambientalista Sea Shepherd (pastor do mar) teve mais de dois metros de sua proa arrancados, mas a tripulação, composta por quatro neozelandezes, um australiano e um holandês, conseguiu salvar-se. O navio agressor, o baleeiro japonês Shonan Maru II, seguiu seu rumo sem dar maior atenção ao incidente - veja as imagens aqui e aqui.


Estas são novas cenas de uma guerra que a Sea Shepherd Conservation Society - braço da organização Greenpeace - vem travando contra a matança de espécies de baleias ameaçadas de extinção. Apesar de o Shonan Maru II trazer escrita a palavra "research" (pesquisa) em seu costado, trata-se de um barco de caça a baleias.

Mas o que chamou minha atenção na tarde de hoje, enquanto eu procurava entender um pouco mais sobre os propósitos e atividades da Sea Shepherd, foi o fato de esta organização adotar as práticas daqueles que pretende combater. Em 18 de dezembro passado, outro barco mantido por ela, o Bob Barker, aproximou-se de baleeiros japoneses, navegando sob bandeira norueguesa. Ao aproximar-se do alvo, a tripulação ambientalista arriou a bandeira que usava, substituindo-a por outra que em muito lembra a de um navio pirata: um crânio sobre fundo negro, e, ao invés de duas tíbias cruzadas, um tridente de Netuno e um cajado de pastor. Em seguida, o Bob Barker e o Shonan Maru II (o mesmo do incidente de hoje) trocaram tiros de canhão.

Uma pergunta não cala: os milhões de dolares gastos na compra de helicóptero de apoio, bem como na aquisição e aparelhamento bélico de navios, não trariam retorno maior caso empregados em campanhas de conscientização e boicote, no estilo "don't buy japanese" ou coisa que o valha?

É uma pena ver um barco tão bonito quanto o Ady Gil afundar em mais uma escaramuça desta guerra. É uma pena ver tantos dolares doados a uma causa ambientalista perderem-se no mar desta forma. Mas, como diz um baiano amigo meu, "if you can't do the time, don't do the crime".

Será que preciso dizer que não tenho interesses diretos ou indiretos na atividade dos matadores de baleias e muito menos apoio o que fazem? Não? Então tá. De qualquer forma, fica o disclaimer.



Créditos das imagens:
Ady Gil - blog Imensidão / Globo online
Shonan Maru II - blog Imensidão / Globo online
Símbolo da organização Sea Shepherd - blog Imensidão / Globo online




sábado, 31 de outubro de 2009

Contando o caso como o caso foi


Do lúcido e certeiro Augusto Nunes:

Sarney precisa saber que o abandono do local do crime não inocenta o criminoso
27 de outubro de 2009



"O Brasil precisa reaprender a contar o caso como o caso foi, usar a palavra justa no lugar do eufemismo malandro e enxergar as coisas como as coisas são. Por exemplo: onde parece haver a Fundação José Sarney existe a fachada de uma organização envolvida em incontáveis bandalheiras. E o que é apresentado como ”impossibilidade de funcionamento” tem cara de queima de arquivo.

Segundo o presidente vitalício, ”os doadores suspenderam suas contribuições pela exposição com que a instituição passou a ser tratada por uma parte da mídia”. Conversa de 171. Os parceiros fugiram antes que o camburão estacione no outro lado da rua. O barulho da sirene começou em junho, quando a Justiça atendeu ao pedido do Ministério Público Federal e determinou a devolução ao governo maranhense do Convento das Mercês".


Leia o restante aqui.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Schwarzenegger is back, em três atos

Ricardo Goldbach

Chill down, Arnold...


Ato 1:

O deputado da Califórnia Tom Ammiano não gostou do fato de Arnold Schwarzenegger ter ido a um jantar do Partido Democrata, em São Francisco, no dia 7 de outubro. Ammiano estava magoado com o governador da Califórnia, que havia promovido cortes em verbas destinadas a causas sociais e não tinha se manifestado a contento em relação a temas de interesse de homossexuais.

Foi o Republicano Schwarzenegger aparecer no jantar do partido para ser recebido por Ammiano aos gritos de "you are a liar" e "kiss my gay ass". Para Ammiano, o governador fazia teatro político com sua presença.


Ato 2:

A Assembléia Legislativa da Califórnia submete ao governador Schwarzenegger o projeto de lei AB1176, de autoria de Ammiano, que dá auxílio ao Porto de São Francisco para enfrentar dificuldades financeiras.


Ato 3:

Alguns dias depois, Schwarzenegger veta o projeto de lei, argumentando que os deputados deveriam se preocupar com temas mais importantes, como reforma dos sistemas penitenciário, de saúde e outros:





Mas, segundo o jornal San Francisco Chronicle, olhando-se a mensagem com mais atenção, é possível ler a verdadeira resposta do governador ao deputado:

To the Members of the California State Assembly:

I am returning Assembly Bill AB1176 without my signature.

For some time now I have lamented the fact that major issues are overlooked while many
unnecessary bills come to me for consideration. Water reform, prison reform, and health
care are major issues my Administration has brought to the table, but the Legislature just
kicks the can down the alley.

Yet another legislative year has come and gone without the major reforms Californians
overhelmingly deserve. In light of this, and after careful consideration, I believe it is
unnecessary to sign this measure at this time.

Sincerely,


Arnold Schwarzenegger

Coincidência? A assessoria do governador diz que sim. Você decide.


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Quem é essa gente?

ou "quem cheira uma carreira, financia uma bala inteira"


Ricardo Goldbach

"Vamos fazer o que for necessário para limpar a sujeira que essa gente deixa no Brasil inteiro".
Com essa frase Lula pontuou o encontro que teve ontem, em São Paulo, com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe.



Foto: Globo Online / Marcelo Franco

Aparentemente, ele se referia aos tiroteios entre traficantes, que infernizaram o Rio de Janeiro no fim de semana do dia 17 de outubro, e que tiraram a vida de policiais, criminosos e civis inocentes. Mas quem seria “essa gente”? Olhando de perto, muita gente pode estar sujando o Brasil inteiro:

Os plantadores de coca, dos países companheiros, Colômbia, Bolívia e Venezuela, seriam uma possibilidade.

Ou seriam as FARC, cujo fluxo de caixa depende da exportação de cocaína? Ou novamente as FARC, que trocam o dinheiro da droga por armas, para perpetuar o estado paralelo que criaram?

Ou novamente os produtores de cocaína que, para ajudar seus companheiros dos morros cariocas, exportam para cá fuzis e metralhadoras? Não interessa aos industriais do pó que seus negócios no Brasil e no Rio sejam ameaçados por policiais, isto é claro como água. Vem daí a necessidade de armar a bandidagem, para garantir o fluxo contínuo e tranquilo de drogas e divisas.

Ou Lula se referia aos que costuram, à sombra do Fórum de São Paulo, as alianças entre o petismo brasileiro e o revolucionismo latinoamericano, de matiz e inspiração castro-chavistas, e que desaguam nos projetos de poder do narcotráfico armado que assola a América Latina, como um todo?

Seriam por acaso os dois policiais militares, que durante os conflitos no Morro dos Macacos, se aproveitaram para furtar a arma de um terceiro policial?

Pode ser também que Lula se refira a um preso federal, que de dentro de sua cela no Paraná, dá ordens para invasões de morros.

Seriam os políticos e administradores que dizem, há décadas, que “não se muda nada de um dia para o outro”? Um deles disse isso ontem mesmo, no dia 20/10. Estes poderiam ser muito bem “essa gente” à qual o presidente se refere.

Por último, mas não menos importante, a referência pode ser ao último elo da cadeia criminosa, o consumidor da cocaína que é movida de lá para cá, a custa de muito tiro e muito sangue.

Mas se Lula, em sua tirada enxuta e tosca, estava se referindo a todos os acima, tem a total concordância e apoio deste que, ao longo de quase vinte anos, depositou seus votos e suas esperanças no sonho do PT. Um sonho que virou um pesadelo quando realizado.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Para amenizar



Uma flor é uma flor, é uma flor.

Queimaram o Rio de Janeiro

Ricardo Goldbach

Rio 2009 - Bandidos queimam helicóptero da polícia, manifestantes queimam ônibus, a prefeitura de Eduardo Paes queima dinheiro dos contribuintes e energia elétrica, além de colaborar para aquecer o meio ambiente.

São várias faces de uma mesma falência, visíveis neste aglomerado urbano mais desordenado a cada novo amanhecer.

Não há muita diferença entre o banditismo dos traficantes e o dos dirigentes da Rioluz, quando se considera o respeito (ou falta de) aos patrimônios alheios e coletivos. À luz da Constituição Federal (art. 125 e outros), os postes acesos constituem um crime praticado pelo poder público, mais grave ainda porque cometido com recursos de contribuintes. Ok, dos postes não saem balas perdidas - mas isso não é motivo para tolerância 10 ou 30. Tem que ser zero, mesmo, para que cesse de vez o cotidiano estupro da cidadania.

Rio, teu filme está definitivamente queimado.


18/10/2009 - Desperdício nas ruas do Rio, contribuição para o aquecimento global.

domingo, 18 de outubro de 2009

Temos mesmo muito tempo?

Ricardo Goldbach

Declaração otimista do relações públicas da Polícia Militar, major Oderlei Santos: "Nós temos muito tempo para a Copa do Mundo, para as Olimpíadas e até lá certamente a polícia prenderá muitos criminosos".

Ave, Major Santos; nós, os cidadãos que vamos morrer neste meio tempo, o saudamos.


O Rio exibe a tocha olímpica. Foto: Fabiano Rocha

O grande problema aqui é que o mundo está vendo - não vai dar para enganar a todos o tempo todo.


ATUALIZAÇÃO:

O Major Oderlei foi exonerado pelo governador Sergio Cabral, em 23/10, no bojo do escândalo que envolveu o assassinato do Coordenador de Projetos Especiais do AfroReggae, Evandro João Silva.

Aquilo que ficou evidenciado, aos olhos das câmeras de segurança e do bom senso, como omissão de socorro e furto (e talvez cumplicidade em latrocínio) por parte de dois policiais militares - um deles capitão - foi classificado pelo porta-voz da corporação como mero "desvio de conduta".

A legislação brasileira garante que todos sejam considerado inocentes, até prova em contrário. Mas o erro do Major Oderlei foi ter feito péssimo e inoportuno uso da doutrina do "in dubio pro reu".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Relembrando Lombroso

Ricardo Goldbach



Foto: autoria desconhecida

Mais sobre Lombroso e sua teoria sobre o Homem Delinquente, em texto do promotor de Justiça em Minas Gerais, Lélio Braga Calhau.

Virou moda: pagar para ver propaganda

Ricardo Goldbach

No ano de 2000, Mel Gibson estrelou um filme, What women want ("O Homem que Entendia as Mulheres", no Brasil), que era um belo comercial da Nike, com duração de 1h37. Pagou-se à época para ver a propaganda no cinema, paga-se hoje para revê-la em canais de TV a cabo. É claro que o comercial vem embrulhado em papel bonito: par romântico, climax e anticlimax, as receitas que sempre apelam ao pathos (do grego, paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento) do espectador - daí vem a expressão "patético".

Nestes tempos bicudos, em que a publicidade deve se esforçar mais do que nunca para enfrentar retrações de mercado e desconfiança de consumidores, Holywood faz mais um gol. Segundo a PC World, o desenho animado Family guy ("Uma Família da Pesada") dedicará um episódio inteiro à promoção do Windows 7, no dia 8 de novembro.

Quando se para e pensa, o que parece ser trivial não acaba mostrando a verdadeira e patética face?