quarta-feira, 21 de agosto de 2013

NSA-ruled UK dumps the rule of law

by Ricardo Goldbach

Meanwhile in a former western democracy, a time machine sends David Miranda back to 1984, as government officials issue an ad hoc regulation:



A hat tip goes to Glenn Greenwald:
If the goal of the UK in detaining my partner was - as it now claims - to protect the public from terrorism by taking documents they suspected he had (and why would they have suspected that?), that would have taken 9 minutes, not 9 hours. Identically, the UK knew full well that forcing the Guardian UK to destroy its hard drives would accomplish nothing in terms of stopping the reporting: as the Guardian told them, there are multiple other copies around the world. The sole purpose of all of that, manifestly, is to intimidate. As the ACLU of Massachusetts put it:
"The real vengeance we are seeing right now is not coming from Glenn Greenwald; it is coming from the state."

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O rei morreu, viva o rei. Subtitle Workshop vs. VisualSubSync

Ricardo Goldbach

Como usuário do Subtitle Workshop há cerca de 7 anos, achava eu que todas as instabilidades do produto haviam sido sanadas com a liberação da versão 1.0.4.0 da SubtitleAPI.dll.

Não era o caso. Na última tradução que fiz ("Cartas de Iwo Jima", belíssima direção de Clint Eastwood, para o canal Fox), percebi que o SW havia corrompido mais de 1.500 tempos de entrada/saída, com a geração de frames inválidos, superiores a 29 (para um frame rate de 29.97).


Foi a gota d'água. Após um dia inteiro de retrabalho para liberar o produto, fiz uma varredura do cenário atual de aplicativos disponíveis. Dei de cara com uma joia chamada VisualSubSync. Dentre outras coisas, o VSS permite timear olhando-se a onda do áudio, e fazer a sintonia fina deslocando-se, com o mouse, as extremidades do intervalo de onda correspondente à legenda. Em cerca de 1s, crava-se entrada e saída, sendo possível a adoção de sugestão automática para a duração, em função do reading speed estipulado por parâmetro -- a produtividade sobe incrivelmente. Num dos campos de informação da interface é exibida, em tempo real, uma comparação entre o RS corrente e o ideal, à medida em que se estica ou se contrai a duração.

A gama de erros apontados e de suas características, quando se solicita um relatório, é superior tanto à do Subtitle Workshop quanto à do Horse.

Além de tudo isso, também é possível a customização das funcionalidades, pois os plugins são escritos em javascript. Por exemplo, alterei o plugin de verificação de timing para que aceite legendas coladas, e não somente as que tenham distância superior ao mínimo parametrizado. Agora meu VSS rejeita distâncias inferiores a 500ms, mas aceita as menores que 2ms (em termos práticos, zero frames), bastando eu ter alterado a linha 43 do script overlapping.js, localizado no subdiretório jsplugin do aplicativo:

de
      if ((OverlapInMs > 0) && (OverlapInMs >= VSSCore.MinimumBlank)) {

para
      if ((OverlapInMs < 2) || (OverlapInMs >= VSSCore.MinimumBlank)) {

O VSS é freeware e está disponível no Source Forge.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Beware, Zorpia scamming ahead - Cuidado, golpe do Zorpia à frente

by Ricardo Goldbach
Centuries have passed, Occam Razor still rules: Zorpia is definitely a spamming site. That' s the most simple and straightforward conclusion accounting for the spam spree fueled by Jeffrey Ng and his bad-famed, Hong-Kong based, so-called "social network", when one faces the evidences.
I've just received an e-mail from Zorpia as for some gorgeous babe having left me a message. Out of the blue, just as recommended on "Scamming 101". And, yes, I would have to go to the site address and login in order to read it. As a rule of thumb, I googled the scamming operation site's name and confirmed my first thoughts: either Zorpia is the like of another Badoo’s scamming engine or the 1.000th doomed Facebook wannabe.

C. Custer, at Tech In Asia Online Community, carried out a thorough investigative job,  comprising even personal e-mail exchange with Ng, who assured he was a good guy and unaware of  complaints. Faced with factual and solid evidences, Ng replied that "even if we assume there were 500 complaints, that represents a complaint to user ratio of only 0.0018%”. I say thousands of users and negative reviews (and still counting) dispute that claim.

One of the zillion samples out there

Wikipedia entry for the stenchy operation denounces this guy's evildoings: “Account deletion requests are not honoured and [people's] data is continuously used for outbound invitations”.
An eyebrow raise goes to the fact that Zorpia doesn’t seem to face ban issues in China. Huh? Facebook and Twitter do, but Zorpia doesn't?
Moral Decency in doing business Sheer greed Privacy concerns set aside, just figure out the mess a “friend invitation” — especially if attached to the profile picture of a smiling beauty — could bring to a jealous wife/fiancee/girlfriend’s paranoid mind. I don’t need to think about it, as I’ve been there and seen that. You really don’t need that pain in the ass; just go get yourself another wife/fiancee/girlfriend. Or not. Life goes on.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Atualização de firmware da Nikon D300 - não faça isso em casa

Ricardo Goldbach

Sobre-exposição -- o novo default da Nikon D300
(imagem: exposureguide.com)
Em maio de 2013, a Nikon liberou atualização de firmware para a D300 (de 1.10 para 1.11), anunciando suporte à AF-S NIKKOR 800mm f/5.6E FL ED VR. Embora eu não pense em gastar os mais de US$ 17 mil que a B&H pede por esta joia, sei que a Nikon embute melhorias não declaradas em suas atualizações (já tive gratas surpresas com update da D80). Assim, sem medo de ser feliz, instalei a 1.11 na D300.

Como dizem naqueles programas em que pessoas fazem coisas arriscadas, meu conselho é: "Não tente fazer isso em casa". O fotômetro encontra-se agora completamente alucinado, gerando sobre-exposições de até 3 pontos. Downgrade para a versão anterior? Nem pensar: a versão anterior não está disponível para download, já que é a originalmente instalada em máquinas novas (ao menos à época do lançamento deste modelo). O reset de 2 botões não faz qualquer diferença, o full também não. A solução, como sempre, é esperar por uma versão de correção -- que não traga novos bugs.

I decided to install the new firmware update (1.11) Nikon released for the D300 as of May, 2013, the sole benefit been announced as the support for the AF-S NIKKOR 800mm f/5.6E FL ED VR, a US$ 17K+ beast which I don't consider buying at all. But, as Nikon is known for bundling undisclosed bug fixes and minor enhancements in new firmware releases, I gave the 1.11 a try.

As they say on some TV shows, "don't do this at home" -- light metering has gone wild, with overexposure amounting to 3 EV points. As 1.10 version download is not available, here's to you, Nikon: kudos for messing with the delicate guts of my D300. Can't wait for the 1.12 amended version (or should I say 2.00?).

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[UPDATE - RESOLVIDO] / [UPDATE - SOLVED]

D300 A/B:1.10 firmware update: 
https://support.nikonusa.com/app/answers/detail/a_id/16149

Noto que o download não está disponível na página de "firmware downloads", mas na de respostas a dúvidas de usuários. Ou seja, há que garimpar muito -- ao longo das dúvidas de outros usuários -- para a solução de problemas. Mesmo assim, cheguei a esse link através de um outro fórum, não de pesquisas no site da Nikon.

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sexta-feira, 12 de julho de 2013

"O Globo" ou "O Funk"?

Ricardo Goldbach

Não trabalho no Globo nem quero isso. Sou "de fora", mas vou 'chamar a atenção para o fato' e 'criticar a forma como as coisas são feitas'. Em tempos em que a garotada pratica leitura no Facebook e escrita no Twitter, há jornalistas(?) que ainda não sabem usar corretamente os verbos de nosso idioma.

Ler um jornal escrito por gente letrada está cada vez mais difícil. E sem essa de que o Português é idioma vivo, que se transmuta e se adapta a novos tempos, usos e costumes. Lingugem falada é uma coisa, escrita é outra. Há que haver fronteiras entre baile funk e redação de jornal, como vejo a coisa.

Para mal da Comunicação, o Globo não preza o idioma, e seus funcionários (soa melhor que "jornalistas") primam por ir contra um papel secundário de um veículo de comunicação -- servir de referência para a boa escrita -- como se vê no aconselhamento abaixo, publicado em 11/07/13:
















4. Não critique a forma como as coisas são feitas. Preze pela diplomacia. Mesmo que os profissionais da empresa saibam que algumas coisas não são feitas da melhor maneira, ninguém gosta que alguém “de fora” chame atenção para o fato.


Se os funcionários (soa melhor que "jornalistas") globais ainda não entenderam a mensagem -- o que é plausível -- aí vai:
Prezar - v.t.d. (apreciar algo) - "Prezar um bom papo", "Prezar as amizades".

Primar - v.t.i.   (caracterizar-se por algo) - "Ele prima pela boa educação", "O prefeito prima pelo desrespeito às leis".
Desconhecer essas regências é coisa que não se deve fazer num jornal -- nem na primeira semana, nem nunca.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O atendimento de emergência na visão dos profissionais de saúde

Matéria produzida a partir de entrevista que fiz, em setembro de 2008, com o prof. Jorge de Campos Valadares, pesquisador da Fiocruz/ENSP.

por Ricardo Goldbach
Estudo liderado pela psicóloga Marilene de Castilho Sá, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz, e publicado na edição de junho dos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, conclui que trabalhar em um hospital de emergência é lidar com uma demanda que não se esgota na busca por assistência médica num sentido estrito. “Usuários desses serviços também buscam sentido e amparo, pois são uma população em grande parte à margem da cidadania e das redes sociais de apoio e solidariedade”, esclarece Marilene.
"O paciente chega ao hospital procurando um amparo que vai além do atendimento médico".
Segundo o doutor em Saúde Pública pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz/ENSP - onde é pesquisador titular - Jorge de Campos Valadares, “esse quadro não tende a se alterar enquanto não forem reestruturadas as condições de atenção primária e a infra-estrutura de oferta de serviços na área de saúde”. Valadares concorda com a autora do estudo, no sentido de que “o atendimento de emergência, especificamente, tem como ônus extra o estado emocional do paciente, que chega ao hospital procurando um amparo que vai além do atendimento médico”.
O especialista diz que a “procura pela estrutura hospitalar poderia ser reduzida com a implementação de atividades e programas de acolhimento, com esclarecimento e prevenção, fundamentados na atenção primária, regionalizada, incluindo aí o trabalho de saúde ambiental”. Não pensar desta forma, segundo Valadares, implica em “se estar continuamente apagando incêndios pontuais”, com as conseqüências recaindo sobre a população e a estrutura de atendimento.
Nas reuniões entre especialistas "muita coisa se dá de forma não transmissível, inclusive os jogos de poder."
“As políticas de saúde pública no Brasil favorecem a manutenção de uma demanda em muito superior à oferta”, diz Valadares. Para o especialista, uma política completa deveria incluir uma prática não somente pluridisciplinar, mas transdisciplinar. Segundo ele, “essa prática implica em uma travessia de confrontos, em que os investimentos afetivos são expressos e reavaliados pelo grupo multidisciplinar, composto por médicos, psicanalistas, enfermeiros, antropólogos, sociólogos, assistentes sociais, dentre outros, além da necessária disposição política de promover a transformação. Isto vai além dos dispositivos técnicos das diversas teorias”. Para o pesquisador, “o trabalho transdisciplinar é um trabalho de grupo que implica a mencionada experiência de confronto, não somente de teorias como também de experiências”, e ele lembra que “a arte da argumentação consiste em trazer a discussão para o seu próprio campo de saber”, segundo o ex-presidente da Fiocruz, Prof. Dr. Luis Fernando Ferreira.
Valadares afirma que “esses trabalhos transdisciplinares, incluindo-se aí a captação de fomento, são muito subalternos à prática política como um todo, e que a saúde pública ainda está num nível pré-freudiano. O ser humano age e produz ‘atuações’, negando que atua”. “Há comportamentos humanos que não são passíveis de ‘esclarecimentos’, pois se dão em ato e não são teorizáveis, se dão na prática dos encontros e dos desencontros”, acrescenta. Nas reuniões entre especialistas “muita coisa se dá de forma não transmissível, inclusive os jogos de poder. Em muitos hospitais se decide quem vai morrer, como uma conseqüência da escassez e do contingenciamento de verbas feitos em instâncias superiores” diz Valadares. Ele afirma ainda que “no âmbito local o investimento poderia ser melhorado através de conselhos municipais de saúde, pois as verbas seriam direcionadas para onde são necessárias, no nível da ação”.
Nosso entrevistado cita Foucault, dizendo que "não há saber sem poder", mas completa afirmando que "mesmo havendo este cuidado com os meandros do poder, pode haver a cooptação, no exercício da política de distribuição de verbas".
Quanto às pesquisas, “as decisões cabem aos pesquisadores mais articulados”, diz. “Isto poderia ser equacionado com a participação de especialistas com experiência consagrada em psicologia social, nas etapas de pesquisa, ensino e planejamento. O pensamento não pode ser baseado em certezas. Para que se tenha uma prática que não seja pré-freudiana, é necessário que se tenha em mente a afirmação de Heidegger: ‘a dúvida é a piedade do pensamento’”, afirma o cientista. “A cada minuto as certezas devem ser abaladas para que os conceitos não se transformem em preconceitos”, diz. Nosso entrevistado cita Foucault, dizendo que “não há saber sem poder”, mas completa afirmando que “mesmo havendo este cuidado com os meandros do poder, pode haver a cooptação, no exercício da política de distribuição de verbas”.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Prism, o Echelon 2.0

Ricardo Goldbach

Quem não tem lido jornais nas últimas décadas pode surpreender-se com o sistema de espionagem eletrônica Prism e seus objetivos, que o presidente Barack Obama tanto busca esconder ou minimizar. Trata-se de mais um aparato de dominação global dos EUA, operado por serviços de inteligência, a ganhar atenção da mídia, desta vez com a exposição dada por Edward Snowden.

O fato é que o Prism é como um sucessor do Echelon, turbinado com algo de Big Data. O Echelon é uma rede de coleta e processamento de dados de telefonia, fax e e-mail implementada com a cumplicidade dos governos do Canadá, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia. O sistema chegou a ser usado para espionagem industrial, de modo a dar às empresas sediadas nos países-membros vantagens competitivas sobre os concorrentes europeus. Foi essa a natureza da denúncia da então ministra da Justiça da Franca, Elizabeth Guigou, nos idos de 2000, segundo a BBC, em matéria com o título “França acusa EUA de espionagem”:
The Echelon surveillance network - which can intercept private telephone conversations, faxes and e-mails worldwide - had apparently been diverted to keep watch on commercial rivals.
A BBC explica:
Her comments came as a report commissioned by the European Parliament alleged that the UK was helping the US to spy on its European partners.
Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, James Rubin, fez seu papel – mentiu: "US intelligence agencies are not tasked to engage in industrial espionage or obtain trade secrets for the benefit of any US company or companies", no que foi acompanhado pelo então primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Ainda em 2000, a Wired deu atenção ao caso, sob o título “França perplexa e aterrorizada com o Echelon”.

No Wall Street Journal, em 17 de março daquele mesmo ano, James Woolsey, ex-diretor da CIA durante a administração Clinton, explica, com arrogância, “Por que espionamos nossos aliados”, em artigo que tem precisamente este título. Já no primeiro parágrafo Woolsey mostra a que veio e desmente o porta-voz do Departamento de Estado:
Yes, my continental European friends, we have spied on you. And it's true that we use computers to sort through data by using keywords. Have you stopped to ask yourselves what we're looking for?
Curiosa e inocentemente, a explicação de Woolsey diz que a espionagem permitiu que se descobrisse casos de corrupção, que então foram levados aos governos interessados, o que por sua vez alterou o resultado de concorrências. Assim, o projeto Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi ganho pela Raytheon, em 1995, porque a francesa Thomson havia subornado autoridades brasileiras. Igualmente, segundo Wolsey, numa concorrência para a aquisição de aviões pela Arábia Saudita, o consórcio europeu Airbus perdeu a vez para a Boeing porque havia subornado autoridades sauditas. O fato é que em ambos os casos empresas norte-americanas saíram-se bem.

Woolsey termina sua peroração com uma recomendação:
Get serious, Europeans. Stop blaming us and reform your own statist economic policies. Then your companies can become more efficient and innovative, and they won't need to resort to bribery to compete.
And then we won't need to spy on you.
Algo como, “Europa, pare de nos culpar e modifique suas políticas econômicas estatizantes. Se suas empresas forem mais eficientes e inovativas, não precisarão recorrer a subornos para poder competir, e nós não precisaremos espionar vocês”. Um primor de cinismo, não?

Em maio de 2001, o jornal The Guardian ainda se dedicava ao tema, fazendo um descrição sucinta do Echelon e trazendo links diversos sobre os ecos do escândalo.

Em julho de 2008, a CSN informa que o Parlamento Europeu abrirá investigação sobre o caso.

Somente agora, em meados de 2013, a exposição de Snowden consegue colocar o assunto nas primeiras páginas de todo o mundo. Old news, pode-se dizer. Mas pelo menos foi reaceso um tema sobre o qual a Casa Branca e seus cúmplices de além-mar tanto mentiram ao longo dos últimos anos. E provavelmente continuam mentindo, pois faz pouco sentido investir bilhões de dólares na coleta e filtragem de metadados, mas deixar de lado a coleta da informação propriamente dita -- o áudio de um telefonema ou o corpo de um e-mail, por exemplo -- quando relevante.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Brazilian major cities set on fire - part 1

understanding the June, 2013 riots

by Ricardo Goldbach (reporting from Rio de Janeiro)

The stunning outburst of violence that raided São Paulo, Rio de Janeiro and other major Brazilian cities presented two kinds of players. Small groups of hooligans and looters took advantage of the protests of a much larger group, the latter comprising students and workers concerned with the buildup of the corruption that is endemically spread throughout Brazilian political elites -- including the once left winged, now dominant Labor Party.


Photo by Marcelo Carnaval (Agência O Globo)
Brazilian media says that masses negative feelings were ignited by an average R$ 0,20 bus fare raise. But there is something missing here: the public transport business was recently granted some tax exemptions, provided that fares would go cheaper accordingly. However, that compensation didn't see the light and authorities played dead. Nonetheless, the mere fare raise is considered to be the initial movement's flagship, per se.

Besides that, a buildup of several factors lies behind the scenes that led to the social unrest we now see, the first of them being related to the big sporting events Brazil is going to host.

The Fifa World Cup, the Confederations Cup and The Olympics

Since Fifa first disclosed its rules regarding both World Cup and Confederations Cup, it was clear that they were kind of taking Brazil on lease. Among other things, Fifa was firm as for beverage being sold inside Brazilian arenas. National laws established a veto on liquor vending at major sporting venues, an effort to prevent violence among spectators, but Fifa won this round; Brazilian laws were revised as to comply with Fifa sponsors' needs (here, here, here, here and here). On a shameful move, federal government let to each involved city the task of handling the issue, on a local basis.

The rules imposed by Fifa established an exclusion zone of 100m radius around places holding official Fifa events, which extends to 2km when it comes to the sporting venues, where the selling of food and beverage of non-official sponsors brands is precluded.

Photo by Tiago Di Araujo (redebahia.com.br)
































Most surprisingly, "baianas" (women named after Bahia state), who sell a typical dish known as "acarajé", both on streets and at sporting venues, were forbidden to run their business inside the arenas. As popular outcry was huge, some arrangements took place in order to honor the most valuable tradition of the "baianas" (here and here). But the damage is visible, since Fifa proved able to make way through -- and even against -- Brazilian laws and traditions.

On a side note, few days ago Brazilian president Dilma Roussef was heavily booed when, sided by Fifa president Joseph Blatter, attended the opening of the Fifa Confederations Cup.


    

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Sobre charretes e computadores

Ricardo Goldbach

O portal de jornalismo Comunique-se traz, no dia 04/06/13, uma matéria sobre a onda de demissões que atingiu jornalistas do grupo Folha -- um "passaralho", como se costuma chamar.

Dos fatores que podem contribuir para estreitar o mercado de trabalho de jornalistas, dois são determinantes:  a existência de um governo avesso ao papel investigativo da imprensa e a irreversível migração dos veículos para o meio digital. Ficarei com este último.

À época em que eu trabalhava na Cobra -- para quem nasceu depois nos 70, naqueles anos a Cobra Computadores Brasileiros S.A. desenvolvia desde projetos de placas até compiladores e linguagens de programação, passando por assistência técnica em campo -- o Brasil vivia uma onda desenfreada de informatização dos negócios. Com a mesma intensidade, os sindicatos gritavam alertas de que a informatização levaria à redução da oferta de postos de trabalho.

Talvez, por eu ter viés de um trabalhador da indústria de computadores, eu comprava um peixe que era muito vendido: "Os postos de trabalho não vão desaparecer; haverá apenas a necessidade de os trabalhadores se adaptarem para preencher os novos postos de trabalho". A falácia ia além, descendo a exemplos: "Quando o automóvel surgiu, bastava que os charreteiros aprendessem a dirigir. O emprego não desapareceu, apenas mudou de cara".

Acreditei nisso por algum tempo, até que estendi um pouco aquele raciocínio. Com os motores a explosão não vieram apenas os automóveis; vieram também os ônibus, que levavam, de uma só vez, mais passageiros do que as antigas charretes e carruagens. Apenas como exercício de raciocínio, suponhamos que uma charrete levasse quatro pessoas, ao passo que um ônibus primitivo conduzisse, digamos, uns vinte passageiros. Assim, um charreteiro virou motorista de ônibus, enquanto quatro outros tiveram que inventar outro modo de ganhar a vida.

Enquanto isso, na época das cavernas...

Anúncio de emprego publicado no JB (18/12/1969)
Trazendo aquele cenário para época mais recente, lembro-me de quando as agências bancárias tinham listagens, atualizadas diariamente, contendo os saldos de todos os correntistas. Desse modo, quando eu queria sacar dinheiro da minha conta, na boca do caixa, o funcionário ia consultar meu saldo e anotava na listagem o valor que eu queria sacar. Antes disso, ele conferia visualmente minha assinatura, é claro, comparando-a com a que constava na minha ficha de correntista, que estava armazenada num armário, em algum canto da agência. Ao final do dia, as listagens contendo as anotações feitas à mão eram devolvidas ao CPD (centro de processamento de dados) do banco, onde digitadores (provavelmente em perfuradoras IBM 026, antecessoras das saudosas 029) preparavam as massas de cartões que atualizariam os saldos armazenados nos computadores.

É fácil olhar para essa cena e associá-la à época das cavernas, diante dos atuais cartões bancários chipados cuja senha é a palma da minha própria mão. Por outro lado, desapareceram funções administrativas tais como confrontar assinaturas, anotar saldos e perfurar cartões para atualização de contas. No lugar daqueles funcionários estão hoje os programadores de Visual Basic, COBOL e CICS, além de batalhões de analistas e gerentes de projeto, mas em muito menor quantidade, comparando-se relativamente.

Voltando à imagem dos charreteiros, é como se os quatro desempregados tivessem que ir estudar Odontologia, por exemplo. Antigos trabalhos são extintos, novos surgem em seus lugares, mas a quantidade de postos de trabalho é reduzida. Neste cenário não há lugar para adaptação; trata-se, mesmo, de reorientação profissional, se é que isso está ao alcance de um trabalhador técnico ou administrativo de nível médio.

Os Jetsons chegaram. E agora?

Quando os Jetsons encarnavam o divertido paradigma da sociedade do futuro (inclusive com a empregada Rosie, uma robô que, profeticamente, dispensava carteira de trabalho, férias e FGTS), dizia-se que com a automação do cotidiano as pessoas teriam mais tempo fazer o que quisessem. O futuro chegou, e é grande o contingente de pessoas que dedicam o tempo que têm a mais (o dia inteiro) às atividades de procurar emprego ou estudar desesperadamente para prestar concursos públicos. Isso é visível, tanto nas matérias de comportamento quanto nas de economia -- as publicadas em veículos digitais, é claro, já que rádio e jornal impresso estão em vias de extinção, no mundo inteiro. Com o progresso, os jornalistas daquelas mídias, da Folha e de outro veículos, agora têm mais tempo... para procurar novos empregos, cada vez mais escassos, ou para mudar de carreira, se tiverem o fôlego suficiente.

Esse não é pensamento de um ludita. Mas, como diz aquele filósofo romeno do século XIV, não custa pensar no assunto.

Feliz 2038.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Lamento, Hermínio. Cheguei muito atrasado.

ou “tempo é aquilo que a gente só descobre que tinha depois de ter perdido”

Ricardo Goldbach

Escalação que conquistou o 1º Campeonato Brasileiro do Colorado
(foto: site de Milton Neves)
Conheci Hermes Rianelli – o Hermínio – no início dos anos 90, por meio de um contato em comum. Hermínio tinha um casarão de dois andares, vazio, na Rua Pedro Alves, no bairro de Santo Cristo, e queria dar a ele alguma destinação. Quem nos aproximou foi um “executivo de fronteira” (apelido dado naqueles tempos ao “importador” de peças para a montagem de PCs) que já havia me atendido a contento –  à época, eu era gerente de sistemas de uma empresa dedicada à gestão terceirizada de processos de administração e engenharia de manutenção.

Nosso primeiro contato, um cafezinho para avaliarmos o que poderíamos fazer juntos, foi marcante. Aquele querido ex-zagueiro do Internacional era a simpatia em pessoa, ao mesmo tempo que simples, franco e perspicaz. Com o início da popularização dos PCs, ele havia enxergado uma oportunidade de negócio na qual eu me encaixava como a terceira peça. Assim, durante algum tempo, os três tocamos a vida profissional juntos, na 99 Computer (não me lembro de onde veio o nome da empresa, mas eu brincava com ele, dizendo que só não éramos “100” porque ninguém é perfeito).

Por motivos outros, que não passaram por falta de competência ou de clientela, a coisa não chegou a durar muito. Entre mim e Hermínio, no entanto, permaneceu a forte amizade, o respeito e a confiança: pouco depois do fim da 99, ele me contratou para informatizar os processos administrativos da Gymania, indústria de vestuário que possuía em Itaboraí, juntamente com mais dois sócios. Mais adiante, depois do fechamento da fábrica – arrastada pela falência da Mesbla, maior cliente e maior devedora – matávamos a saudade em ocasiões esparsas: um churrasco em Papucaia, uma visita à casa dele, durante recuperação de problema circulatório na perna, alguns telefonemas para marcar o almoço que jamais aconteceu.

Desde nosso último e longínquo contato, volta e meia Hermínio me vinha à cabeça. “Preciso saber dele, como andam a saúde e a vida”, eu me impunha. Ao mesmo tempo, as cobranças da vida cobravam mais alto (ou ao menos eu acreditava nisso).

Neste maio de 2013, decidido a pagar o débito para comigo mesmo, dou uma googlada em “Hermes Rianelli” para recuperar dados de contato. O jornalista esportivo Milton Neves me dá a notícia, através da seção “Que Fim Levou”, do blog “3º Tempo”:
"Ex-zagueiro do Coritiba, Internacional e São Paulo, Hermes Rianelli, o Hermínio, morreu no dia 12 de setembro de 1988. Ele chegou a atuar no Colorado ao lado de Carpegiani, Falcão, Valdomiro e outras feras."
Buscando um pouco mais, descubro que após aquela data Hermínio havia sido presidente do Sindicato dos Treinadores de Futebol Profissional do Estado do Rio de Janeiro. Segundo o site da entidade, Hermínio foi o segundo presidente, tendo exercido o mandato entre 1997 e 1999, ano este em que teria se dado sua morte.

Não sei quando nem como Hermínio se foi, mas pretendo descobrir. Nesse meio tempo, fico com a memória de um episódio que ele me contou, que bem mostra o faro e a determinação que possuía. No início dos anos 70, jogador consagrado do Internacional, Hermínio era consultado pelos dirigentes do clube quanto a contratações de novos talentos. Tendo assistido a uma partida de aspirantes, o zagueiro foi categórico: “Aquele garoto ali tem um tremendo futuro, ele tem cancha de campeão!”

Os dirigentes foram unânimes em discordar, ao que Hermínio me disse ter respondido: “Se ele não entrar no Inter, saio eu. E vou para o clube que o aceitar”. O garoto acabou sendo contratado, e não se passaram muitos anos até que o Brasil e o mundo reconhecessem o que Hermínio já havia identificado: a categoria e a raça do craque Paulo Roberto Falcão.

Descanse em paz, grande Hermínio.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Bitcoins: a moeda do futuro tem futuro?

Entusiasmos, pragmatismos e ameaças

Ricardo Goldbach

Muitos kWh e pouco retorno (autor desconhecido)
Apesar de a garimpagem de moedas digitais ser um mau negócio nos dias que correm, os adeptos (eu inclusive, por mero diletantismo e curiosidade) continuam descobrindo moedas e perdendo dinheiro no processo. A aritmética mostra que o investimento torna-se deficitário na medida em que os blocos tornam-se mais raros: gasta-se mais com energia elétrica e depreciação do computador do que se ganha com a remuneração pelo esforço computacional dedicado. O ponto de equilíbrio já foi alcançado, em algum momento do passado. Ponto.

Em que pese o obstinado entusiasmo, os garimpeiros de Bitcoins (BTC) têm mais um motivo para perceber que o jogo está com os dias contados. Fabricantes de ASICs (application-specific dedicated chips, chips voltados a aplicações específicas) e de FPGAs (field-programmable gate arrays, circuitos genéricos, com as configurações de hardware sendo programáveis pelo usuário), começam a oferecer boxes com capacidades de processamento antes inimagináveis.

A Butterfly Labs oferece um produto com capacidade de 50 Gh/s (50 bilhões de hashes são calculados por segundo), e a Avalon promete mais de 65 Gh/s, o equivalente a 1000 desktops parrudos, com Intel Core i7. Em termos comparativos, um i7 3930k está limitado a cerca de 65 Mh/s. Se a máquina contar com uma placa de vídeo ATI 6870, por exemplo, cerca de 280 Mh/s serão acrescentados ao poder de fogo: os processadores das atuais placas de vídeo turbinam um PC, sendo mais poderosos do que a própria CPU, quando se trata de cálculos criptográficos. No setor de mineração com placas de vídeo (GPU mining), a nVidia está perdendo feio.

No entanto, mesmo considerando-se os pools de garimpagem -- aos quais usuários se unem para somar esforços de CPU e dividir resultados -- um único ASIC conectado à rede é capaz de morder significativa parcela dos ganhos obtidos coletivamente por um pool.

We Accept Bitcoin Only – Bitcoin allow us to collect large sum of assets in a short period of time, and due their nature the bitcoins can also be move to where they are suppose to go in a similar time frame. It also make sense as the Avalon units mine bitcoins so they should be priced as such accordingly.
E por que prefiro o universo dos Litecoins (LTC)? É mera questão de bom senso. Por questões técnicas -- diferenças entres os algoritmos de criptografia usados na geração dos blocos originais de BTC (SHA-256) e de LTC (Scrypt), a garimpagem de LTC, seja individual seja coletiva, não sofrerá a concorrência desleal dos ASICs que começam a sair do forno: é impossível garimpar LTC com os princípios que fundamentam a arquitetura usada naqueles monstros capazes de dezenas de Gh/s. Quanto a ASICs dedicados a LTC, tendo a achar que são inviáveis, mas, se já é possível fabricar armas de fogo em casa, com impressoras 3D, há que se desconfiar de certezas tecnológicas.

Já os analistas de tecnologia e mercado têm um enfoque mais pragmático e realista: trata-se de uma bolha, que hipnotiza gente que não percebe que os tempos áureos de um BTC valer menos de US$10 (e ser bem mais fácil de ser encontrado) já se acabaram, além de haver o insofismável critério de custo x benefício. Neste exato momento (06/05/2013, 12h45) um BTC está cotado a cerca de US$ 110, mas de 40 dias para cá já registrou valores que oscilaram entre US$ 40 e US$ 260.

O raciocínio, realista, deve também apoiar-se no fato de que num futuro próximo (por volta de 2030, podendo ser antes, com a evolução de hardware e a adesão de novos mineradores), não haverá mais blocos a descobrir:

Curva assintótica de novas descobertas, assumindo-se intervalo constante de 10 minutos
entre cada dois achados (fonte: Wikipedia)

O que importa é que nada disso importa muito: as moedas digitais não têm na garimpagem seu objetivo último; a ideia é a disseminação e o uso corrente do BTC, com a descentralização do controle dos meios de pagamento, aí incluída a impossibilidade de rastreamento das transações. É na ameaça aos bancos centrais e às legislações vigentes que se concentram as atenções, nestes tempos em que traficantes mexicanos usam BTC como moeda corrente, empresas começam a dar aos empregados a opção de receber salários em BTC e os esforços regulatórios das autoridades monetárias dos EUA estão a todo vapor.

O grande temor da comunidade, por outro lado, está na "ameaça dos 51%": quem detiver isoladamente mais de 50% do poder computacional da rede, pode, em tese, adulterar blocos de transações mais rapidamente do que eles sejam autenticados pelo esforço coletivo. Por enquanto, o agente fiscalizador e disciplinador é a própria rede, mas até isso pode mudar.

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PS 1: A título de curiosidade, os sólidos e elegantes fundamentos conceituais por trás do Bitcoin estão neste paper produzido em 2009 por Satoshi Nakamoto, seja este o nome de uma pessoa, um apelido, ou mesmo o nome de um coletivo de desenvolvedores -- ninguém sabe ao certo, até agora.

PS 2: As referências que fiz a Bitcoins aplicam-se igualmente a Litecoins, à exceção do que diz respeito às particularidades dos algoritmos empregados. De resto, o panorama é o mesmo.

sábado, 27 de abril de 2013

Nuvens e ondas

Ricardo Goldbach

A baixa autonomia da bateria do meu Xperia X10 Mini Pro (u20i, para os rooted) me fez vasculhar, madrugadas a fio, os forums do XDA Developers. Em agosto de 2011, depois de esquadrinhar em vão as dicas de otimização de consumo -- filhas de saudáveis trocas de experiência -- postei minha desconfiança sobre os desenvolvedores do Google Inc. terem deixado perdido e ativado, em meio ao código do Android, um recurso de debug que jamais poderia ter deslizado para o ambiente de produção.

Dentre outros comportamentos suspeitos, a geração de milhares de entradas a entupir o log com alertas sobre o fato de o sensor de luz estar desativado -- à razão de dezenas delas por segundo. Esse desvio comportamental de um sistema operacional que, após ganhar as ruas, foi adotado em massa por significativa parcela da Humanidade, me levou a postar, à época, o texto abaixo:

Battery drain: blame it on Google Inc?
My CM7 u20i has a 20% nightly drain, even with WF, BT, GPS and whichever drain mongers turned off. After extensive reading (and trying) on the issue and analysing all kinds of near voodoo reasoning, I decided to peek into real OS activity - the ultimate place to see what's going on. OS Monitor showed me some interesting issues, in the case its ps functionality works as expected.
My attention was first caught by the constant activity of Google Backup Transport process, accounting from CPU loads varying from 1 to 14%(!), rarely 0%, even though I never use cloud backup - in any case, in any of my devices. No can do.
The other significant mistery is the existence of a log that holds 1945 entries generated in the mere past 9 minutes. This intensive logging policy is something I myself would implement (#define switch) at pre-release phase, but just for debugging sake - never letting it slip into production environment. Does Google Inc still considers Android to be at beta phase? ;)

Ocorre que neste março de 2013, cerca de um ano e meio depois, recebo um alerta de comentário. Uma dica, que recomendava a desativação de um serviço de transporte do sistema operacional, me convidou a ressuscitar o X10 do período de exílio forçado a que foi destinado, nestes tempos em que a "nuvem", onipresente em fluxogramas de décadas atrás e em todas as implementações de conectividade desde então, "nasce" com toda a força que nela marqueteiros encantados conseguem investir.

A reativação do thread que originei me faz pensar (de novo again) sobre a resiliência da informação, com bits que navegam incessantemente pelo éter-net, qual garrafas lançadas de ilha deserta que resistem, teimosas, à pressão das ondas e das marés, até vir a dar num porto. Ou não, como diria aquele famoso filósofo romeno cujo nome ora me escapa ao cache.

sábado, 23 de março de 2013

Sobre a qualidade do miojo intelectual que o Brasil produz


Ricardo Goldbach

Em conversa recente com um empresário atento à qualidade dos produtos da empresa que dirige, refletíamos os dois sobre o futuro do negócio dele, no que se refere a existir uma real demanda por padrões elevados – ou ao menos mínimos – de qualidade, daquilo que nenhum dicionário define em termos absolutos, por impossível. Busque-se por "qualidade", "quality", "quālis" (a raiz latina do termo) ou pelo que seja, e chega-se à conclusão de que qualidade é coisa que só se afere, valora ou identifica em contraste com um ideal ou padrão já estabelecido, por decisão, consenso ou descaso.

Lendo o noticiário, divago sobre a qualidade de ensino e aferição que o Brasil destina aos educandos de hoje, os que amanhã estabelecerão padrões para aferir a qualidade de produtos e serviços (inclusive os de ensino!). Para as autoridades brasileiras responsáveis pela área, basta que a redação de um aluno de curso superior contenha alguma alusão ao tema para que o conteúdo seja aceito. Para quem está chegando agora, refiro-me a duas redações apresentadas em exame do Enem que continham, de modo aparentemente provocador, referências a receita de preparo de macarrão, uma delas, e trechos completos de um hino de time de futebol, a outra.

Ocorre que em ambos os casos os estudantes fizeram referências difusas à "Imigração no século 21", o tema da redação. Assim, segundo os critérios de qualidade vigentes, eles atenderam às expectativas de quem maquinou o exame. Por motivos igualmente obscuros, "trousse" pôde ocupar o lugar de "trouxe", e "rasoável" pôde substituir "razoável", sem qualquer prejuízo para outros examinandos que, apesar dos pesares, conseguiram alcançar nota máxima. Vale lembrar que sem a imprensa investigativa – essa eterna perseguida por regimes políticos fechados ou em vias de discretamente sê-lo – esse descalabro, como tantos outros, não teria vindo à tona, já que não depõe a favor da elite decisória.

E o que demandarão os futuros demandadores de qualidade? Muito pouco, cada vez menos, imagino. Se o miojo e o hino do time foram meras provocações, como alegam os estudantes (de cursos superiores, não nos esqueçamos), outros sintomas da enfermidade cultural não "trousseram" nenhuma esperança "rasoável".

Os que têm saído dessa máquina de produzir estatísticas favoráveis, conhecida como "ensino superior" ("superior a quê?", pergunto, relativizando ainda mais o que já era relativo), já se encontram em todas as áreas de atividade, aí incluídos os meios de comunicação, em particular, e mesmo os controles de qualidade, em geral. É justamente aí que o parafuso dá mais uma volta: quando se lê coisas como "energia heólica" ou "métodos pioneros" (JB online, 22/03) – para ficar em parcas e não cansativas amostras do que seja a imprensa atual – é possível ver um perverso efeito realimentador que, em ciclo vicioso, deprime o já baixo padrão cultural médio dos brasileiros.

Não penso que a grafia errada seja o pior dos efeitos. Com bastante complacência (na verdade, com muito mais do que apenas isso), pode-se argumentar, como já argumentaram autoridades da área educacional, que o receptor da mensagem tomou conhecimento do teor, assim como me lembro da validade linguística que já se conferiu a "pegar os peixe". Prestar atenção aos erros, no entanto, é o maior dos erros; é preciso antes observar o quadro com mais atenção, com o que se chega à inevitável conclusão de que aqueles desvios têm origem na falta do hábito da leitura – e é aí que o que já é ruim caminha na direção de tornar-se pior.

A simples leitura de jornais online e de posts no Twitter não resolve a questão, já que o iletrado nada aprende com o semialfabetizado – pode até involuir; uma busca por “energia heólica”, no Google (a Barsa, a Britannica e a Delta Larousse dos admiráveis tempos novos), já serve como ilustração disso. E lembro, mesmo que não seja necessário, que a leitura não serve apenas para aprender ou reter o uso correto de ortografia e gramática; serve (ou deveria servir), antes de mais nada, como estímulo ao enriquecimento do universo interior e ao exercício do pensar.

Já escrevi por aí que "Se a juventude de hoje não sabe se Erich Fromm é coisa de comer ou de passar no cabelo, a de amanhã poderá ter dificuldade em escrever 'cabelo'" (“kblo”? “cabelu”?). Do mesmo modo, o professor, escritor e dramaturgo Osman Lins (autor do saboroso e certeiro texto "Reflexões sob um quadro-negro") disse, em entrevista que li há pouco, que

Os dentistas têm observação que, com os liquidificadores, os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram enormemente as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação.”

A “energia heólica” está, em 2013, naquele mesmo JB no qual, nos idos de 1980, aguardava-se o round seguinte da esgrima intelectual entre José Guilherme Merquior e Eduardo Mascarenhas, com a mesma ansiedade com que o público médio espera, atualmente, pelo próximo capítulo de uma novela que esteja “pegando fogo”.

Chegando-se (ou já se tendo chegado) a esse ponto, esvazia-se qualquer pretensão de especular sobre como incrementar a qualidade de bens e serviços culturais, a não ser como exercício de ganha-pão. No diagnóstico de Theodor Adorno, o fruto da indústria cultural destina-se, em última instância, a ser consumido durante as horas do “falso lazer”, aquelas em que o consumidor apenas descansa e se distrai entre duas jornadas de trabalho consecutivas. E parece certo que é na direção do suprimento dessa ração que governo, sistema de ensino, estudantes e mercado de trabalho – meios de comunicação, em especial – têm ido.

A proximidade da Páscoa, com o frenético celebrar de lendas sobre coelhos e ovos (aliás, coelhos põem ovos?) me parece bom momento para se rememorar esta outra lenda, a da educação de qualidade(?), que produz ovos e miojos tão pouco nutritivos, indigestos, até.

Até.