segunda-feira, 30 de março de 2015

Estilhaços do avião da Germanwings atingem jornalismo brasileiro








Ricardo Goldbach

Assistindo à cobertura do acidente, testemunhei o de sempre durante as transmissões do dia 24/03, mais do mesmo: amadorismo, despreparo e desrespeito ao assinante. Fico aqui apenas com as pérolas do canal GloboNews, já que nesse campeonato de incompetências é impossível zapear para a Band TV, que se superou de vez ao convidar um piloto de monomotor para fazer comentários técnicos sobre o Airbus A320.

Sem mais delongas, segue a última safra de pérolas da GloboNews.

Um especialista convidado: "Pode ter sido um caso de anoréxia, por falta de oxigênio."
(Legítimo case de anóxia profissional.)

Um âncora: "[o piloto] não manteve a nivelização, aliás, nivelação."
(Faltaram "niveladura" e "nivelismo". Fica para a próxima.)

Uma jornalista: "(...) não alcançou a maneta na cabine."
(Manetas na cabine? São permitidos? Não será perigoso que um maneta pilote um avião? De qualquer modo, mesmo que a -- digamos -- profissional quisesse se referir a "manete" ou "manche", estaria redondamente desinformada, em ambos os casos.)

Um jornalista: "Após uma caída brusca, (...)".
("Caída brusca"? Ele se referia à qualidade dos cursos de jornalismo?)

Uma jornalista: "(...) não viram as vítimas visualmente."
(Há outro modo de ver?)

Um jornalista: "O avião estava na velocidade de cruzeiro, ou seja, na velocidade máxima."
(Chutando como chuta, o ex-estagiário estaria melhor em um campo de futebol; uma coisa é uma coisa, a outra coisa é outra coisa.)

Uma jornalista: "Qual a distância do gabinete de crise até o local do acidente?"
(Sejamos sinceros e realistas: que diferença faz?)

Uma jornalista: "(...) como acaba de dizer aquele senhor da Lufthansa."
("Aquele senhor" tem um cargo: ele é simplesmente o presidente da companhia.)

Além dos baixos graus de alfabetização e cultura geral dos profissionais ex-estagiários globais, a falta de apuração é vergonhosa, na pressa de veicular qualquer coisa que seja: o comandante ora tem 60 mil horas de voo, ora 6 mil; o copiloto ora tem 600 horas de voo, ora 3.600. No meio tempo, dá para saber que a aeronave tinha "dois comandantes". 

Paradoxal é que, entra ano sai ano, os veículos publicam religiosamente "pérolas do Enem" e "pérolas do vestibular", sem perceber que, com o baixíssimo nível educacional e cultural de suas próprias equipes de jornalismo, só fazem contribuir para a perpetuação daquelas pérolas, ao desensinar hoje os vestibulandos e ex-estagiários de amanhã.


terça-feira, 10 de março de 2015

Réquiem para a esquerda

Ricardo Goldbach

Por obra do PT -- essa ex-querda despreparada e desarticulada representada por Dilma Rousseff, a marionete da lumpen elite que ora sangra presente e futuro do Brasil:

. sai estadista, entra animador de auditório
. sai Constituição, entre prostituição
. sai Bakunin, entra bacanal
. sai Gramsci, entra grana
. sai Lênin, entra leniência


Para culminar, mesmo que a presidente perca seus direitos políticos, teríamos Michel Temer na Presidência da República, para desânimo de ex-petistas como eu.

Mas Dilma não sairia por um infantilóide "3º turno", como querem fazer parecer os militantes do MAV (ex-desocupados, agora assalariados pagos para operar teclados raivosos) e os marqueteiros que pilotam a mente de Dilma, mas por "maus feitos" (sic) tipificados na lei 8.492/1992, cujos sinais e indícios até os postes (os outros, os de rua) escutam e veem, por exemplo. 

Foi nisso que desaguaram as alianças pragmáticas que o ex-partido de trabalhadores fez para assaltar a nação; o partido tinha tanto ódio (categoria inexistente em Ciências Políticas) de qualquer seita que não tivesse Lula no altar-mor, que foi lá e fez a mesma coisa. Fez pior. E pode tentar fazer pior ainda.

Em tempo: não ganhei nem ganharei "deles" (o onipresente bicho-papão inventado pelos marqueteiros de Lula) um tostão sequer para ir à rua, de luto, neste próximo dia 15 de março. Vou em homenagem ao meu título de eleitor, tão espoliado e desrespeitado pelos esquemas Diebold e assemelhados.


sábado, 7 de março de 2015

Como é Isso, jovem?



Neste 7/3/15, a #TVBandNews associa "Sunday, Bloody Sunday", do U2 (sobre conflitos na Irlanda), aos conflitos raciais nos EUA, nos anos 1960.

No mesmo canal, o nome da agência Reuters é pronunciado "rêuters", em vez de "róiters"; tiros a esmo são pronunciados como "tiros a ésmo" e por aí vai.

É o jornalismo futebol, da geração inculta que aparelhou a mídia: chuta, chuta e chuta novamente, até que uma hora acerta -- mas nunca na hora certa.

Menos videogame, jovem.

quinta-feira, 5 de março de 2015

"1984" trivia

by Ricardo Goldbach


While translating and subtitling "1984" (Michael Radford version, filmed in 1984), as a personal project, I realized some explicit Easter eggs were embedded in the movie, linking production crew names to characters and ordnances.

The following quotes don't exist in Orwell's book. Coincidence or not:

Costume Designer Emma Porteous christens an ordnance, as in "12,300 Porteous piloted missiles". (some alliteration here: "Porteous piloted")

Art Department Assistant Amanda Grenville christens an ordnance, as in "3.1 million Grenville gas-operated light machine guns". (some alliteration here: "Grenville gas-operated")

Producer Simon Perry christens an ordnance, as in "9 million Perry pineapple pin grenades". (some alliteration here: "Perry pineapple pin")

Executive Producer Marvin J. Rosenblum christens an unperson, as in "Outer Party member 4392, Rosenblum, Miniprod, Light Industry Section".

Associate Producer John Davis christens an unperson, as in "Outer Party member 66755, Davis, Miniprod, Women's Section".

Art Director Grant Hicks christens an unperson, as in "Outer Party member 53922, Hicks, Minirec, Proletarian Affairs Section".

Assistant Editor Nicolette Bolgar christens an unperson, as in "Outer Party member 947743, Bolgar, Minitrue, Records Section".

Wardrobe Supervisor John Brady christens an unperson, as in "Outer Party member 5739, Brady, Minitrue, Records Section".

Co-producer Robert Devereux christens an unperson, as in "Outer Party member 984213, Devereux, Minitrue, Records Section".

Production Buyer Peter Rutherford christens the character played by actor Peter Frye.

While "Davis", "Brady" and "Rosenblum" may be regarded as usual names, "Porteous", "Bolgar" and "Grenville" seem as equating to my hypothesis of intentional use, on the other hand.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

COISA PRIVÊ, SÓ ENTRE MIM E VOCÊ
























Agora é tarde, Tadeu.
Eu ia mesmo contar,
você foi clicado
nos parabéns,
naquela data protocolar,
que já foi querida.

No dia que é teu,
no dia que é meu.
Mas liga não,
ainda te restam
muitos anos de vida.

Abra o link,
alguém te serviu uma bebida.
Em teu nome,
cliquei muitas vezes
na página que doa um centavo.

Eles garantem:
eu e você de alma lavada,
ajudamos juntos
o instituto universal
em prol do fim
da unha encravada.

Estamos no livro da vida,
baronesa.
Já se passaram muitos anos,
mas tua risada
ainda põe a mesa.

Aquele joguinho
que você jogou?
Você ganhou.
Ganharam todos,
foi ganho geral.

Ganharam teus dados,
teu endereço de e-mail,
teu número de telefone,
o endereço
de onde você faz
unha e cabelo,
de onde cuidam
dos teus cuidados,
ou de quase todos.

Por isso,
no Carnaval que vem
só tem um jeito:
vou sair fantasiado
de quem "não deve, não teme":
só uma larga faixa de papel
cruzando o peito.

Abaixo do número
da minha identidade,
vai escrito teu cpf
e uma carinha de meme
(segundo dizem,
é uma "piada de internet").

Para ficar completo,
o endereço
da escola da tua filha,
o da festinha em que ela vai
e uma foto da família.

Agora vambora,
que o pouco que restou
faltou pouco para vazar,
ia vazar,
quase vazou.


RGold, 28/02/2012

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Execução em Brasília

Ricardo Goldbach

Depois de intensas porém malsucedidas negociações, o grupo de mercenários conhecido como al-Base executou há poucos minutos o candidato oficial à presidência da Cãmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia.

Restam vivos os reféns Dilma Rousseff, PT e Brasil, mas as chances dos dois primeiros são incertas, pois as torneiras dos mensalões estão quase secas, além de vigiadas pelo MPF e pela Polícia Federal, o que inviabiliza novas, digamos, negociações.

Da nação brasileira, a refém maior desse pôquer mafioso que se joga no Congresso, pouco se pode falar, a não ser que para ela nada irá mudar (para melhor, ao menos) durante os próximos quatro anos.

Já no Senado Federal, a manutenção de Renan Calheiros na presidência manteve os sorrisos nos rostos de Saney, Collor e outras eminências pardas do, digamos, projeto político do PT.


domingo, 25 de janeiro de 2015

Sobre Mike, cordas e cadarços

Ricardo Goldbach

Outro dia mencionei o Mike e resolvi revê-lo, matar saudades. Replico este texto dele, de janeiro de 2010:

"Muito estranho o LHC, aquele anel magnético lá na Suiça, tipo assim um Red Bull de elétrons. Para a teoria do campo unificado dar liga, tem que existir mais umas nove dimensões, além das quatro que a gente conhece, e tem mais. Tem que os átomos e as partículas subatômicas, que a gente aprendeu no colégio que são assim umas bolinhas muito pequenas, que nem no microscópio a gente vê, não são bolinhas.

Não é que dizem que elas tem uma dimensão? Que são tipo assim umas retas no espaço? Que se chamam cordas e supercordas? Que vibram? Que dependendo da frequência de vibração elas ganham suas identidades, tipo assim "Ah, é? Você vibra a 2GHz? Então você é um méson pi. Próxima..." E tem o bóson de Higgs, xiii... (alô revisão, não é "13...", é "xiii...", mesmo), esse é o tal, ele atribui grave responsabilidade ao gravitron, que é atribuir gravidade às massas, como se as massas já não estivessem em estado grave.

Mas aí tem gente que acha que lá na Suiça, lá no LHC, eles vão fazer o mundo acabar. Imagine só, esse mundo lindo! Tá certo que os rios estão ficando cheios de bolhas de sabão, tem também as motoserras, o José Serra, a Galisteu, os mercados de derivativos... já não tem tanta lula nem baleia no mar... tem cada vez mais pinguço no bar... já não tem tanto francês na França... Quer saber? Que se dane, deixa os cadarços pra lá."


Palavras. Ora, as palavras...

"Bare lists of words are found suggestive to an imaginative and excited mind."
(Ralph Waldo Emerson, "The Poet", 1844)


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Samsung Galaxy S5 Mini first custom ROM ever [WIP]

by Ricardo Goldbach
RGold55




After having done some alpha and beta testing of first G800H (Qualcomm) TWRP ever, as developed by my Indian bro Rutvik Rajagopal, aka rutvikrvr (xda dev), I'm glad to announce that he is cooking the very first custom ROM (as of now) for Samsung Galaxy S5 Mini.

Stay tuned for more!

05/24/15 - UPDATE: jackeagle presents Bliss Pop Rom (Lolipop 5.1.1) for G800H at xda-developers.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Emburrece, Brasil!

Ricardo Goldbach

De molho, com o pé quebrado e embrulhado em quilos de gesso, dedico-me ao ócio passivo nessa noite de segunda-feira. Isso, esse mesmo. Presto atenção àquele aparelho de promoção eletrônica do emburrecimento coletivo, a televisão (que Mike costuma chamar de "telementirão").

Está começando o "XPTO em Pauta", naquele canal que borra visualmente toda e qualquer referência a marcas comerciais que não contribuam para o caixinha da empresa, mesmo que se trate de matéria jornalística. Nada de marca de tênis em camiseta de entrevistado, nada de logotipo em caminhão que apareça distante, ao fundo de uma tomada. Portanto, "XPTO em Pauta", mesmo.

Divirjo, mas volto ao assunto. A ex-estagiária começa a falar. Passados menos de 2 minutos, ouço algo como "A chuva em São Paulo ela causou muitos estragos". Repito mental e inutilmente a mesma pergunta de sempre. Como assim, "A chuva ela"? A "chuva" já não é sujeito de oração o suficiente? Que diabos "ela" está fazendo aí? Está bem, está certo: é o modismo -- que batizo de "pronomismo" --, sucessor do gerundismo que assolou o dócil rebanho há algum tempo, o mesmo gerundismo que já mereceu o deboche dos pronomistas de agora... E Jorge Benjor vem vindo, do fundo da minha mente: "♫ Os pronomistas estão chegando, estão chegando os pronomistas ♪" Mentira, eles estão aí já faz algum tempo, da presidência da república ao balconista de boteco.

Preparo-me para o que possa vir em seguida (e sempre vem). Bingo! Sou informado de que as condições meteorológicas de São Paulo causaram "raios e descargas elétricas". Hein? Raios e descargas? Que raios as descargas fazem aí, se já há raios? Não tem jeito; como dizia o sábio Vicente Matheus, quem está na chuva é para se queimar. E, com essa chuva de São Paulo, haja queimação.

Queimo-me pois, à luz do Sol, sem filtro e sem piedade. Vai que, à luz dos refletores, a mesma criatura dispara, certeira e confiante: "A vitamina D vem do Sol". Catzo! E eu que achava que do Sol vinham apenas ejeções de massas coronais, raios gama, infravermelhos e ultravioletas, fótons e outras partículas e raios menos votados.

Desisto. Desligo. Não sou da geração "Chaves", mas penso que o mexicano e sua trupe deviam ser coisa mais instrutiva do que isso aí em cima, do que esse neojornalismo de improviso, exercido por despreparados. Afinal de contas, pensar não custa nada e dói menos que injeção.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

"False arrests won't stop us covering Israel's occupation"

Ricardo Goldbach

Não gosto de fazer meros copy&paste, muito menos sem comentários meus, mas aqui vai uma importante relato sobre como a liberdade de imprensa está sendo cerceada pelo exército israelense na Cisjordânia.

Antigamente as identificações profissionais de jornalistas israelenses traziam a seguinte frase: "A polícia de Israel deve dar assistência ao portador deste documento."  Não mais. Segue o testemunho do jornalista Gideon Levy, do Haaretz, publicado hoje (25/12) e encerrado com a promessa: "Continuaremos a cobrir a ocupação [da Cisjordânia]."

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On Monday of this week we drove to the village of Artah, south of Tul Karm, to report yet another story of the evil of the occupation, this one particularly infuriating and sad. The photographer Alex Levac and I were in Artah, intending to return home to Tel Aviv. The soldiers at Checkpoint 407 were surprised to see Israeli Jews leaving from the direction of Tul Karm. We showed our press cards and told them that we had been accustomed to going everywhere in the West Bank for more than 25 years.

Thus began an episode in the theater of the absurd that lasted until evening. The Israeli army and the Israel Police kept us in custody for about the next nine hours. The soldiers confiscated our car keys and identity documents lest we run for our lives. We were not allowed to get out of the car, even for a moment. One insolent soldier was insulted on account of nothing and the police were summoned on account of nothing. The police did not even ask us what had happened – and just like that, we were “detained.”

We were put inside a “Caracal” – an armored, reinforced metal monster with barred windows – and we drove for about an hour to the Ariel police station. There we were questioned and fingerprinted. Mug shots were taken of us for the criminals’ photo album, and we were subjected to humiliation. On the way there, I thought about the Palestinian children whom these police arrest and place in this same metal monster and what they endure. The police officers said we were being “detained” – a euphemism for arrest. When we asked to go to the bathroom, the duty officer barked: Not without an escort. The detective said we were endangering national security.

The police station in Ariel is a place to see. There is a photograph of a rabbi on the wall of the interrogation room, and a thick-bearded man walked freely around the station, offering Hanukkah donuts to the police officers and asking if they had put on tefillin that day.

The allegations: violating an emergency order and insulting a soldier. The law books contain no statutes about insulting a journalist. Even as we were on our way to Ariel, we heard the false accusation that came from the army, and then the official statement of the Judea and Samaria District Police: We had spat at the soldiers. First the “murdering” pilots (which I never wrote), and now the “spitting libel” (I never spat on them). If we were suspected of having spat at soldiers, it is easy to imagine the intolerable ease with which the soldiers could say, falsely, that a Palestinian had pulled a knife at a checkpoint or threatened them a moment before they shot him dead.

This could have been a negligible story if it did not signal the ill wind that is blowing in the Israel Police and in the army: journalists are a nuisance (in the best case) and a hostile element (in any other case). Israeli press cards from years ago bore the following sentence: “The Israel Police is asked to assist the bearer of this card.”

It never occurs to the police in the territories to assist journalists; they usually try to sabotage their work, with the army beside them. Even the sanctimonious concern that IDF Spokesman’s Office personnel express for journalists’ safety – the explanation given for why any entry into Area A must be coordinated with that office – is flawed by a basic lack of understanding. Some professions are dangerous, and journalism is not doing its job by “coordinating” with the authorities. The authorities’ intention is clear: to close the West Bank to scrutiny, or at least to make it hard for journalists to work there. Gaza has been closed to Israeli journalists for about eight years – a scandal in itself – and journalists bow their heads in surrender. That must not be allowed to happen in the West Bank too, even if only a tiny group of people still shows the slightest interest in what goes on there.

They let us go in the evening. The Israeli Police’s APC brought us back to the checkpoint. The case awaits a decision. Another decision is obvious: We will keep on covering the occupation.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Carta aberta a Dilma Rousseff

ou "Chame o síndico!"

Ricardo Goldbach

É de embasbacar, dona Dilma, mas passados 14 anos desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu o poder, Lula descobre que "o povo quer mais ética". É assim que ele classifica em seu blog o recado das eleições de 26 de outubro de 2014.

Dois erros, zero acertos e uma omissão. Em primeiro lugar, é de estranhar que só agora o óbvio seja admitido. Coisas da retórica, é o que pode ser dito em favor dele. E é só o que pode ser dito em favor dele, não mais.

Em segundo, não existe essa coisa de "mais ética", assim como não existe "meia ética"; trata-se de um conceito binário: existe ou não. Há caráter ou não há; existe a enorme necessidade de deturpar o idioma, com a sua asquerosa substituição de "crime" por "malfeito" e outras artimanhas igualmente orwellianas, ou não existe – e Orwell já dava lições de contabilidade criativa; está lá para quem tiver olhos de ver. Você viu, dona Dilma?

A conveniente omissão do seu mentor diz respeito ao fato de no 1º turno o Brasil ter rechaçado o ausente programa de governo do PT, dando ao partido 41,49% dos votos. Não é pouco, mas não é aprovação. Já no 2º turno, foi a baixaria que seus marqueteiros patrocinaram, que sua militância adestrada copiou e que não merece ser dissecada novamente.

Ainda está em meus ouvidos a demagógica fala final do seu discurso de posse em janeiro de 2011: "Agora, com licença, que eu vou cuidar do meu povo". Engano seu, dona Dilma: você não foi eleita nem reeleita para "cuidar do seu povo".

Mal comparando e bem descrevendo, uma chefa de governo – está bem, eu me rendo – não é mais que uma síndica de prédio, que recolhe e administra as taxas que mantêm funcionando um bem comum, ou uma res pública, como é o caso aqui, tudo de acordo com a Convenção do Condomínio. É só isso que o “seu povo” quer, já estará de bom tamanho. Então chega de amenizar seus próprios crimes com o infantojuvenil argumento de que "eles fizeram pior, eles roubaram mais que nós". Roubo, assim como ética, existe ou não existe. Não há doutor sem doutorado, dona Dilma, que me prove o contrário.

Faça então seu papel de síndica: pare de deixar o dinheiro da reforma do elevador ir para o novo carrão do subsíndico, evite que as lâmpadas de iluminação da portaria sejam compradas pelo triplo do preço do bazar da esquina. Explicando melhor: faça o serviço para o qual você foi contratada e é paga para fazer. E isso inclui execrar e perseguir os ladrões de ontem, desde que você, dona Dilma, tenha igual empenho para execrar e perseguir os de agora, desse minuto, desse segundo em que escrevo. Deixe de ser cartola de time de futebol, comece a ser chefa de governo. Ainda dá tempo. Vai começar o 2º tempo.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Gerente de Catecismo da Petrobras, esse jabuti

Ricardo Goldbach

Ontem um GE (gerente-executivo) da Petrobras reuniu funcionários para uma palestra. Lá pelas tantas, depois de tentar explicar o inexplicável, a refinaria de Pasadena, passou ao proselitismo político característico de sindicalistas guindados a posições para as quais estão absolutamente despreparados. Como se sabe, sindicalistas são preparados para ser... sindicalistas. Gestão são outros 500, jamais outros 13 ou 171.

Desperdiçando tempo e dinheiro da União, dos acionistas e dos funcionários concursados, ele reproduz diálogo que manteve(?) com um vizinho seu. Segundo minha fonte, foi algo assim:

- Viu que legal? O filho do porteiro entrou para a faculdade X. – diz ele.

- Que absurdo, é a faculdade onde meu filho estuda! Ele vai estudar ao lado de pobre?!  – indigna-se o vizinho.

Ora, esse tipo de doutrinação ideológica, essa incitação a uma pretensa luta de classes, esse diálogo fabricado em escritório de marquetagem, só convence a um indigente intelectual. Somente soa verídico para quem gosta de encarar a arena política como uma arena da Roma antiga, onde valia tudo e de onde apenas um combatente podia sair vivo. É assim que pensa e age a maioria dos militantes dos grandes partidos – sejam os da direita azul, da verde ou da vermelha, dessa ex-querda que envergonha a nação sempre que tem oportunidade.

Houve época em que se dizia, na esquerda (a antecessora da ex-querda), que a solução para o Brasil era minar o sistema por dentro. A saída era fazer parte da máquina e alterá-la aos poucos, uma vez lá dentro.

Mas, como sabiamente lembra Bakunin, trabalhadores despreparados, quando alçados ao poder, deixam de ser trabalhadores e passam automaticamente à condição de elite. E, como insiste a natureza humana, defender os próprios interesses é primordial, é disso que se trata. Essa é a ex-querda, um amálgama de despreparados e alianças pragmaticamente contraditórias.

Não é à toa que o lulopetismo faz tanta questão de execrar as elites (espertamente, sem dizer diretamente a quem se refere); antigamente, o consciente coletivo associava elite a banqueiros, sem um pestanejar que fosse. Hoje em dia o lulopetismo anda de braços dados com os favores dos bancos (vide balanços sempre recordistas), sem falar nas alianças capazes de fazer corar um prostíbulo inteiro, com Katia Abreu, Sarney, Collor et caterva. Como pega mal falar mal do aliado alugado, elite é elite e pronto. Cada um que imagine a elite que quiser.

Minar o sistema por dentro podia ser uma ideia interessante, mais produtiva do que dar tiros de tresoitão em um tanque verde-oliva. Por outro lado, esquecer-se do discurso original ao virar elite e mostrar, à luz do dia, que não há projeto substitutivo algum, só pode dar no que está dando. 

O PT lembra o cão que corre atrás de um carro, esgoelando-se de tanto latir, mas que fica quieto quando o carro para, e abana o rabo, com cara de bobo. O lulopetismo faz pior do que o cão: alcançou o que queria, virou elite e faz de conta que ainda tem vontade de latir. Com isso consegue enganar mais da metade do eleitorado. Só não percebe quem quiser fazer papel de bobo, quem quiser dar ouvidos aos Gerentes de Catecismo da Petrobras e assemelhados  a esses jabutis que aparelham o alto das árvores, lá colocados pelos que desejam o Palácio do Planalto como morada eterna.


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Da série "tudo já estava escrito" (1)

Posses, prostíbulo 12:veículo 13

E no décimo ano
a maçonaria
de terras do norte
aliou-se ao óleo
de terras do sul.

E todos viram
que era bom
e todos se regozijaram.

E comemoraram
com cânticos de louvor,
vinho, tinta de caneta,
e muitas danças,
as novas e férteis alianças.

Em meio ao clamor
e ao júbilo,
os contratos cresceram,
prosperaram
e se multiplicaram.

E todos viram
que era bom
e todos se regozijaram.


Ricardo Goldbach
(publicado no ex-Facebook em 24/01/2012)