sábado, 23 de março de 2013

Sobre a qualidade do miojo intelectual que o Brasil produz


Ricardo Goldbach

Em conversa recente com um empresário atento à qualidade dos produtos da empresa que dirige, refletíamos os dois sobre o futuro do negócio dele, no que se refere a existir uma real demanda por padrões elevados – ou ao menos mínimos – de qualidade, daquilo que nenhum dicionário define em termos absolutos, por impossível. Busque-se por "qualidade", "quality", "quālis" (a raiz latina do termo) ou pelo que seja, e chega-se à conclusão de que qualidade é coisa que só se afere, valora ou identifica em contraste com um ideal ou padrão já estabelecido, por decisão, consenso ou descaso.

Lendo o noticiário, divago sobre a qualidade de ensino e aferição que o Brasil destina aos educandos de hoje, os que amanhã estabelecerão padrões para aferir a qualidade de produtos e serviços (inclusive os de ensino!). Para as autoridades brasileiras responsáveis pela área, basta que a redação de um aluno de curso superior contenha alguma alusão ao tema para que o conteúdo seja aceito. Para quem está chegando agora, refiro-me a duas redações apresentadas em exame do Enem que continham, de modo aparentemente provocador, referências a receita de preparo de macarrão, uma delas, e trechos completos de um hino de time de futebol, a outra.

Ocorre que em ambos os casos os estudantes fizeram referências difusas à "Imigração no século 21", o tema da redação. Assim, segundo os critérios de qualidade vigentes, eles atenderam às expectativas de quem maquinou o exame. Por motivos igualmente obscuros, "trousse" pôde ocupar o lugar de "trouxe", e "rasoável" pôde substituir "razoável", sem qualquer prejuízo para outros examinandos que, apesar dos pesares, conseguiram alcançar nota máxima. Vale lembrar que sem a imprensa investigativa – essa eterna perseguida por regimes políticos fechados ou em vias de discretamente sê-lo – esse descalabro, como tantos outros, não teria vindo à tona, já que não depõe a favor da elite decisória.

E o que demandarão os futuros demandadores de qualidade? Muito pouco, cada vez menos, imagino. Se o miojo e o hino do time foram meras provocações, como alegam os estudantes (de cursos superiores, não nos esqueçamos), outros sintomas da enfermidade cultural não "trousseram" nenhuma esperança "rasoável".

Os que têm saído dessa máquina de produzir estatísticas favoráveis, conhecida como "ensino superior" ("superior a quê?", pergunto, relativizando ainda mais o que já era relativo), já se encontram em todas as áreas de atividade, aí incluídos os meios de comunicação, em particular, e mesmo os controles de qualidade, em geral. É justamente aí que o parafuso dá mais uma volta: quando se lê coisas como "energia heólica" ou "métodos pioneros" (JB online, 22/03) – para ficar em parcas e não cansativas amostras do que seja a imprensa atual – é possível ver um perverso efeito realimentador que, em ciclo vicioso, deprime o já baixo padrão cultural médio dos brasileiros.

Não penso que a grafia errada seja o pior dos efeitos. Com bastante complacência (na verdade, com muito mais do que apenas isso), pode-se argumentar, como já argumentaram autoridades da área educacional, que o receptor da mensagem tomou conhecimento do teor, assim como me lembro da validade linguística que já se conferiu a "pegar os peixe". Prestar atenção aos erros, no entanto, é o maior dos erros; é preciso antes observar o quadro com mais atenção, com o que se chega à inevitável conclusão de que aqueles desvios têm origem na falta do hábito da leitura – e é aí que o que já é ruim caminha na direção de tornar-se pior.

A simples leitura de jornais online e de posts no Twitter não resolve a questão, já que o iletrado nada aprende com o semialfabetizado – pode até involuir; uma busca por “energia heólica”, no Google (a Barsa, a Britannica e a Delta Larousse dos admiráveis tempos novos), já serve como ilustração disso. E lembro, mesmo que não seja necessário, que a leitura não serve apenas para aprender ou reter o uso correto de ortografia e gramática; serve (ou deveria servir), antes de mais nada, como estímulo ao enriquecimento do universo interior e ao exercício do pensar.

Já escrevi por aí que "Se a juventude de hoje não sabe se Erich Fromm é coisa de comer ou de passar no cabelo, a de amanhã poderá ter dificuldade em escrever 'cabelo'" (“kblo”? “cabelu”?). Do mesmo modo, o professor, escritor e dramaturgo Osman Lins (autor do saboroso e certeiro texto "Reflexões sob um quadro-negro") disse, em entrevista que li há pouco, que

“Os dentistas têm observação que, com os liquidificadores, os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram enormemente as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação.”

A “energia heólica” está, em 2013, naquele mesmo JB no qual, nos idos de 1980, aguardava-se o round seguinte da esgrima intelectual entre José Guilherme Merquior e Eduardo Mascarenhas, com a mesma ansiedade com que o público médio espera, atualmente, pelo próximo capítulo de uma novela que esteja “pegando fogo”.

Chegando-se (ou já se tendo chegado) a esse ponto, esvazia-se qualquer pretensão de especular sobre como incrementar a qualidade de bens e serviços culturais, a não ser como exercício de ganha-pão. No diagnóstico de Theodor Adorno, o fruto da indústria cultural destina-se, em última instância, a ser consumido durante as horas do “falso lazer”, aquelas em que o consumidor apenas descansa e se distrai entre duas jornadas de trabalho consecutivas. E parece certo que é na direção do suprimento dessa ração que governo, sistema de ensino, estudantes e mercado de trabalho – meios de comunicação, em especial – têm ido.

A proximidade da Páscoa, com o frenético celebrar de lendas sobre coelhos e ovos (aliás, coelhos põem ovos?) me parece bom momento para se rememorar esta outra lenda, a da educação de qualidade(?), que produz ovos e miojos tão pouco nutritivos, indigestos, até.

Até.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Lost Joomla admin password / correct password doesn't work?

by Ricardo Goldbach

Two easy fixes to very common issues:

1. To reset a fogotten admin password, just login at phpMyAdmin, select your application database and run the command

UPDATE  jos_users 
   SET  password='e6053eb8d35e02ae40beeeacef203c1a' 
  WHERE name='Administrator';

This is the MD5 hash string corresponding to "newpass", your new admin password. Don't forget to change it to a safe one as soon as you log in.

2. If the admin login panel starts recycling without granting access -- but not issuing "wrong user/password" message, just check the "Authentication - Joomla" and "User - Joomla!" rows, at the "jos_plugins" table. Both should have "1" at "published" column.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in ... " [SOLVED, AS FOR MooTools FRAMEWORK]

Ricardo Goldbach


[an english version of this text is provided a few lines below]


Durante experiência de uso com o Joomla! CMS, esbarrei no problema abaixo, mensagens de erros oriundos do framework MooTools:
Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 246

Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 505
Através de pesquisas no Google constatei que isso afeta a comunidade há anos e que não há (ao menos não encontrei após horas de buscas) nenhuma indicação de solução. Verificando o código do mosmodule (coisa que eu deveria ter feito logo de início), vi que bastava remover o & que especifica a (agora pré-obsoleta) passagem de parâmetro por indireção, transformando-a em passagem por valor:



Correção feita, bastou repeti-la na linha 505, que originalmente estava como abaixo:






Não ligue para a aparente quebra de string apontada pelo syntax highlighting do TextPad; colocando-se um fechamento de aspas simples em ...LIMIT 1' o problema estará apenas "cromaticamente" resolvido, pois o PHP passa a apontar erro na última linha do arquivo. O bug aqui aparenta estar no parser do editor (e no meu olho :), mesmo:






[english version]

While running some Joomla! CMS code in a MooTools framework environment, I hit something that -- as pointed out by Google -- wasn't happening only to my code. Out of the blue, PHP started issuing the following error messages:
Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 246

Deprecated: Assigning the return value of new by reference is deprecated in C:\wamp\www\some_directory\plugins\content\mosmodule\mosmodule.inc.php on line 505

Since the community was unsuccessfully trying to clear this for years, I'm glad to publish the ammendment I've made, as simple as removing the (now deprecated) indirection operator, thus forcing the parameter to be passed by value -- please refer to the pictures above.

Don't mind the string break pointed out by TextPad's syntax highlighting; when I placed a closing single quote  at ... LIMIT 1', the problem was "chromatically" solved, the code colors being rendered correctly; on the other hand, PHP started signaling a syntax error (my visual quote parsing was as bad as TextPad's :). It seems that the editor is the buggy culprit, in this case.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sobre pedágios, leis e desinformação

por Ricardo Goldbach
 
De acordo com um texto replicado à exaustão pelas redes sociais e blogs, uma jovem gaúcha teria elaborado, como TCC do curso de Direito da Universidade Católica de Pelotas, o texto "Direito fundamental de ir e vir", que versa sobre a inconstitucionalidade da cobrança de pedágio nas rodovias brasileiras.

Na impossibilidade de acesso ao texto original do trabalho acadêmico ou a fontes fidedignas, mas dada a repercussão do assunto, me permito comentá-lo, assumindo que os fatos e alegações sejam reais, pelo mero exercício intelectual que suscitam.

Segundo texto corrente(*), Marcia dos Santos Silva fundamenta seu pensamento no artigo 5º da CF, que estabelece que

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

XV - é livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens;

A jovem ainda teria alegado que "o direito de ir e vir é cláusula pétrea na Constituição Federal, o que significa dizer que não é possível violar esse direito. E ainda que todo o brasileiro tem livre acesso em todo o território nacional. O que também quer dizer que o pedágio vai contra a constituição".

Em tese, concordo com a ideia, na medida em que o pedágio tenha sido instituído para ressarcir serviços prestados por terceiros (a empresa concessionária) visando conservação e melhoria de bens públicos (as rodovias). No entanto, segundo meu entendimento leigo, deveria caber à União o provisionamento de recursos para aquele ressarcimento, como igualmente deveria caber, para a realização de obras e melhorias, no caso de não ter havido a terceirização dos serviços. Para tanto já existem impostos, que não têm destinação específica (a exemplo do Imposto de Renda) e servem à cobertura de despesas genéricas da União.

O que chama a atenção é que a suposta autora, valendo-se de sua convicção, estabelece artifícios para fugir ao recolhimento do pedágio, tais como ficar "no vácuo" no veículo à sua frente ou simplesmente forçar a cancela e seguir adiante.

Nesse ponto ela passaria a incorrer em crime definido no Código Penal Brasileiro (DL 2.848/1940), que em seu Art.345 estabelece a figura do Exercício Arbitrário das Próprias Razões: "fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão, embora legítima, salvo quando a lei o permite".

A suposta formanda também escorrega na interpretação da Carta Maior quando desconsidera o Art. 150, que preconiza que

Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
[...]
V - estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou bens, por meio de tributos interestaduais ou intermunicipais, ressalvada a cobrança de pedágio pela utilização de vias conservadas pelo Poder Público. [grifo meu]

Resumindo, o direito de ir e vir é assegurado, mas a União reserva para si - na forma da lei - o direito de instituir a cobrança de pedágio em rodovias.

Por último, lembro que "cláusula pétrea" não é o mesmo que cláusula inviolável. Por definição, todas as "cláusulas" da CF são invioláveis, sendo crime a violação de qualquer delas. Na verdade, cláusula pétrea é aquela que não pode ser submetida a alteração ou emenda, nos termos do parágrafo 4º do Art. 60:

Art. 60. A Constituição poderá ser emendada mediante proposta:
I - de um terço, no mínimo, dos membros da Câmara dos Deputados ou do Senado Federal;
II - do Presidente da República;
III - de mais da metade das Assembléias Legislativas das unidades da Federação, manifestando-se, cada uma delas, pela maioria relativa de seus membros.
[...]
§ 4º - Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir:
I - a forma federativa de Estado;
II - o voto direto, secreto, universal e periódico;
III - a separação dos Poderes;
IV - os direitos e garantias individuais. [grifo meu]

Concluindo, estou plenamente de acordo com a tese relativa à ilegitimidade da cobrança de pedágio em rodovias, embora legal. No entanto, penso que a forma correta de se estabelecer ou restabelecer a legalidade do que é legítimo esteja na melhor escolha dos representantes que elaboram e emendam as leis brasileiras - deputados federais e senadores - bem como na pressão da sociedade sobre a atuação dos eleitos. Outra possibilidade seria a de que todos fossem livres para exercer suas próprias razões, de brigas de botequim a conflitos fundiários, mas a escolha me soa óbvia.

Uma terceira opção seria a desobediência civil organizada, mas isso já é coisa que requer bom senso, discernimento desapaixonado, capacidade de organização e informação.


Referências:

Constituição da República Federativa do Brasil

Código Penal - DL 2.848/1940

(*) Listo abaixo algumas das fontes secundárias do texto em questão, todas contendo textos idênticos:

Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul (publicado em 05/12/2007)

Jornal Vox Populi (publicado em 31/05/2011)

Centro de Mídia Independente (publicado em 31/05/2011)

Hort, Rosa & Vogel Advogados Associados (publicado em 11/12/2007)


terça-feira, 29 de março de 2011

Até quando manter a vida do paciente após uma parada cardiorrespiratória?

por Ricardo Goldbach, com entrevista concedida por João Gonçalves Pereira em outubro de 2008


Os cuidados para com um paciente que tenha sofrido uma parada cardiorrespiratória (PCR) constituem grande desafio para médicos intensivistas. O comentário Neurological Prognostication After Cardiac Arrest, de Hans Friberg, publicado no Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine 2008, 16:10, avalia critérios de tomada de decisão quanto à tentativa de manutenção da vida do paciente. Segundo o comentário, a PCR fora do hospital é responsável por cerca de 275.000 mortes na Europa, anualmente, e, no momento, quase todos os hospitais escandinavos empregam hipotermia terapêutica (HT) no tratamento de pacientes em coma decorrente de PCR.

Friberg sugere que a decisão de suspensão de tratamento só ocorra quando um exame neurológico for comprovado por, ao menos, uma das seguintes avaliações objetivas: EEG com padrão patológico em normotermia, potencial evocado somatosensorial (PESS) com ausência bilateral de resposta cortical e níveis altos ou crescentes de enolase neurônio-específica, como marcadora de dano cerebral. Assim, segundo Friberg, um escore de 3 ou 4 na Escala de Coma de Glasgow, associado a um ou mais dos valores paramétricos indicadores de dano cerebral severo, constitui base para a decisão de retirada do tratamento.

Segundo o artigo Abordagem do Paciente Reanimado, do Assistente de Medicina Intensiva da Unidade Polivalente de Cuidados Intensivos do Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, João Gonçalves Pereira, publicado na Revista Brasileira de Terapia Intensiva Vol. 20 Nº 2, Abril/Junho, 2008, as intervenções terapêuticas destinadas a preservar a vida e as funções orgânicas após a PCR melhoram o prognóstico, "mas aumentam concomitantemente a sobrevivência de pacientes com lesões neurológicas e comprometimento cognitivo seqüelar grave".

Pereira nos conta que, antes da adoção da HT, o prognóstico era baseado em critérios neurológicos e neurofisiológicos. Com a HT tais critérios foram alterados, primeiramente porque a hipotermia influi, em pacientes nos quais foi iniciada de forma suficientemente precoce, a história natural da lesão neurológica, pela inibição da lesão de reperfusão. Em segundo lugar, "porque altera o metabolismo de fármacos sedativos que interferem com qualquer avaliação". Finalmente, porque pode alterar "as próprias manifestações neurológicas que permitem a identificação do prognóstico", conclui.

"É prudente considerar que não há no momento experiência suficiente para se poder considerar um prognóstico definitivo precoce nos pacientes submetidos a esta estratégia terapêutica", diz o especialista, concordando com observação de Friberg.

Em seu artigo, Pereira diz que "a ausência do reflexo pupilar e de resposta à dor ao 3º dia de evolução após a PCR, em paciente não sedado" é um fator de mau prognóstico, com especificidade superior a 95%". Outro fator considerado no artigo é "a ausência bilateral da resposta precoce (N20) nos PESS dos nervos medianos, com especificidade muito elevada para ausência de recuperação do nível da consciência".

Nosso entrevistado não defende o adiamento de "decisões de suspensão de medidas terapêuticas fúteis, que limitam a dignidade do paciente agônico e prolongam desnecessariamente o sofrimento familiar", e conclui que "se a avaliação determinar um prognóstico funcional fechado, ou seja, ausência de capacidade de recuperação de uma vida de relação mesmo mínima, as medidas de suporte vital extraordinário devem ser descontinuadas".

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Os referenciais? Ora, os referenciais...

por Ricardo Goldbach

Um vídeo, que supostamente mostra um barco da guarda costeira japonesa sendo abalroado por um pesqueiro chinês, está sendo considerado como evidência de ação agressiva por parte do Japão da China (lapso corrigido).

Um segundo olhar mostra que as coisas podem não são ser bem assim. Assim como o Sol parece girar em torno da Terra, porque nós estamos fixos no referencial de nosso planeta, é bem possível que o barco de patrulha pudesse estar descrevendo uma curva para estibordo, interrompendo a trajetória original do pesqueiro. Como a câmera que filmou a cena estava fixa no referencial do barco japonês, não há como se afirmar algo sobre as trajetórias relativas entre as duas embarcações.

O tira-teima, aqui, só poderia se dar por meio de um dos três seguintes cenários:
1. disponibilidade de imagens obtidas a partir da embarcação supostamente atingida, para confrontação;

2. disponibilidade de imagens que mostrassem a esteira de espuma deixada pelo barco patrulha, o que seria evidência incontestável da trajetória por ele descrita. Uma imagem da esteira de espuma do pesqueiro serviria ao mesmo objetivo;

3. disponibilidade de imagens obtidas por um observador situado em um terceiro ponto de vista.
Veja as imagens, visualize os três cenários acima, e tire suas próprias conclusões, nestes tempos em que as imagens podem ser lidas - ou manipuladas - como se quiser.






segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"PiG começa ofender a Dilma: ela não passa de um fantoche"

ou "sobre o PiG e os camarões"

por Ricardo Goldbach

Com o título acima (o subtítulo é meu), o jornalista Paulo Henrique Amorim inicia em seu blog um texto que, logo à primeira leitura, exibe o mesmo viés que ele combate nos veículos do "outro lado". A análise de discurso pode ser tarefa que mereça lupa e sagacidade, mas não é este o caso aqui.

A primeira linha da postagem estampa:
"Diz a manchete do Estadão: A vitória de Lula."
A segunda, emenda:
"Diz a manchete do Globo (sic): Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014."
A terceira e a quarta raspam, com caco de telha, qualquer vontade de leitura do restante, mesmo de considerar o blogueiro como opinador sério:
"Ou seja, a Dilma não é nada.
Não passa de um fantoche."
Este sofisma pueril, esta conclusão de Amorim que é ataque direto à lógica formal de primeira ordem, traz à minha memória uma quadra pré-adolescente, um poemeto non-sense que encerrava-se por
"... se camarão não tem pescoço, por que roubaram minha bicicleta?"
O título da postagem traz algo que não se confirma nas citações. Nenhuma alusão a Dilma, como sucessora de Lula, pode ser considerada ofensa, a não ser para contorcionistas do discurso. Tal condição de Dilma foi reafirmada pelo próprio Lula, inúmeras vezes ao longo da campanha, inclusive quando era proibido, por lei, que houvesse campanha. Mais ainda, a própria presidenta eleita agradeceu a Lula, em discurso proferido no day after das urnas, por tê-la feito chegar onde chegou. A tal transferência de votos - ainda que os 56% obtidos por Dilma estivessem muito abaixo dos 80% da suposta aprovação alcançada por Lula - acabou por manifestar-se, como resultado direto do apoio decisivo do presidente. Onde, então, a ofensa vista por Amorim? Onde qualquer ofensa, a não ser aquela feita à inteligência de quem lê desapaixonadamente um post como aquele?

Pois é, muitas perguntas cabem, dependendo de como se constroi a tese a ser defendida. A primeira que me ocorre, nestes tempos de muita baba raivosa e pouca honestidade intelectual, é: onde estão os articulistas e pensadores de pena própria?


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O ambiente hospitalar é vetor de disseminação do estafilococo aureus resistente à meticilina?


por Ricardo Goldbach

De acordo com artigo publicado no American Journal of Nursing, de março 2008, volume 8, número 3, páginas 72DD - 72DD, que comenta trabalho publicado por Wilson AP, et al. (Crit Care Med 2007;35(10):2275–9), a transmissão do Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) não está ligada à higiene inadequada de funcionários de UTIs. O trabalho comentado no artigo baseou-se em testes realizados em dois hospitais universitários londrinos. Foram testadas mais de 2.400 amostras de utensílios tais como teclados de computador, telefones, monitores cardíacos, maçanetas, além de aventais, torneiras e canetas.

Por outro lado, a infectologista, mestra em epidemiologia, coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) e Gerente de Risco do Instituto Nacional de Cardiologia, Marisa Santos, diz que, tanto no Rio de Janeiro quanto no Brasil, as mãos dos profissionais de saúde são o principal vetor de transmissão do MRSA. O estudo em questão levou em consideração os utensílios ambientais, mas não as mãos dos profissionais, propriamente ditas. Santos diz também que, “apesar de os pacientes contaminarem seu entorno, não há identificação de casos de contaminação de um paciente por outro”.

Santos discorda da interpretação contida no artigo, dizendo que “não é verdade que se o profissional de saúde não higienizar as mãos não haverá risco de transmissão de infecção, pois as bactérias são transmitidas primordialmente pelas mãos dos profissionais de saúde”.

A especialista diz que o Brasil tem tradição em pesquisa e publicação de trabalhos na área de Controle de Infecção Hospitalar. Quando em muitos países do mundo o MRSA ainda não era objeto de preocupação, “no Brasil já se efetuava o rastreamento, a identificação e o isolamento de pacientes contaminados, de modo a se evitar a disseminação do estafilococo”. Santos diz também que “este histórico de conhecimento e de ação sobre o MRSA faz com que as atenções mais recentes tenham se voltado para pseudômonas e acinetobacters”.

Em oposição ao MRSA tradicional ou H-MRSA, onde “H” designa a origem hospitalar da contaminação, Santos cita que “existe hoje o CA-MRSA, (community acquired MRSA), que migrou de comunidades aborígenes australianas em direção às instituições de saúde, e atualmente está disseminado pelo mundo”.

Nossa entrevistada afirma que “a identificação do CA-MRSA entre jogadores de futebol norte-americanos permite inferir que toalhas, antibióticos e aparelhos de barbear compartilhados sejam possíveis vetores de transmissão”. Ela preconiza o uso de toalhas individuais de ou de papel, como forma de se evitar o contágio. “Como o combate ao MRSA não se dá através da administração de antibióticos orais, mas apenas de injetáveis, é mais caro impedir sua disseminação”, diz.

Santos afirma que “dentre os pesquisadores da área básica, há pouca gente dedicada ao controle de infecções hospitalares”.  Segundo ela, esta é uma área importante, “na qual se daria o necessário acompanhamento da evolução das bactérias”.

No entanto, segundo a especialista, “a indústria farmacêutica não lança novos antibióticos, por conta de eles não terem uso continuado, não serem comercialmente interessantes”. Santos conclui que “menos antibióticos devem ser usados, ou voltaremos à era pré-antibióticos, quando as infecções não eram passíveis de tratamento e controle”.


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Por que as abelhas somem?

Ricardo Goldbach


Há uns cinco ou seis anos acompanho o noticiário referente ao desaparecimento de abelhas no hemisfério norte. Populações inteiras morrem ou literalmente desaparecem - aos milhões - nos EUA e na Europa. CNN Tech, New York Times, CBS e outros veículos não ignoram, mas não dão acompanhamento. Segundo o especialista Eric Mussen, do Departamento de Entomologia da Universidade da Califórnia, Davis, cerca de 30% das abelhas norte-americanas simplesmente abandonaram suas colmeias e proles, levando as colônias ao colapso, apenas no ano de 2006. No ano seguinte, de acordo com o NY Times, David Bradshaw, apicultor californiano, viu sumirem de um dia para outro metade de suas 100 milhões de abelhas.

Dentre os agentes suspeitamente responsáveis pelo fenômeno, estão as emissões de radiação eletromagnética da telefonia celular e a disseminação de organismos geneticamente modificados. Ao lado deles, aparecem também as chemtrails (chemical trails), rastros resultantes de pulverizações realizadas por meio de aeronaves de todos os tipos e tamanhos, algumas de grande porte e sem qualquer identificação na fuselagem. As autoridades militares e aeronáuticas norteamericanas não levam a sério qualquer menção ao assunto. Alusões à coincidência entre o início do desaparecimento das abelhas e a observação de pulverizações e chemtrails, inicialmente nos EUA e posteriormente na Europa, ficam restritas à mídia alternativa, em que pesem os depoimentos taxativamente vinculantes, gravados com apicultores, fazendeiros e outros interessados não somente na produção de mel, mas também na função polinizadora que aqueles insetos desempenham em cerca de 90% das lavouras do país.

Paralelamente, canais de comunicação oficiais e, mais recentemente, outros nem tanto, continuam a disseminar versão segundo a qual chemtrails são, na verdade, contrails (condensation trails) - rastros provocados pela condensação de ar resultante do calor emitido pelas turbinas de aviões a jato, muito comuns nos céus do hemisfério norte. A grande diferença entre os dois tipos de rastro reside no fato de que contrails dissipam-se em minutos - uma vez que são compostas unicamente de vapor d'água - ao passo que chemtrails expandem-se e consolidam-se em uma única massa, algumas horas após a aspersão, literalmente encobrindo os céus de cidades e resultando em uma precipitação na qual são identificadas diversas substâncias químicas, dentre elas o bário.

O diretor da Associação Alemã de Apicultores e vice-presidente da Associação Européia de Apicultores Profissionais, Walter Haefeker, disse em entrevista à revista Der Spiegel que o declínio médio da população alemã de abelhas, por volta de 2007, era da ordem de 25%, podendo ter chegado a 80% em algumas regiões. Haefeker cita Albert Einstein: "Se as abelhas desaparecessem da face da Terra, a Humanidade duraria cerca de mais quatro anos, apenas. Sem abelhas, interrompe-se o processo de polinização, acabam-se as plantas, acabam-se os animais, acaba-se o Homem".

Enquanto isso, aqui no Brasil, nos preocupamos em identificar qual candidato à presidência, ao senado ou às assembléias é um pouco menos canalha do que seus adversários - há um odor de descompasso no ar. Pode provir de telefonia celular, OGM's ou chemtrails. Tanto faz.


Algumas referências:

Der Spiegel Online International
http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,473166,00.html

New York Times
http://www.nytimes.com/2007/02/27/business/27bees.html

CNN
http://articles.cnn.com/2007-09-06/tech/bee.disorder_1_colony-collapse-disorder-australian-bees-worker-bees?_s=PM%3ATECH

UC, Davis
http://entomology.ucdavis.edu/news/dssericmussen.html

CBS
http://www.cbsnews.com/stories/2008/03/07/eveningnews/main3919204.shtml

Cosmos Magazine
http://www.cosmosmagazine.com/features/online/1087/mystery-dying-bees?page=2

Daily Mail
http://www.dailymail.co.uk/sciencetech/article-1289893/Attack-vapours--jet-trails-block-sunshine.html

Examiner.com
http://www.examiner.com/signs-of-the-times-in-phoenix/honey-bees-disappearing-may-be-a-greater-threat-than-global-warming

DiscoveryNews
http://news.discovery.com/animals/honey-bees-disappearing-still-a-problem.html

domingo, 4 de abril de 2010

Sobre Orwell, Endemol e "Boninho"

Ricardo Goldbach

Um artigo de Ivana Bentes, professora, pesquisadora e diretora da ECO-UFRJ, traz considerações sobre o Big Brother Brasil. O texto é lúcido, apesar de não diferir em muito das demais avaliações críticas que já li, até mesmo quanto a merchandising. Nenhuma das resenhas faz uma leitura que considero relevante, sobre esta criação da Endemol. O que é feito pelo mundo afora - com a cumplicidade de um universo de candidatos a celebridades e suas torcidas de arquibancada fabricada, além de patrocinadores e diretores inescrupulosos - é desconstruir e eclipsar um ícone de terror e totalitarismo, o "Grande Irmão" de George Orwell. E totalitarismo é coisa contra a qual o escritor já havia lutado, ao cerrar fileiras com opositores de Franco, na Espanha fascista.

O Big Brother da obra "1984" é figura aglutinadora e diretora de um partido oficial, o único a decidir as políticas de economia, guerra e paz de um continente ajoelhado e subjugado pelo IngSoc (o partido do socialismo inglês). Nesta missão, o Grande Irmão é secundado por uma nomenklatura cujo matiz pode ser hoje em dia comparado a qualquer sabor de fascismo, quer à esquerda quer à direita de um centro para todos os efeitos conceitual e abstrato. A submissão é conseguida por meio da fabricação de verdades e da distorção de números e estatísticas, além de brutal repressão à opinião e ao pensamento, o que inclui a reinvenção do conteúdo semântico dos vocábulos. Mais ainda, o Grande Irmão detém o controle da câmera que invade a privacidade dos lares dos cidadãos, em busca de indícios de crimes insidiosos tais como ler, pensar e escrever.

O personagem principal, Winston Smith, tem como atividade profissional alterar o passado, reeditando páginas antigas do "Time", jornal oficial e único, ao sabor de necessidades e interesses do partido igualmente único. E Smith termina por incorrer no crime de pensar, pelo que paga caro - abdica de sua certeza literal de que "2+2=4", depois de perceber-se amedrontável e torturável, moralmente vulnerável como qualquer ser humano confrontado com seus limites físicos e psicológicos. E abdicar de si mesmo diante de um regime opressor acaba por mostrar-se como algo fatalmente humano, demasiadamente humano.

O que Endemol et caterva fazem, ao eclipsar e refrasear em centro de picadeiro o que deveria ser um convite à reflexão e à resistência, não é mais do que o próprio Smith fazia a mando do Partido - reescrever a história da política e da cultura, com vistas a atender interesses centralizados. No caso aqui, vender detergentes e televisores para uma massa disforme cujos olhos e pensamentos estão conturbados pelo excesso de areia que a tela atira em sua direção.

Ao nomear jovens despreparados, ocos e desesperançados como "brothers" e "sisters", o BBB não serve somente ao merchandising. Também - e principalmente - anestesia e deseduca. Com o sentido da câmera de vigilância invertido, com os lares vigiando os "privilegiados" pelo sistema, a Endemol e seus cúmplices atingem por plágio malicioso os mesmos objetivos do Grande Irmão, e o fazem praticando o newspeak conforme concebido pelo autor original. Sem direito a copyright defendido com garras e presas por batalhões de advogados.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Sobre pivetes e empresários

Ricardo Goldbach

O sinal está fechado, a janela idem. O pivete quebra o vidro e, rápido como se furta, leva o fruto da ação consigo. O e-mail está protegido por senha, o perfil no Facebook idem. No entanto, pego em flagrante de sabotagem comercial, Mark Zuckerberg dá uma de pivete. Pensando nas ações de sua empresa, imita a ação do moleque, infiltra-se numa operação concorrente ao seu ainda não lançado Facebook, visando retardá-la em proveito de sua própria criação, e de quebra estilhaça sigilos como se de vidro fossem. E fez mais, de acordo com o Business Insider.

Segundo a publicação, uma sucessão de atos de escroqueria de Zuckerbeg é trazida à tona pela investigação jornalística da publicação Harvard Crimson, da universidade onde ele estudava, ainda no frescor e inexperiência de seus 19 anos. O criador do Facebook é exposto pelo Business Insider, que aprofunda mais a investigação (aqui, aqui e aqui), como um hackeador de contas de e-mail de repórteres, além de invasor e adulterador de perfis do Facebook, e criador de contas-fantasma no provedor de e-mail da universidade.

O Facebook respondeu ao Business Insider com o seguinte e inexpressivo texto:

We’re not going to debate the disgruntled litigants and anonymous sources who seek to rewrite Facebook’s early history or embarrass Mark Zuckerberg with dated allegations. The unquestioned fact is that since leaving Harvard for Silicon Valley nearly six years ago, Mark has led Facebook's growth from a college website to a global service playing an important role in the lives of over 400 million people.

A assessoria de imprensa do Facebook tem razão: é fato inquestionável que o empresário tenha transformado um site acadêmico em estrondoso sucesso empresarial, em cerca de de seis anos. Mas, a bem da verdade, o texto de resposta não responde nada quanto aos supostos atos de Zuckerberg, e menos ainda o faz ao desqualificar o esforço investigativo, que nada de braçada em evidências testemunhais e documentais.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Entrevista - O paciente terminal na UTI e os Cuidados Paliativos

Cuidando do paciente, de seus familiares e da equipe de saúde - para além dos fármacos


Ricardo Goldbach

O conceito de Cuidados Paliativos (CP) é uma categoria da especialidade de Medicina Intensiva que visa proporcionar alívio a pacientes terminais internados em uma UTI. Estes cuidados, que vão além da diminuição do sofrimento físico propriamente dito, estendem-se também aos familiares do paciente e à equipe hospitalar envolvida. A entrevista a seguir foi concedida, em 2008, pelo médico nefrologista, coordenador da rotina de CTI do Hospital Pró-Cardíaco e professor concursado de Clínica Médica da Unirio, com MBA em Gestão de Serviços de Saúde pela FGV, João Luiz Ferreira Costa.

RG  - Uma vez que a dig­nidade humana é o foco central dos CP, quais são as características necessárias a um profissional que atue diretamente com um paciente de UTI, esteja este em estado terminal ou não?

JLFC - Em primeiro lugar, o conhecimento técnico do profissional em relação ao diagnóstico primário do paciente, ao diagnóstico que determinou sua internação na UTI. Em seguida, o conhecimento técnico em relação ao tratamento técnico resolutivo e paliativo. Não adianta apenas fornecer a morfina, é necessário o en­tendimento do mecanismo da dor. Por exemplo, a fisioterapia passiva, que evita a imobilidade articular, pode ser tão ou mais importante que o fármaco.

O profissional deve, ainda, ter completo entendimento anamnésico da história patológica pregressa, psicológica, familiar e sócio-econômica do paciente, resgatando valores evolutivos de vida e sociológicos, sem se esquecer dos valores religiosos envolvidos.

RG - Qual é a importância do conhecimento do médico sobre o ambiente sócio-familiar do paciente?

JLFC - O médico deve entender a família, familiares consanguíneos e pessoas relacionadas, envolvidas com o cuidado e a vida afetiva do paciente. Deve envolver a família, com suas facilidades e dificuldades de relacionamente entre si, com o paciente e com a equipe de saúde, bem como os conflitos envolvendo todo esse universo, até mesmo os burocráticos e financei­ros relativos à cobertura de saúde, como elementos indissociáveis do plano de CP. Isto pode significar até mesmo o envolvimento de profissionais usualmente estranhos à área da saú­de, tais como gerentes de banco e advogados.

O especia­lista deve ser capaz de iden­tificar, no univer­so familiar do paciente, o responsável pelo seu cuidado direto, o responsável pela administração do patrimônio e o responsável legal pelo paciente – podem ser uma ou mais figuras. Uma vez identificados os personagens, usá-los para atenuar e eventualmente resolver esses conflitos.

É preciso entender conflitos como oportunidades de melhoria e não como situações indesejáveis, estabelecendo um canal de comunicação direto, franco e aberto com todos esses elementos e com a equipe de saúde, desestimulando desequilíbrios e conflitos.

O médico deve, por fim, ser capaz de entender e aceitar as suas fragilidades técnicas e emocionais para esse cuidado continuado ao paciente e também à equipe, sendo capaz de solicitar ajuda às instâncias superiores, quando necessário.

"O paciente e sua família transitam entre perplexidade,
negação, negocia­ção, revolta e,
final­mente, aceitação do processo de morte"


RG - Quais são as inter­disciplinaridades atualmente envolvidas em CP e qual é a dinâmica da atuação entre elas?

JLFC - Melhor que a interdisciplinaridade é a transdisciplinaridade, pois o plano de CP deve abordar metas a serem atingidas no prazo do processo de morte. Os fundamentos desse plano de CP são:

1. todos estamos em processo de morte e isto é um fato inexorável;

2. o conhecimento do item anterior não resolve a aceitação, plena ou parcial.

Todas as ações dos profissionais de disciplinas múltiplas devem se passar e se interdigitar de forma transdisciplinar, tendo-se em mente as duas afirmações acima e o fato de que o paciente e sua família transitam entre perplexidade, negação, negociação, revolta e finalmente aceitação do processo de morte.

Assim, uma vez estabelecidos os diagnósticos médicos da primeira questão, estabelece-se um plano de cuidados que envolve ações médicas, de enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, e de outros tantos profissionais necessários, voltados ao alívio do paciente, da família e da própria equipe de saúde. Isto evita excessos de parte a parte, incluindo a propria banalização do processo de morte e do evento do óbito propriamente dito.

RG - É possível a avaliação da eficácia de ações não-técnicas - avaliação do estado emocional do paciente, preparação do paciente ou da família sobre haver um assunto difícil a ser tratado - e para-farmacológicas, no que diz respeito ao alívio do sofrimento de um paciente terminal, ou mesmo na ampliação de sobrevida, com qualidade?

JLFC - Existem iniciativas neste sentido, que já foram instrumentalizadas pela Society of Critical Care Medicine em um questionário chamado Qualifying of Death and Dying (QoDD22). Este questionário está disponível na CCM de março de 2008, e desconheço ainda quaisquer resultados práticos em nosso meio.

RG - Há alguma observação ou comentário extra que você considere como contribuição significativa às reflexões sobre o tema?

JLFC - Acredito que as disciplinas da graduação médica, que privilegiam a excelência do profissional, além de efetividade de habilidades diagnósticas e de estabelecimento de planos terapêuticos e visões prognósticas, deveriam contemplar posturas filosóficas e éticas, indissociáveis de uma prática médica ancorada em conhecimento, habilidade psicomotora e afetividade voltados aos CP.

Os domínios da aprendizagem de Lewis, cognitivos, psicomotores e afetivos, deveriam ser valorizados e aplicados às disciplinas específicas de filosofia ainda no curso básico da graduação médica. Sem isso, não conseguiremos desenvolver as habilidades e predisposição à comunicação necessárias aos cuidados médicos como um todo e aos Cuidados Paliativos, em especial.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Aí ela veio e bateu

Ricardo Goldbach

Aí ela veio e bateu. Bateu forte. A insônia. Do tipo terminal, sabe? Não, insônia terminal não é aquela que antecede o final, a do cara que está tão mal de saúde que já nem consegue mais dormir. Não é essa. Insônia terminal é outra, é a que faz a gente acordar antes da hora. Sabe aquela hora em que a gente acha que tem que resolver todos os problemas? Aquela hora em que eles ficam ali, desfilando provocantes, um atrás do outro, se oferecendo naquela passarela do escuro? Pois é, a gente acorda justamente na hora em que não dá para resolver nenhum deles, não dá para resolver nada, a não ser ir até a janela. Pois é, resolvi ir. A insônia veio e eu fui. Fui até a janela, ver a madrugada. Um cigarro? Não, estou resistindo. E vai que fui até a janela, visitar a madrugada.


E vai que eu fiquei ali, olhando em volta, para a rua e para o céu, para o céu e para a rua. E o que são aqueles pássaros voando baixo, pouco abaixo das copas das árvores de Copa? Nunca sei se são morcegos tardios ou pombos cedios. Existe cedios? Não? Agora existe. Mas vai que entre o céu e a rua tem mais coisas do que a gente imagina, além daqueles pombos que podem ser morcegos que podem ser pombos. Tem também um monte de janelas, nos prédios, com aquela luzinha azulada fraca lá dentro, aquela luzinha que dá uma tremida de quando em vez. Sei, conheço isso, a minha está ligada também.


Uma, duas, oito, quinze. Então lá fora tem mais um monte de gente que também não pode resolver nada a essa hora e resolveu ligar a luzinha azulada. Como tem gente que gosta da companhia dela. Ou então não gosta, mas também isso não é hora de ligar para alguém e bater papo, imagina só... Então fica ali, diante daquele colorido que de longe é azul. Parece que de longe tudo é azul, até a Terra. E quem mais é azul, a fraternidade ou a igualdade? Não me lembro, droga de memória. Mais um problema. Vou para a cama, dormir, esquecer, talvez sonhar. Um abraço, um beijo, bom dia.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Antes que você corra para o iPad, saiba que…

... não é a maravilha que a Apple sugeria ao mercado.

por Ricardo Goldbach

Você tem o costume de plugar o pen drive na entrada USB do seu computador? Gosta de usar câmera embutida para tirar fotografias ou usar aplicativos com reconhecimento de face? Tem o hábito de rodar vários programas ao mesmo tempo? Gosta de ler arquivos em PDF ou rodar aplicativos em Flash?

Então esqueça o iPad. Com ele você só lerá livros digitais compatíveis com o padrão específico da Apple, e não poderá fazer backups no pen drive. Nem pense, também, em usar um HD externo ou qualquer outro dispositivo USB. Mais ainda, este iPod vitaminado não sabe o que fazer diante de um arquivo Flash ou PDF. Como se isso fosse pouco, se você quiser consultar a agenda vai ter que parar de ouvir música - ele executa apenas um aplicativo de cada vez.

É hora de aguardar o futuro anunciado deste que parece ser o equivalente Apple do Windows Vista, um fracasso anunciado com muito estardalhaço mas que já é mal percebido pelos acionistas, que estão perdendo dinheiro. Infelizmente, muita gente irá atrás da propaganda, sem ler as letrinhas miúdas, e perderá dinheiro também.

Resumindo a história, você certamente comprará coisa melhor com os 500 dolares que este brinquedo custa - na configuração mínima.

Uma alternativa anunciada, para quem prefere esperar a poeira baixar, é um dispositivo semelhante, um projeto conjunto das empresas Microsoft e HP. Certamente rodará alguma versão de Windows, provavelmente haverá compatibilidade no que diz respeito a arquivos. Para a HP pode ser uma boa alternativa à sua fonte de receita mais evidente, que é a venda de tinta para impressoras.

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O autor tem mais de 30 anos de experiência em TI, em ambientes de mainframes, minicomputadores,supermicrocomputadores e microcomputadores, nas atividades de levantamento de requisitos, projeto, desenvolvimento, testes e homologação de sistemas, suporte, administração de dados e de bancos de dados, treinamento e coordenação de equipes de desenvolvimento.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

1984 - um ano que nunca termina

Ricardo Goldbach


Notícia e opinião. Separados e identificados. É assim que a cartilha do bom jornalismo define os dois tipos de conteúdo de um veículo impresso ou online, além do terceiro, o anúncio publicitário, que é essencial à sobrevivência financeira da empresa jornalística.

A notícia nos traz um relato sobre algo atual, do interesse de uma significativa parcela da sociedade. É encimada por um título que informa o leitor sobre o conteúdo do texto em si, da matéria. Ao ler o título, o leitor decide o quanto o texto interessa a ele, se prefere ler ou seguir adiante.

Já a opinião é o pensamento de alguém em particular, um pensamento que pode estar baseado em crença, interesse, experiência própria ou qualquer outro viés pessoal. Este alguém pode ser o editor, um especialista em tema relevante ou mesmo o leitor. A opinião é usualmente identificada por estar em um editorial, numa coluna assinada, na seção de cartas de leitores ou ainda representada por uma charge. Mas o que acontece quando um título de matéria expressa uma opinião?

Nessa hora acaba o jornalismo e começa a panfletagem ideológica. Nessa hora o leitor é poupado de ler nas entrelinhas, já está tudo nas linhas, sem maiores vergonhas. Com o acirramento das tensões políticas, que no frigir dos ovos representam mera briga por reserva de mercado, simples luta despudorada entre interesses comerciais – um situado na máquina governamental corrompida, outro na empresa privada - fica exposta uma face daninha da imprensa. Nessa hora o fazedor de opinião vira empurrador de opinião, abaixo de goelas que vão se acostumando a olhar sem ver, a ver sem pensar, a pensar sem criticar. Opinião e notícia não devem jamais se misturar, pelo bem da informação, que nunca é transmitida com isenção, mas que também não pode ser tão contaminada assim. Parece constatação romântica? Parece. É pétrea verdade fundamental? Também.

Tudo isso é muito aparente, óbvio demais, até. Mas não custa lembrar, não custa pensar. Quando o Globo traz uma matéria com o título Governo federal prepara novo ataque à mídia, ele me lembra, mais uma enfadonha vez, que o ano de 2010 terminará, mas o de 1984 não, neste bordel onde não há virgens. Com esse tipo de autofagia da imprensa, não são necessários ataques governamentais interesseira e grosseiramente dirigidos - a mídia faz o serviço sozinha.