domingo, 18 de outubro de 2009

Temos mesmo muito tempo?

Ricardo Goldbach

Declaração otimista do relações públicas da Polícia Militar, major Oderlei Santos: "Nós temos muito tempo para a Copa do Mundo, para as Olimpíadas e até lá certamente a polícia prenderá muitos criminosos".

Ave, Major Santos; nós, os cidadãos que vamos morrer neste meio tempo, o saudamos.


O Rio exibe a tocha olímpica. Foto: Fabiano Rocha

O grande problema aqui é que o mundo está vendo - não vai dar para enganar a todos o tempo todo.


ATUALIZAÇÃO:

O Major Oderlei foi exonerado pelo governador Sergio Cabral, em 23/10, no bojo do escândalo que envolveu o assassinato do Coordenador de Projetos Especiais do AfroReggae, Evandro João Silva.

Aquilo que ficou evidenciado, aos olhos das câmeras de segurança e do bom senso, como omissão de socorro e furto (e talvez cumplicidade em latrocínio) por parte de dois policiais militares - um deles capitão - foi classificado pelo porta-voz da corporação como mero "desvio de conduta".

A legislação brasileira garante que todos sejam considerado inocentes, até prova em contrário. Mas o erro do Major Oderlei foi ter feito péssimo e inoportuno uso da doutrina do "in dubio pro reu".

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Relembrando Lombroso

Ricardo Goldbach



Foto: autoria desconhecida

Mais sobre Lombroso e sua teoria sobre o Homem Delinquente, em texto do promotor de Justiça em Minas Gerais, Lélio Braga Calhau.

Virou moda: pagar para ver propaganda

Ricardo Goldbach

No ano de 2000, Mel Gibson estrelou um filme, What women want ("O Homem que Entendia as Mulheres", no Brasil), que era um belo comercial da Nike, com duração de 1h37. Pagou-se à época para ver a propaganda no cinema, paga-se hoje para revê-la em canais de TV a cabo. É claro que o comercial vem embrulhado em papel bonito: par romântico, climax e anticlimax, as receitas que sempre apelam ao pathos (do grego, paixão, excesso, catástrofe, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento) do espectador - daí vem a expressão "patético".

Nestes tempos bicudos, em que a publicidade deve se esforçar mais do que nunca para enfrentar retrações de mercado e desconfiança de consumidores, Holywood faz mais um gol. Segundo a PC World, o desenho animado Family guy ("Uma Família da Pesada") dedicará um episódio inteiro à promoção do Windows 7, no dia 8 de novembro.

Quando se para e pensa, o que parece ser trivial não acaba mostrando a verdadeira e patética face?


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Souza Cruz, Carlton e Dunhill - uma estratégia e uma fraude

Ricardo Goldbach

Eu ia escrever um post sobre a estratégia da Souza Cruz, ao reposicionar a marca Carlton como Dunhill. Deste reposicionamento faz parte retirar sete cigarros de cada maço de Carlton, substituindo-os por unidades de Dunhill. No entanto, encontrei excelente texto a respeito, no blog do escritor Paulo Ribeiro e meu post vai ser mais enxuto (e menos literário e saboroso que o de Paulo).

Se fosse a mera substituição de seis por meia dúzia, sem problemas - ou quase, já que cigarro é sempre um veneno. Mas o fato é que a Souza Cruz troca o produto original por outro, com menores teores de nicotina e sabor diferente, e quem fuma constata logo a substituição.

Ser fumante, como sou, já é demonstração de burrice. Sobre esta nova prática, que frauda o consumidor em 35% no mero ato da compra, não há quase nada a falar - a não ser denunciá-la ao Cade, coisa que já fiz.


Atualização - 29/10/2009

Um leitor (acessando via Telesp, IP 187.56.8.213) lembrou-me que neste post faltou eu mostrar evidências. Apesar de a mensagem dele ser um pouco agressiva, tosca e com mais erros de português do que se esperaria de um ser pensante, reconheço que, ao contrário do usual, não postei aqui imagens para corroborar meu texto.

Seguem, portanto, fotos da estratégia de reposicionamento que mencionei.








A parte menor do maço (à esquerda, na foto imediatamente acima) contém sete cigarros reposicionados, com sabor inteiramente diferente dos outros 13. Esta prática seria facilmente detectada através de um blind test, ou por quem fuma a mesma marca há mais de dez anos e reconhece a diferença.

Em tempo: aproveitei que a Souza Cruz retirou do mercado meu cigarro favorito e resolvi abandonar de vez o fumo, faz cerca de uma semana. Na boa, melhoraram meu fôlego, meu paladar, meu sono e minha disposição em geral.

Torço sinceramente para que o escritor Paulo Ribeiro também aproveite a deixa.

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Atualização - 01/01/2010 Confirmando o que já era certo, constato que um dos acessos a este post veio do Google, às 20h50 desta data, com uma auto-explicativa expressão de busca:

"www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=carlton ficou mais fraco&meta="


domingo, 4 de outubro de 2009

Orkut x Facebook: um case de baile funk corporativo

Ricardo Goldbach


No dia 30 de setembro publiquei, em meu perfil no Orkut, uma observação sobre como a disputa por fatia de mercado, que Facebook e Orkut travam atualmente, ignora completamente os interesses de usuários. Naquela data escrevi:


Orkut, uma vergonha
(30/09/09)

Facebook e Orkut estão em plena atividade pela disputa de mercado. Como jogada mais recente, o Facebook introduziu em sua página uma funcionalidade que permite que o usuário importe seus contatos, previamente exportados do Orkut, e os convide para o Facebook.

Como o Orkut respondeu? Esta rede - que se caracteriza pelo mau atendimento do suporte, pela inserção excessiva de anúncios e pela inconstância e instabilidade das aplicações que implementa - aparentemente optou por desfigurar a funcionalidade de exportação de contatos, de modo a sabotar a manobra do Facebook.

A exportação simplesmente não funciona mais; ela gera agora um texto contendo código HTML (sem qualquer dado sobre contatos), em arquivo de extensão CSV (!). Isso pode até ter sido causado por mais um dos erros de desenvolvimento e manutenção da equipe. Mas desconfio muito da coincidência, que atinge resultado tático palpável.

Não é por acaso que o Orkut só deu certo no Brasil, e, possivelmente, nem isso poderá ser dito a respeito dele, em pouco tempo.


Dois dias depois, em 02/10, a publicação PC World confirma minha impressão, comprovando que "um teste realizado pelo IDG Now! mostrou que, ao tentar fazer a exportação, após digitar o código de segurança (captcha), o Orkut redireciona à sua página inicial, sem qualquer outro aviso".

A matéria da PC cita o conceituado TechCrunch, que, por sua vez, diz que "antes da ferramenta do Facebook, a própria ferramenta do Orkut para exportação de contatos em CSV, algo simples e rápido de se fazer, não está mais funcionando, o que dá margem à suspeita de que talvez o Google tenha suspendido a ferramenta".

É isso. Por conta de uma briga por audiência, usuários do Orkut agora estão impedidos de exportar suas listas de contatos. É sabido que em muitas ocasiões as grandes corporações fazem suas táticas assumirem ares de baile funk, mas a constatação é sempre desalentadora.



sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Fraude bancária de última geração

Ricardo Goldbach

Esta é mesmo impressionante. Segundo a revista Wired, saqueadores digitais não se contentam mais em apenas roubar senhas e usá-las para fraudes bancárias, via Internet.

Uma gangue desviou 3oo mil euros de bancos alemães no mês de agosto, de acordo com a empresa de segurança Finjan. Nada de espantoso, isso é coisa que acontece todos os dias.

Neste caso, no entanto, um sofisticado mecanismo inserido no navegador dos correntistas saqueados faz uma maquiagem no relatório de saldo da conta; no momento de uma consulta, ele esconde o saque fraudulento e exibe o saldo esperado pela vítima ao invés do valor real.

A saída é a mesma de sempre: evitar ao máximo a tentação de executar programas recebidos por e-mail, mesmo que venham de remetentes conhecidos. As apresentações em Power Point e as planilhas Excel, igualmente, podem esconder softwares do mal em suas macros. Abrir qualquer arquivo recebido, hoje em dia, equivale a andar sozinho à beira do cais de um porto, às 2 horas da manhã. Você se arriscaria?

Nota de repúdio

Ricardo Goldbach

"Prêmio é para premiar e não para chantagear"
(Carlos Carvalho, citado por Patricia Gouvêa)


Repoduzo aqui correspondência aberta, endereçada pela fotógrafa e sócia do Ateliê da Imagem, Patricia Gouvêa, à organização do Prêmio FOTOARTE 2009.

Após ter recebido Menção Honrosa por ensaio submetido, Patrícia foi surpreendida pela exigência de aceitação, a posteriori, de "2 cláusulas que não constavam do regulamento".

A AFOTO Brasília - Associação de Fotógrafos de Brasília - manifestou-se favoravelmente à posição da fotógrafa, depois de consultar um especialista, no sentido de repudiar tal repactuação de regras.

Patricia solicitou a devolução dos trabalhos originais e proibiu taxativamente que os organizadores fizessem qualquer utilização de suas obras.

É de se observar que até o corpo de jurados manifestou-se solidário à premiada, no sentido de que se respeite o regulamento, mas a organizadora, Karla Osório, aparentemente mostra-se inflexível em sua posição solitária e contrária ao pleito.

Em tempos de apropriação desenfreada e indébita de ideias e patrimônios alheios, presto aqui minha solidariedade à colega.


ATUALIZAÇÃO:

Em 5/10, por volta das 22h30, Patricia Gouvêa informa, via Facebook:




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"À produção da FOTOARTE, Prêmio FOTOARTE 2009 e aos jurados,

Venho por meio desta informar que estou abdicando da Menção Honrosa recebida e que todos os materiais por mim enviados (CD com imagens am alta, biografia etc) devem ser inutilizados ou devolvidos e minhas imagens retiradas de qualquer suporte de divulgação.

Foram inúmeras as minhas tentativas, desde a última segunda-feira e as do júri para que a Sra. Karla Osório concordasse em redigir o termo de cessão de direitos de imagem, onde foram incluídas 2 cláusulas que não constavam do regulamento, cujo teor fere os direitos autorais dos fotógrafos, constituindo, portanto, ato irregular e que apenas beneficia as empresas controladas direta ou indiretamente pela ARTE 21:

4. A CESSIONÁRIA fica expressamente autorizada pelo CEDENTE a executar livremente a montagem das fotografias objeto deste contrato, podendo proceder aos cortes, às fixações e às reproduções necessárias.

6. A CESSIONÁRIA poderá ceder os direitos sobre a(s) fotografia(s) e/ou a conceder autorização de utilização a quaisquer empresas sob seu controle direto ou indireto, bem como a entidade sem fins lucrativos, especificamente à WWF Brasil, sem obrigação de efetuar qualquer pagamento ao CEDENTE.

A primeira é preocupante pois autoriza cortes na imagem, mas a segunda é ainda mais grave: por meio dela as imagens poderão ser usadas por outras empresas sob controle da ARTE 21 e outras ONGs!!!!

Todo o júri (Éder Chiodetto, presidente, Rogério Assis, Suzana Dobal, Marcelo Reis, Milton Guran e Tiago Santana) me apoiou e está pedindo que a Karla refaça os contratos e anule os antigos a partir da minha contestação, mas parece que ela, infelizmente, está optando por ignorar até mesmo o juri e passou a dizer que eu sou a única reclamante sobre o assunto, o que deixou a todos ainda mais perplexos.

Estamos num momento de mudança de paradigmas e as pessoas não podem ser irresponsáveis e precisam pensar de forma coletiva. Decidi então abdicar do prêmio, pois acredito que todos os fotógrafos tem que ter seu contrato revisto e os antigos rasurados, pois este é um problema grave que diz respeito a todos. Anteriormente a AFOTO, associação dos fotógrafos de brasília, já havia feito uma denúncia contra o prêmio, com comentários de um advogado especialista em direitos autorais: http://afotobrasilia.wordpress.com/2009/08/26/2º-premio-foto-arte-brasilia/

Este pedido foi ignorado, assim como agora um pedido coletivo e que envolve o juri do prêmio está sendo ignorado. A Sra. Karla Osório prefere manter uma atitude inflexível e colocar a questão como se fosse um ato isolado de contestação de minha parte, o que demonstrar sua falta de boa vontade com a questão, e que coloca em dúvida suas reais intenções com este prêmio. Muitas tem sido as manifestações em todo o Brasil contra esta atitude. Neste email estão copiados alguns premiados, para que tomem conhecimento da minha decisão: Macia Folleto, A.C. Júnior, Dalton Valério e Charly Techio.

A resposta ontem do presidente do júri, Eder Chiodetto, após mais um email evasivo da Carla foi contundente e simboliza a opinião do júri:

"Olá Karla,

Já foram muitos emails trocados, a posição de todo o corpo do jurado já está absolutamente clara. E nós seguimos estarrecidos com a sua posição inflexível. Nada justifica esse seu comportamento. Se todos estão apontando para uma direção porque você acha que é a única que pode ter razão? Também pedimos para advogados ler o regulamento e a cessão de direitos e o retorno é de que há um claro conflito entre ambos. Que a Cessão de Direitos pode sim prejudicar os fotógrafos que a assinarem da forma como já salientamos. Se não é isso que você quer, como você tem repetido "n" vezes nos emails, porque não alterar as duas cláusulas que desde o início estamos solicitando? Para você não mudaria nada, não é? Faça um comunicado oficial e público de que o Termo de Cessão enviado está anulado mesmo para quem já o enviou pelo correio e reenvie um outro. Mas, antes, submeta ao corpo de jurados, por favor. Porque eu não tenho autoridade para decidir sozinho qualquer coisa com você. É o nome e a reputação de todos do júri que está em jogo. Essa história já está extrapolando e ganhando uma repercussão sem controle.

Eder Chiodetto"


Para encerrar, gostaria de deixar uma frase do Carlos Carvalho, que serve para nossa reflexão: "Prêmio é para premiar e não para chantagear."

Atenciosamente,


--
Patricia Gouvêa"


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A bagunça começa na falta de preparo

Ricardo Goldbach

Um copy&paste começa a repercutir - e muito mal - na infoesfera. Maria Helena R.R. de Souza, que se qualifica como "colaboradora entusiasmada do Blog do Noblat", fez plágio integral de matéria originalmente publicada no blog Rio Acima, do JB, no dia 7/9/09, intitulada "A praia do carioca começa na Lapa" e assinada pelo editor do caderno Cidade do JB, o jornalista Marcelo Migliaccio.



Matéria original de Marcelo Migliaccio
fonte: blog Rio Acima, do JB

data de publicação: 07/09
acesso em 01/10/09


A obra de Maria Helena foi publicada com o mesmo título, o mesmo texto e as mesmas vírgulas, num blog do Globo Online, em 26/09:



Antes: "Enviado por Maria Helena / ENVIADO POR RIAL".
fonte: reprodução do portal Comunique-se

data de publicação: 26/09


Após alertada por Migliaccio, Maria Helena reeditou o post, incluindo crédito ao JB e ao blog de Migliaccio:



Depois: "Enviado por Maria Helena / DEU NO JB ONLINE - BLOG RIO ACIMA".
fonte: blog citado
acesso em 01/10/09


Quem primeiro pediu desculpas pela lambança não foi Maria Helena, mas o editor do O Globo, Paulo Mussoi. A desculpa dada por ele, segundo matéria de Sérgio Matsuura, publicada no portal de jornalismo Comunique-se, funda-se no fato de Maria Helena não ser jornalista e ter passado adiante, de boa fé, texto que recebeu por e-mail.

Esta alegação de Mussoi é uma das muitas que ainda veremos por aí, nestes tempos de jornalismo sem diploma e sem lei. Estamos vendo um infeliz caso de "aprendizado na prática". Mas Maria Helena mostra que não aprendeu tudo, no entanto; sem a devida autorização para o uso de várias fotografias e sem a atribuição dos devidos créditos, nesta data o material do fotógrafo ainda encontra-se disponibilizado no blog da aprendiz:



Depois: o desrespeito à Lei permanece - o trabalho fotográfico, não autorizado nem creditado, ainda é usado
fonte: blog citado

acesso em 01/10/09


Outra coisa chata nessa história é que nem no JB foram creditadas as fotos que ilustram a matéria de Migliaccio. Nestes tempos forenses é até possível descobrir que a foto de abertura foi feita às 0h44 do dia 8 de fevereiro de 2008, com uma câmera Sony DSC-W55, ISO-320, abertura de 2.8 e exposicão de 1/8s, mas o nome do autor ainda é uma incógnita.

O trabalho do fotógrafo, diga-se, está amparado por dispositivo legal - a Lei Federal nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, que protege direitos de autor quanto ao uso "de obras fotográficas e produzidas por qualquer processo análogo ao da fotografia" (art. 7º, VII). Esta mesma lei é clara quando diz que "a fotografia, quando utilizada por terceiros, indicará de forma legível o nome do seu autor" (art. 79º, §1º).



quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sem comentários


A pérola abaixo foi exibida neste blog, através do sistema de publicidade do Google.

A infelicidade do texto dispensa comentários.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

É esse Rio que vamos mostrar aos visitantes em 2014 e 2016?

Ricardo Goldbach

A cada novo dia, o Rio de Janeiro insiste em mostrar que não está pronto para ser palco de arremessos de dardos, saltos ornamentais e decisões de campeonato de futebol.

Em recorrente episódio de violência urbana, Ricardo Wagner Silva, 39, reagiu à tentativa de roubo de sua motocicleta, no cruzamento das ruas Alberto de Campos e Vinicius de Morais, em Ipanema, na manhã desta terça-feira. Baleada no pescoço ao fugir, a vítima ainda colidiu com um veículo estacionado, antes de subir na calçada e tombar. O motociclista faleceu posteriormente, e os três assaltantes, que estavam em duas motocicletas, escaparam.





Fotos: RGold


Já a professora de educação física, Ciléa Cordeiro, 27, encontra-se em coma desde o dia 5 de setembro, quando o parabrisa do carro que dirigia foi atingido por uma pedra de cerca de 10 quilos, na Linha Amarela. Arremessada por bandidos da região, a pedra atravessou o vidro e atingiu a cabeça da motorista, provocando fratura exposta de crânio.





Estes são apenas dois dentre os inúmeros casos que aterrorizam e enlutam os cidadãos do Rio de Janeiro. As ações dos criminosos, que se apossaram de uma cidade que já foi maravilhosa, servem apenas a eles mesmos e à indústria da segurança, para a qual quanto pior melhor.

O estado de guerra civil que o Rio vive vai derrubando, lentamente, o PIB da cidade; o que as autoridades omissas não percebem, em visão de curto prazo, é que quanto mais contribuintes são mortos, menos sobram recolhedores de tributos. E menos turistas se dispõem a visitar o Rio, pois é mundialmente notório que, além do dinheiro a ser gasto em hotéis e restaurantes, podem haver despesas com hospitais e caixões - outros legados previsíveis da Copa do Mundo e das Olimpíadas.

Será que ao menos este argumento, o da falência econômica do Rio, faria as coisas mudarem para melhor? Ou será que os governantes cariocas querem - à semelhança da esposa do presidente da República - obter cidadania em país europeu, para dar melhor futuro aos filhos?

Haverá uma cidade para ser mostrada aos turistas de 2014 e 2016? E se houver, os visitantes farão nas ruas do Rio fotos iguais a estas?

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

No vale-tudo da blogosfera

Ricardo Goldbach

Abomino o copy&paste como forma de jornalismo, apesar de isto ser um lugar comum, nestes tempos em que blogs proliferam como cogumelos após a chuva. Nada contra o blog como ferramenta que sirva a algum propósito, mas tudo contra a publicação de textos do tipo "ouvi dizer que..." ou que sejam apócrifos e desprovidos de citação de fonte.

Se é o caso de se reproduzir algo recebido por e-mail ou lido em um outro blog, que ao menos haja um prudente e responsável trabalho de verificação. Pesquisa e verificação são dois conceitos que devem existir na cabeça do vivente antes mesmo da matrícula em uma faculdade de jornalismo, ou que ao menos sejam absorvidos no decorrer do curso.

O caso aqui é um texto que recebi por e-mail, que chamou minha atenção e me provocou a natural desconfiança quanto à veracidade. Encontrei o mesmo texto - com pequenas variações - em mais de 20 blogs; em nenhum deles há citação de fonte ou outro atributo visível de credibilidade. Todas as ocorrências se iniciam pela frase
"Eu já havia lido sobre a dificuldade de fazer beneficiários do Bolsa Família entrarem no mercado formal de trabalho no Nordeste".

Quem é "Eu"? Talvez eu tenha descoberto; havia uma nota igual, publicada na versão impressa do jornal Diário do Comércio (RS), na edição de 14 de agosto, segundo informa a versão online daquele mesmo jornal. Por estar na coluna Painel Econômico, assinada pelo jornalista Danilo Ucha, considero a nota merecedora de crédito. Fica apenas a dúvida sobre como um jornalista do Rio Grande do Sul teria testemunhado uma reunião da Federação das Indústrias do Estado do Ceará. Mas, ainda acreditando em um jornalista, reproduzo a nota:


"Bolsa Família

Eu já havia lido sobre a dificuldade de fazer beneficiários do Bolsa Família entrarem no mercado formal de trabalho no Nordeste e até achava que havia um pouco de política de oposição na história. Ontem, em reunião na Federação das Indústrias do Estado do Ceará, vi a história, contada e documentada, e bem pior do que eu imaginava. O Sinditêxtil-CE realizou um curso de preparação de mão de obra de 500 costureiras para o setor, onde está faltando gente. Das 500 mulheres que fizeram o curso, nenhuma ficou empregada, para decepção dos organizadores e das empresas que esperavam pelas novas empregadas. “Nenhuma, nenhuma aceitou o emprego porque teria que ter a carteira de trabalho assinada e, assim, perderia o benefício do Bolsa Família”, informou Franze Fontenelle, “foi muito triste para nós.” Todas queriam trabalhar se fosse informalmente, isto é, ficar com dois salários".


fonte: versão online do jornal Diario do Comercio


Então ficamos assim: aparentemente é fato que o Bolsa-Família, ao não prever a situação noticiada, tenha feito jus à pecha de assistencialismo que não raro é atribuída a ele. Mais ainda, o programa também teria servido de alavanca para o desperdício do dinheiro gasto pelo Sindicato com a formação das profissionais que optaram por não trabalhar ao final do treinamento, preferindo receber a esmola oficial.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Scientia Brasilis

ou da importância da construção de conhecimento no Brasil

Ricardo Goldbach




Das descobertas serendípticas aos resultados obtidos pela perseverança que contorna obstáculos, a história da caminhada humana na face da Terra registra achados movidos tanto pelos ditames da macroeconomia quanto pelo lampejo nascido de necessidade imediata de resultado. Mas a Ciência vive de alimento - tanto espiritual quanto material - para existir e permanecer. Em troca, novos achados realimentam a possibilidade de novas conquistas. Não à toa, justamente na mais antiga universidade ainda em funcionamento no mundo ocidental, a Universidade de Bologna, foi estabelecida a conotação acadêmica para alma mater (do latim, "mãe que nutre") já em sua fundação, em 1088. A Universidade é uma nutriz.

Em 2008, gravei entrevista com o Chefe do Laboratório de Entomologia do Instituto Oswaldo Cruz e Pós-Doutor em Entomologia Médica pela University of Massachusetts Medical School, Anthony Érico da Gama Guimarães. O gancho era a grande escala atingida pela epidemia de dengue no Brasil e cuja intensidade oscilava entre os períodos de pico, apesar de existir permanente latência da ameaça. Mas a dengue é na realidade uma endemia, como a Secretaria Municipal de Saúde de Campinas (SP) já alertava em 2000, em Boletim Epidemiológico: "Há uma expansão contínua da endemia de dengue no planeta".


Dez anos mais tarde, onde estamos? Num quadro de recrudescimento da expansão da endemia e do aumento do número de notificações e dos óbvios impactos na sociedade, para além dos aspectos da Saúde. Segundo a Agência Brasil, por exemplo, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, seção Rio de Janeiro (AbihRJ), Alfredo Lopes de Souza Júnior, informou que, em março de 2009, mais de 1.500 sites registravam "em todo o mundo, o nome dengue vinculado ao Rio de Janeiro". Neste mesmo ano de 2009, assistimos o nascimento de uma hecatombe sanitária conhecida como "gripe suína" - novas ameaças surgem, sem que as antigas tenham sido neutralizadas.

Enquanto isso, no Instituto Oswaldo Cruz, o cientista Anthony Érico prossegue em suas pesquisas no sentido de lapidar uma descoberta sua: o efeito biocida de determinadas plantas da Mata Atlântica sobre as larvas do Aedes Egypti, sem quaisquer efeitos nocivos para seres humano ou animais. Há na flora brasileira um insumo para a produção de importante coadjuvante no combate à dengue, cuja fabricação e uso dispensam pagamento de royalties às farmacêuticas multinacionais...

Maior do que o alto custo do combate aos efeitos das doenças, é o preço pago por não se alocar generosamente os recursos de que a Ciência precisa para assentar mais tijolos na construção de conhecimento no Brasil. Tais recursos seriam - suponho - muito menores do que, por exemplo, os custos burocráticos consumidos apenas nas meras atividades administrativas de registro e divulgação das baixas e fatalidades desta guerra sem fim.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A cada Kilowatt economizado... não acontece nada

Ricardo Goldbach

Em março passado, mais precisamente no sábado, dia 28, o mundo testemunhou um movimento denominado "Hora do Planeta". Simbolicamente, luzes de monumentos e locais públicos foram desligadas, numa tentativa de alerta para a premente causa do aquecimento global.


Segundo a Ong WWF, mais de 80 cidades brasileiras aderiram à ideia, também abraçada por centenas de empresas. Para os políticos, ao menos os do Rio de Janeiro, a adesão não passou de fanfarronice publicitária; as autoridades municipais responsáveis pela iluminação pública continuam a cobrar dos contribuintes a conta dos desperdícios elétrico e térmico. Centenas destas lâmpadas acesas durante o dia aquecem desnecessariamente o meio ambiente, só não vê quem não quer. É possível até que seja o pior - só não vê quem tem interesse na queima e reposição daquelas lâmpadas.



Eduardo Paes, aquele cidadão que o TRE diz ter sido eleito para o cargo de prefeito do Rio de Janeiro, continua a queimar dinheiro, dia e noite, principalmente de dia. Copacabana, Lapa, Ipanema... Dez horas da manhã, três horas da tarde... Escolha-se qualquer bairro, qualquer hora, e constate-se o verdadeiro crime que a Prefeitura comete contra as contas públicas, as reservas energéticas e o cada vez mais insalubre meio ambiente.

Para os técnicos que desconhecem o problema ou a geografia dos bairros cariocas, as fotos, feitas no cruzamento das ruas Tonelero e Mal. Mascarenhas de Moraes, já são um bom começo. Caso o prefeito continue ignorando a Lei (como a ignora em inúmeros outros temas), corre o concreto risco de responder a Ação Civil Pública por infração ao disposto na Constituição Federal, e cujo patrocínio cabe mandatoriamente ao Ministério Público Federal, eis que a CF protege direitos coletivos:



"CAPÍTULO VI
DO MEIO AMBIENTE

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações".

Há alguém do MPF na platéia?

Arquiteto real projeta museu virtual, o Museu da Corrupção

Ricardo Goldbach

Formado em Arquitetura, com direito a Juscelino Kubitschek como paraninfo da turma, o mineiro Rodrigo de Araújo Moreira, de 78 anos, é um premiado profissional do mundo real. Fortemente influenciado por Oscar Niemeyer, Rodrigo é responsável por projetos tais como o escritório da Usiminas, em Itabira, a sede do Clube de Regatas Vasco da Gama, em Santos e a sede do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) de São Paulo. Desta vez Rodrigo inovou, ao projetar o Museu da Corrupção, transposto da prancheta real para o universo virtual por estudantes de arquitetura contemporâneos.

O museu, que de virtual tem apenas o substrato, foi concebido com base em conceitos arquitetônicos para abrigar a história moderna e concreta da corrupção no Brasil. O visitante pode navegar através dos itens do acervo, dispostos ao longo de salas constantemente abastecidas com novas peças.

Ao contrário das enfadonhas porém tristemente verdadeiras colagens de casos de corrupção que circulam atualmente por e-mail, o Museu da Corrupção tem o mérito de permitir, ao mesmo tempo, a visitação não linear e o aprofundamento em conteúdo textual e infográfico amenizados pela crítica satírica.

Esta iniciativa, patrocinada pelo jornal Diário do Comércio, de São Paulo e sob curadoria da jornalista Regiane Bochichi, reflete com infeliz acerto a necessidade - nestes tempos de inimaginável desgaste das instituições políticas brasileiras - de não se deixar a história contemporânea ficar relegada aos recantos dispersos e voláteis da memória coletiva. Seria melhor que sua existência fosse desnecessária.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Glaxo, Novavax, Baxter e Gilead - a nova corrida do ouro?

Ricardo Goldbach

A evolução dos papéis das quatro empresas de biotecnologia mostra trajetórias semelhantes e convenientes. Após o pico atingido em agosto de 2008, os valores de mercado de três daquelas companhias tiveram queda constante, somente estancada pouco antes da eclosão da primeira epidemia da gripe A(H1N1), ocorrida no México em abril de 2009.











GlaxoSmithKline (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)











Gilead Sciences (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)











Novavax (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)











Baxter International (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)


A inglesa GlaxoSmithKline é a fabricante do antiviral Relenza, sob licença da australiana Biota Holdings Ltd., que recebe como royalties 7% dos resultados das vendas. Com a estimativa da Glaxo de aumento de sua produção anual, de 60 para 190 milhões de doses, as ações da Biota tiveram uma valorização de 400% desde o início de 2009.

A Novavax é uma concorrente de peso neste mercado e anunciou, em 5 de agosto de 2009, o início da utilização de processo por ela patenteado - o Virus-like Particle (VLP) - para reduzir de nove para três meses o tempo de fabricação de antivirais contra o H1N1. Além de mais rápido o VLP é mais barato, pois não utiliza ovos de galinha preparados para cultura de virus destinados à produção de antígenos, como nos processos convencionais.

E o que é Baxter International? É a empresa norteamericana de biotecnologia responsável pelo antiviral Celvapan. Foi de uma instalação da Baxter na cidade austríaca de Orth-Donau, que escapuliu acidentalmente, em fevereiro de 2009, uma não totalmente explicada recombinação entre os virus causadores das gripes A(H5N1), a aviária, e A(H3N2), a influenza sazonal comum. O material contaminado foi distribuído para instalações fabris na Eslovênia, República Tcheca e Alemanha, onde foi utilizado na fabricação de vacinas contra o H3N2. Este grave acidente, explicado pelo porta-voz da Baxter alemã, Jutta Brenn-Vogt, e também reportado pelo Toronto Sun (Canadá), pode ser considerado uma catástrofe, pois deu ao H5N1 o grande poder de transmissão do H3N2, quando o primeiro era considerado como estando sob controle. A grande imprensa não deu mais atenção ao episódio, a quantidade e a localização das mortes resultantes da vacinação fatal não foi divulgada, e a Baxter prosseguiu normalmente no business de antivirais, as usual.

Já a Gilead Sciences é a detentora da patente do Tamiflu, fármaco produzido sob licença pela suiça Roche, mediante pagamento de royalties de 10% sobre os resultados comerciais. O Tamiflu tem como princípio ativo o fosfato de oseltamivir, um inibidor da neuraminidase - enzima que viabiliza a reprodução do vírus na célula hospedeira.

A norteamericana Gilead é uma empresa de grande peso, tanto tecnológico quanto político. De acordo com a CNN, o ex-Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld foi presidente do conselho da Gilead entre 1997 e 2001, quando saiu para assumir a posição na equipe de George W. Bush. Mesmo afastado da direção da empresa, Rumsfeld manteve participação milionária nos reultados na Gilead, na condição de acionista. Foi Rumsfeld quem mostrou, à época da epidemia de gripe aviária de 2007 - ainda na posição de Secretário de Defesa - que os EUA tinham necessidade de estocar bilhões de dólares em vacinas.

O gráfico abaixo mostra que a preocupação de Rumsfeld fazia mais sentido para um acionista do que de para um interessado em salvaguardas da saúde pública.


(dados colhidos até julho de 2009)