sexta-feira, 21 de agosto de 2009

No vale-tudo da blogosfera

Ricardo Goldbach

Abomino o copy&paste como forma de jornalismo, apesar de isto ser um lugar comum, nestes tempos em que blogs proliferam como cogumelos após a chuva. Nada contra o blog como ferramenta que sirva a algum propósito, mas tudo contra a publicação de textos do tipo "ouvi dizer que..." ou que sejam apócrifos e desprovidos de citação de fonte.

Se é o caso de se reproduzir algo recebido por e-mail ou lido em um outro blog, que ao menos haja um prudente e responsável trabalho de verificação. Pesquisa e verificação são dois conceitos que devem existir na cabeça do vivente antes mesmo da matrícula em uma faculdade de jornalismo, ou que ao menos sejam absorvidos no decorrer do curso.

O caso aqui é um texto que recebi por e-mail, que chamou minha atenção e me provocou a natural desconfiança quanto à veracidade. Encontrei o mesmo texto - com pequenas variações - em mais de 20 blogs; em nenhum deles há citação de fonte ou outro atributo visível de credibilidade. Todas as ocorrências se iniciam pela frase
"Eu já havia lido sobre a dificuldade de fazer beneficiários do Bolsa Família entrarem no mercado formal de trabalho no Nordeste".

Quem é "Eu"? Talvez eu tenha descoberto; havia uma nota igual, publicada na versão impressa do jornal Diário do Comércio (RS), na edição de 14 de agosto, segundo informa a versão online daquele mesmo jornal. Por estar na coluna Painel Econômico, assinada pelo jornalista Danilo Ucha, considero a nota merecedora de crédito. Fica apenas a dúvida sobre como um jornalista do Rio Grande do Sul teria testemunhado uma reunião da Federação das Indústrias do Estado do Ceará. Mas, ainda acreditando em um jornalista, reproduzo a nota:


"Bolsa Família

Eu já havia lido sobre a dificuldade de fazer beneficiários do Bolsa Família entrarem no mercado formal de trabalho no Nordeste e até achava que havia um pouco de política de oposição na história. Ontem, em reunião na Federação das Indústrias do Estado do Ceará, vi a história, contada e documentada, e bem pior do que eu imaginava. O Sinditêxtil-CE realizou um curso de preparação de mão de obra de 500 costureiras para o setor, onde está faltando gente. Das 500 mulheres que fizeram o curso, nenhuma ficou empregada, para decepção dos organizadores e das empresas que esperavam pelas novas empregadas. “Nenhuma, nenhuma aceitou o emprego porque teria que ter a carteira de trabalho assinada e, assim, perderia o benefício do Bolsa Família”, informou Franze Fontenelle, “foi muito triste para nós.” Todas queriam trabalhar se fosse informalmente, isto é, ficar com dois salários".


fonte: versão online do jornal Diario do Comercio


Então ficamos assim: aparentemente é fato que o Bolsa-Família, ao não prever a situação noticiada, tenha feito jus à pecha de assistencialismo que não raro é atribuída a ele. Mais ainda, o programa também teria servido de alavanca para o desperdício do dinheiro gasto pelo Sindicato com a formação das profissionais que optaram por não trabalhar ao final do treinamento, preferindo receber a esmola oficial.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Scientia Brasilis

ou da importância da construção de conhecimento no Brasil

Ricardo Goldbach




Das descobertas serendípticas aos resultados obtidos pela perseverança que contorna obstáculos, a história da caminhada humana na face da Terra registra achados movidos tanto pelos ditames da macroeconomia quanto pelo lampejo nascido de necessidade imediata de resultado. Mas a Ciência vive de alimento - tanto espiritual quanto material - para existir e permanecer. Em troca, novos achados realimentam a possibilidade de novas conquistas. Não à toa, justamente na mais antiga universidade ainda em funcionamento no mundo ocidental, a Universidade de Bologna, foi estabelecida a conotação acadêmica para alma mater (do latim, "mãe que nutre") já em sua fundação, em 1088. A Universidade é uma nutriz.

Em 2008, gravei entrevista com o Chefe do Laboratório de Entomologia do Instituto Oswaldo Cruz e Pós-Doutor em Entomologia Médica pela University of Massachusetts Medical School, Anthony Érico da Gama Guimarães. O gancho era a grande escala atingida pela epidemia de dengue no Brasil e cuja intensidade oscilava entre os períodos de pico, apesar de existir permanente latência da ameaça. Mas a dengue é na realidade uma endemia, como a Secretaria Municipal de Saúde de Campinas (SP) já alertava em 2000, em Boletim Epidemiológico: "Há uma expansão contínua da endemia de dengue no planeta".


Dez anos mais tarde, onde estamos? Num quadro de recrudescimento da expansão da endemia e do aumento do número de notificações e dos óbvios impactos na sociedade, para além dos aspectos da Saúde. Segundo a Agência Brasil, por exemplo, o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, seção Rio de Janeiro (AbihRJ), Alfredo Lopes de Souza Júnior, informou que, em março de 2009, mais de 1.500 sites registravam "em todo o mundo, o nome dengue vinculado ao Rio de Janeiro". Neste mesmo ano de 2009, assistimos o nascimento de uma hecatombe sanitária conhecida como "gripe suína" - novas ameaças surgem, sem que as antigas tenham sido neutralizadas.

Enquanto isso, no Instituto Oswaldo Cruz, o cientista Anthony Érico prossegue em suas pesquisas no sentido de lapidar uma descoberta sua: o efeito biocida de determinadas plantas da Mata Atlântica sobre as larvas do Aedes Egypti, sem quaisquer efeitos nocivos para seres humano ou animais. Há na flora brasileira um insumo para a produção de importante coadjuvante no combate à dengue, cuja fabricação e uso dispensam pagamento de royalties às farmacêuticas multinacionais...

Maior do que o alto custo do combate aos efeitos das doenças, é o preço pago por não se alocar generosamente os recursos de que a Ciência precisa para assentar mais tijolos na construção de conhecimento no Brasil. Tais recursos seriam - suponho - muito menores do que, por exemplo, os custos burocráticos consumidos apenas nas meras atividades administrativas de registro e divulgação das baixas e fatalidades desta guerra sem fim.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A cada Kilowatt economizado... não acontece nada

Ricardo Goldbach

Em março passado, mais precisamente no sábado, dia 28, o mundo testemunhou um movimento denominado "Hora do Planeta". Simbolicamente, luzes de monumentos e locais públicos foram desligadas, numa tentativa de alerta para a premente causa do aquecimento global.


Segundo a Ong WWF, mais de 80 cidades brasileiras aderiram à ideia, também abraçada por centenas de empresas. Para os políticos, ao menos os do Rio de Janeiro, a adesão não passou de fanfarronice publicitária; as autoridades municipais responsáveis pela iluminação pública continuam a cobrar dos contribuintes a conta dos desperdícios elétrico e térmico. Centenas destas lâmpadas acesas durante o dia aquecem desnecessariamente o meio ambiente, só não vê quem não quer. É possível até que seja o pior - só não vê quem tem interesse na queima e reposição daquelas lâmpadas.



Eduardo Paes, aquele cidadão que o TRE diz ter sido eleito para o cargo de prefeito do Rio de Janeiro, continua a queimar dinheiro, dia e noite, principalmente de dia. Copacabana, Lapa, Ipanema... Dez horas da manhã, três horas da tarde... Escolha-se qualquer bairro, qualquer hora, e constate-se o verdadeiro crime que a Prefeitura comete contra as contas públicas, as reservas energéticas e o cada vez mais insalubre meio ambiente.

Para os técnicos que desconhecem o problema ou a geografia dos bairros cariocas, as fotos, feitas no cruzamento das ruas Tonelero e Mal. Mascarenhas de Moraes, já são um bom começo. Caso o prefeito continue ignorando a Lei (como a ignora em inúmeros outros temas), corre o concreto risco de responder a Ação Civil Pública por infração ao disposto na Constituição Federal, e cujo patrocínio cabe mandatoriamente ao Ministério Público Federal, eis que a CF protege direitos coletivos:



"CAPÍTULO VI
DO MEIO AMBIENTE

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações".

Há alguém do MPF na platéia?

Arquiteto real projeta museu virtual, o Museu da Corrupção

Ricardo Goldbach

Formado em Arquitetura, com direito a Juscelino Kubitschek como paraninfo da turma, o mineiro Rodrigo de Araújo Moreira, de 78 anos, é um premiado profissional do mundo real. Fortemente influenciado por Oscar Niemeyer, Rodrigo é responsável por projetos tais como o escritório da Usiminas, em Itabira, a sede do Clube de Regatas Vasco da Gama, em Santos e a sede do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) de São Paulo. Desta vez Rodrigo inovou, ao projetar o Museu da Corrupção, transposto da prancheta real para o universo virtual por estudantes de arquitetura contemporâneos.

O museu, que de virtual tem apenas o substrato, foi concebido com base em conceitos arquitetônicos para abrigar a história moderna e concreta da corrupção no Brasil. O visitante pode navegar através dos itens do acervo, dispostos ao longo de salas constantemente abastecidas com novas peças.

Ao contrário das enfadonhas porém tristemente verdadeiras colagens de casos de corrupção que circulam atualmente por e-mail, o Museu da Corrupção tem o mérito de permitir, ao mesmo tempo, a visitação não linear e o aprofundamento em conteúdo textual e infográfico amenizados pela crítica satírica.

Esta iniciativa, patrocinada pelo jornal Diário do Comércio, de São Paulo e sob curadoria da jornalista Regiane Bochichi, reflete com infeliz acerto a necessidade - nestes tempos de inimaginável desgaste das instituições políticas brasileiras - de não se deixar a história contemporânea ficar relegada aos recantos dispersos e voláteis da memória coletiva. Seria melhor que sua existência fosse desnecessária.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Glaxo, Novavax, Baxter e Gilead - a nova corrida do ouro?

Ricardo Goldbach

A evolução dos papéis das quatro empresas de biotecnologia mostra trajetórias semelhantes e convenientes. Após o pico atingido em agosto de 2008, os valores de mercado de três daquelas companhias tiveram queda constante, somente estancada pouco antes da eclosão da primeira epidemia da gripe A(H1N1), ocorrida no México em abril de 2009.











GlaxoSmithKline (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)











Gilead Sciences (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)











Novavax (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)











Baxter International (fonte: stockspy.com, acesso em 06/08/2009)


A inglesa GlaxoSmithKline é a fabricante do antiviral Relenza, sob licença da australiana Biota Holdings Ltd., que recebe como royalties 7% dos resultados das vendas. Com a estimativa da Glaxo de aumento de sua produção anual, de 60 para 190 milhões de doses, as ações da Biota tiveram uma valorização de 400% desde o início de 2009.

A Novavax é uma concorrente de peso neste mercado e anunciou, em 5 de agosto de 2009, o início da utilização de processo por ela patenteado - o Virus-like Particle (VLP) - para reduzir de nove para três meses o tempo de fabricação de antivirais contra o H1N1. Além de mais rápido o VLP é mais barato, pois não utiliza ovos de galinha preparados para cultura de virus destinados à produção de antígenos, como nos processos convencionais.

E o que é Baxter International? É a empresa norteamericana de biotecnologia responsável pelo antiviral Celvapan. Foi de uma instalação da Baxter na cidade austríaca de Orth-Donau, que escapuliu acidentalmente, em fevereiro de 2009, uma não totalmente explicada recombinação entre os virus causadores das gripes A(H5N1), a aviária, e A(H3N2), a influenza sazonal comum. O material contaminado foi distribuído para instalações fabris na Eslovênia, República Tcheca e Alemanha, onde foi utilizado na fabricação de vacinas contra o H3N2. Este grave acidente, explicado pelo porta-voz da Baxter alemã, Jutta Brenn-Vogt, e também reportado pelo Toronto Sun (Canadá), pode ser considerado uma catástrofe, pois deu ao H5N1 o grande poder de transmissão do H3N2, quando o primeiro era considerado como estando sob controle. A grande imprensa não deu mais atenção ao episódio, a quantidade e a localização das mortes resultantes da vacinação fatal não foi divulgada, e a Baxter prosseguiu normalmente no business de antivirais, as usual.

Já a Gilead Sciences é a detentora da patente do Tamiflu, fármaco produzido sob licença pela suiça Roche, mediante pagamento de royalties de 10% sobre os resultados comerciais. O Tamiflu tem como princípio ativo o fosfato de oseltamivir, um inibidor da neuraminidase - enzima que viabiliza a reprodução do vírus na célula hospedeira.

A norteamericana Gilead é uma empresa de grande peso, tanto tecnológico quanto político. De acordo com a CNN, o ex-Secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld foi presidente do conselho da Gilead entre 1997 e 2001, quando saiu para assumir a posição na equipe de George W. Bush. Mesmo afastado da direção da empresa, Rumsfeld manteve participação milionária nos reultados na Gilead, na condição de acionista. Foi Rumsfeld quem mostrou, à época da epidemia de gripe aviária de 2007 - ainda na posição de Secretário de Defesa - que os EUA tinham necessidade de estocar bilhões de dólares em vacinas.

O gráfico abaixo mostra que a preocupação de Rumsfeld fazia mais sentido para um acionista do que de para um interessado em salvaguardas da saúde pública.


(dados colhidos até julho de 2009)


quarta-feira, 15 de julho de 2009

Micronoticiário quente

Ricardo Goldbach

Michael van Poppel, um holandês de 19 anos de idade, é o novo fenômeno da mídia online. Ele iniciou, em setembro de 2007, um projeto de jornalismo online colaborativo, o Breaking News Online (BNO).

Poucos meses depois, Michael teve acesso, não se sabe como, a um vídeo inédito contendo uma declaração de Osama Bin Laden. O furo foi oferecido a várias agências, sendo finalmente comprado pela Reuters. O Twitter do BNO conta hoje com mais de 800 mil seguidores, uma audiência maior do que a da ABC News ou da Newsweek.

O que chama a atenção para este case é que não há trabalho de investigação e apuração, apenas o de agregação e difusão de notícias “quentes” (breaking news), a partir de uma rede de colaboradores. Operando com feeds, twitter e mensagens de e-mail, o BNO tem na web um mero ponto de presença, no site http://news.bnonews.com/i5xf

O próximo projeto do BNO é a transmissão de notícias para iPhone, a um custo estimado de 99 centavos de dolar ao mês. O aplicativo para download das mensagens custará 1,99 dolares.


Receita de sucesso para extinguir concorrência

Ricardo Goldbach*

A receita é simples: tente matar a concorrência com falsos anúncios, depois acuse-a falsamente pela mesma prática.

É enfadonhamente comum a desconexão com a realidade que acomete empresas bem-sucedidas. E, nesta época de tecnicalidades que se expandem enquanto dormimos, fica mais difícil ainda tomar as rédeas de nosso dia a dia. A onipresente Microsoft é um caso típico de avassalador cinismo e descaso em relação à clientela - praticamente o planeta inteiro. Esta constatação não é parte de nenhuma campanha de difamação: a Microsoft não precisa de detratores, pois dá conta do recado sozinha.

A companhia cresceu à sombra de práticas predadoras, desde a cópia da interface do Windows como a conhecemos - idéia original da Apple, baseada em objetos e mouse - até a destruição dos negócios de pequenos concorrentes. Usuários do PC-XT, por exemplo, conheciam um ótimo software de desfragmentação de disco, o OPTune, da Gazelle Software. Através de acordo, a Microsoft absorveu o OPTune, incorporou-o - com menos funcionalidades (possibilidade de alteração do interleave de setores, por exemplo) - ao MS-DOS 3.1, e o OPTune independente sumiu. A concorrência saudável desapareceu, assim como era comum sumirem os dados de muitos usuários do péssimo desfragmentador que passou a vir embutido no MS-DOS.

Após terem cometido coisas como o Windows 95 ou o Bob (alguém já ouviu falar desta interface criada por Melinda Gates, esposa de William?), os hunos de Redmond conseguiram finalmente inovar: ao saberem que a concorrência trabalhava em algo, passavam a anunciar - para dentro de meses - produtos superiores, que jamais iriam lançar ou lançariam anos depois. Como consequência, o mercado, sempre de olho num produto com a grife MS, dava preferência ao que não viria, e a concorrência era desestimulada. Esta prática foi muito comum nos anos 80 e 90, mas resiste até hoje. Às vêzes ela nem se destina à aniquilação da concorrência, apenas a iludir consumidores ou encobrir incompetências - como é o caso do WinFS; presente nas especificações do Longhorn em 2004, o supostamente inovador sistema de arquivos sumiu quando aquele sistema operacional, já batizado como Vista, foi lançado em janeiro de 2007. No decorrer daqueles três anos de expectativas em suspenso, cunhou-se, para o Longhorn, o merecido apelido de "Longwait". Já em tentativa de esmagar a concorrência da Novell no segmento de redes, o Microsoft Windows NT 5.0 (ou Windows 2000) teve seu lançamento adiado por três anos, numa estratégia comercial alavancada por problemas técnicos.

Mas o que a Microsoft fez, ao instalar-se confortávelmente na poltrona do virtual monopólio? Passou a ignorar controles de qualidade e marketing (estudo das necessidades do mercado, não confundir com publicidade), perpetrando produtos como o Vista, um erro desde o surgimento; além da ausência de características prometidas (como o WinFS), faltou comunicação proativa com fabricantes de periféricos e respectivos device drivers. Como consequência, era impossível fazer funcionar webcams, scanners, placas de áudio ou vídeo e por aí vai. E o que a Microsoft fez, ao detectar o desastre anunciado? Tentou ganhar fôlego financeiro, inflando artificialmente as vendas do Vista, empurrando-o em operações de venda casada ao redor do mundo, embutido em equipamentos novos. Ouvi pessoalmente a confirmação desta prática, vinda de um atendente de suporte da Dell. Segundo esta fonte, havia um acordo com a Microsoft, no sentido de que a Dell não fornecesse suporte técnico a clientes que optassem pelo XP pré-instalado, ao invés do Vista. Comprador de Vista tinha suporte, comprador de XP não. E, por recusa a fornecer suporte, entenda-se também a recusa em disponibilizar device drivers para instalação de periféricos sob o XP... Assim é fácil vender mais algumas dezenas de milhões de réplicas de um ôvo podre, não é?

Mas tem mais: falhas crônicas e já detectadas no projeto de componentes como o ActiveX ou do Internet Explorer têm sido e continuarão sendo portas escancaradas para ataques de hackers de chapéu preto (os black hats, que se opõem aos white hats, os do bem). O mundo gira e recebo, neste 15 de julho, um alerta de segurança da Computerworld (mais um...), reportando que
"A Microsoft divulgou nesta terça-feira (14/7) seis atualizações de segurança para corrigir nove vulnerabilidades em seu pacote mensal de correções, conhecido como Patch Tuesday".
Uma das falhas corrigidas neste patch é um
"bug no controle ActiveX [que] havia sido relatado à Microsoft há mais de 15 meses" [grifo meu].
Esta brecha que afetava o Internet Explorer e da qual a Microsoft tinha ciência há mais de um ano, vinha sendo cada vez mais explorada em ataques a usuários nos últimos tempos. Já o conserto de outra falha, que também afeta a segurança de usuários do IE, porém descoberta na véspera da distribuição do pacote de remendos, vai ficar para uma outra ocasião. Não parece coisa de quem precise concorrer para sobreviver.

Mas, juntando o desleixo ao condenável, nesta mesma data Steve Balmer, CEO da Microsoft, declara que o anúncio do Chrome OS é "vaporware", segundo o IDG Now. Ora, vaporware é o nome que se dá àquela prática lapidada pela Microsoft, de prometer o que não entregará, visando prejudicar a concorrência. É o software vapor, aquele que se desmancha no ar, que não se pode tocar e muito menos utilizar.

Apenas para alinhar os ponteiros, o Chrome OS é um sistema operacional projetado pelo grupo Google para utilização em netbooks, um forte concorrente de uma futura versão light do Windows 7, o sucessor do Vista. Após o lançamento do Android, para celulares e smartphones, o Google investirá em computadores propriamente ditos, de olho também no mercado de notebooks e desktops.

Mas Balmer vai mais longe e diz que "pelo que sei você não precisa ter dois sistemas operacionais. É bom ter um". Como assim, Steve? Windows Mobile 6.5 (lançado em maio de 2009), Windows Mobile 7 (já anunciado como sucessor do recém-lançado 6.5), Windows HPC Server 2008, Windows Server 2008, Windows Home Server(!), Windows Vista, Windows 7 (que tampona provisoriamente o fiasco do Vista), Windows Azure (voltado a cloud computing, com lançamento previsto para 2010)... as superposições na linha do tempo não são poucas. A Microsoft observa tanto o quintal dos vizinhos, buscando cachorros pequenos, que mal sobra percepção para o elefante às suas costas.

Skype x Messenger, Gmail x Hotmail, Firefox x Internet Explorer, Android x Windows Mobile, Thunderbird x Outlook, Linux x Windows... é bom viver num mundo tecnológico que seja ao menos dual. Um concorrente não desprezível do Windows em alguns nichos de utilização, o Linux é - como talvez o Chrome OS venha a ser - um dos alvos prioritários do desdém da Microsoft e da massa de ecos de um mercado que parece anestesiado. Se Linux fosse realmente um brinquedo hermético de nerds, como se diz, a IBM não se daria o trabalho de pré-instalá-lo em máquinas como o IBM 390, como no caso da Caixa Econômica, por exemplo; ainda que a Caixa use a plataforma OS 390 naquele monstro configurado em dupla redundância, ele é simplesmente o responsável pelo processamento de toda a área não-bancária da Caixa - coisa de gente grande.

Já as táticas fabris, mercadológicas e publicitárias da Microsoft, estas continuam sendo coisa de gente eticamente pequena.

____

* O autor tem mais de 30 anos de experiência em TI, em ambientes de
mainframes, minicomputadores, supermicrocomputadores e microcomputadores, nas atividades de levantamento de requisitos, projeto, desenvolvimento, testes e homologação de sistemas, suporte, administração de dados e de bancos de dados, treinamento e coordenação de equipes de desenvolvimento.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A artista plástica Lena Bergstein expõe no Rio





Lena Bergstein é pintora, gravadora, professora de desenho e gravura, e programadora visual. Mora no Rio de Janeiro, onde nasceu.

Cursou o Instituto de Belas Artes (hoje Escola de Artes Visuais) e o atelier de Gravura do Museu de Arte Moderna do Rio;

Participou das mais importantes bienais de gravura nacionais e internacionais, como Curitiba, Ljubljana, Miami, Fredrikstad, Bradford, Taiwan e Montevideo;

Expôs gravuras e pinturas na Petite Galerie, pinturas na galeria Cândido Mendes, montou a instalação Tenda no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Expôs pinturas e os originais do livro "Enlouquecer o Subjétil" no Paço Imperial;

Expôs ainda na Galeria Segno Grafico (Itália), Centro Internazionale di Grafica (Itália), Biblioteca Wittockiana (Bélgica), e Galeria Debret (Paris);

Morou dois anos em Paris, onde participou dos seminários de Jacques Derrida: "Questions de Responsabilité: Du secret au témoignage" e "Hospitalité et Hostilité";

Ganhou o Prêmio Jabuti pela melhor produção editorial de 1999 com o livro "Enlouquecer o Subjétil", criado em parceria com Jacques Derrida;

Lecionou técnicas alternativas de gravura e iniciação à gravura na PUC/RJ, entre 1980 e 1983;

Lecionou desenho de observação, no Departamento de Artes da PUC/RJ, entre 1997 e 1998;

Deu aulas na Escola de Artes Visuais do Parque Lage;

Apresentou, em janeiro de 2003, "Tramas", exposição de pinturas na Sílvia Cintra Galeria de Arte, e "Amarelo Cromo", exposição de gravuras, no Museu da Chácara do Céu;

Expôs telas e gravuras, no Istituto Ítalo Latino-Americano (Roma) e na Scuola Internazionale di Gráfica (Veneza), em 2004;

Participou da exposição coletiva “Só Pintura”, na galeria Mercedes Viegas, Arte Contemporânea, em 2006;

Participou da exposição “Manobras Radicais” no CCBB de São Paulo, em 2006;

Expôs "A Escrita do Silêncio", em 2004, no Solar de Grandjean de Montigny (PUC-RIO), trabalho sobre o qual escreveu:


A Escrita do Silêncio

Muitas coisas se passaram nesses últimos anos e meu trabalho foi gradualmente mudando. Reparei que as escritas de letras e palavras que impregnavam o trabalho foram se tornando mais espaçadas, mais esgarçadas, e foram pouco a pouco desaparecendo, dando lugar a uma outra escrita, bem diferente, mas que já aparecia pontualmente em desenhos e telas anteriores. Eram costuras, primeiro à mão, depois à máquina, à mão e a máquina, uma tessitura de pontos, linhas, nós, cerzidos, alinhavos, pespontos, pontos em ziguezague.

Se a escrita fonética de textos e palavras me parecia agora excessiva, barulhenta, as costuras a substituíam por um certo silêncio, uma pausa, um vazio povoado de possibilidades."Este é um livro silencioso, e fala, fala baixo", escreve Clarice Lispector, ou ainda como diz Rabi Nahman de Bratislav, numa de suas parábolas, "ele tocava um violino mudo - ou quase, pois o rei acabou por captar uma nota extremamente delicada".

O único ruído que se ouvia era o toque toque toque, da máquina costurando, os ritmos cadenciados do costurar, do cerzir, do levantar a sapatilha que, por sua vez, levantava a agulha e a linha principal, o retrós, do virar o tecido mudando o rumo da costura. Às vezes era necessário enrolar outra vez a linha da carretilha, ou bobina, que ficava embaixo do retrós. O ruído da carretilha enrolando a linha a toda velocidade e depois recolocá-la numa espécie de caixinha, fechar a tampa, abaixar a sapatilha, descer a agulha e a linha e outra vez toque toque toque.

Apesar de não se chamar retrós ou linha mestra, era a linha mais fina da carretilha (ou bobina) que dava solidez e consistência à costura. Mesmo que só aparecesse inteiramente no avesso do tecido, era ela que estruturava a costura e que a prendia ao tecido, arrematando-a.

A busca de uma extrema simplicidade, um quase nada trabalhado que desse a impressão de um se despir, era a trajetória que o trabalho tomava. E eu o seguia.

Através dessas linhas trançadas e costuradas, uma outra questão foi de repente vislumbrada. No texto Un Ver à Soie, de Jacques Derrida, do livro Voiles, me fascina a frase "une femme tisserait comme um corps secrète pour soi son propre textile". Comecei a pensar que a partir das linhas costuradas estaria tecendo uma tessitura, uma veste, um xale, o meu próprio, o meu xale.

Esse xale seria de um tecido da Babilônia, do linho mais puro, bordado de jacintos, de anêmonas violetas, de escarlate e de púrpura, das flores silvestres que traziam o índigo. Seria têxtil, táctil, "doçura mais doce que a própria doçura", uma outra pele, incomparável a qualquer outra pele. Ele não velaria nem esconderia, não mostraria nem anunciaria - ao contrário, ele traria a memória.

Meu xale, todo singular, sensível e calmo, que ia se criando a partir do meu trabalho, uma manufatura de telas, um entrelaçar de fios e fibras...

A leitura do texto Un ver à soie foi da ordem de um acaso, de um encontro que estimula e provoca, que vem se acrescentar a uma elaboração já em andamento abrindo novas nuances de horizontes possíveis. Ampliou minha relação com as tramas, as urdiduras, a tecelagem, fios torcidos e retorcidos, trançados, tecidos sucessivos e infinitos.

O que também ecoou dentro de mim, e "que se joga no tecido desse texto", é sua relação com o fazer da arte, com a criação, ao mesmo tempo com a subjetividade do artista. Constante e lenta elaboração, no diminuir e aumentar os pontos de uma trama, no fazer e desfazer das malhas. Transformação incessante e permanente, pela qual as coisas se criam e se dissolvem em outras coisas, algo que não é, mas se torna, que existe em constante alteração. Um se perder e se reencontrar, nascimento contínuo, que conduz a arte através da noite, mais longe que o visível ou o previsível, experiência muda de um sentido mudo.


sábado, 4 de julho de 2009

Jânio Quadros - um acerto e um erro

Ricardo Goldbach

Em saborosa matéria de Augusto Nunes sobre Jânio Quadros, publicada na Veja de 4 de junho de 1980, um box traz impressões do ex-presidente sobre pessoas e temas.

É impressionante constatar, neste final da primeira década dos anos 2000, como Jânio conseguiu acertar e errar tanto, ao mesmo tempo.



reprodução do acervo digital da revista Veja, originalmente sem as marcações

terça-feira, 30 de junho de 2009

Ações afirmativas, resultados negativos

Ricardo Goldbach

(foto de Christopher Capozziello, The New York Times)
O Corpo de Bombeiros de New Haven, cidade do estado de Connecticut, realizou, no ano de 2003, exames para promoção aos postos de tenente e capitão. Como nenhum candidato negro conseguiu ser aprovado, a prefeitura houve por bem anular o exame, alegando que não queria ferir as leis dos direitos civis, vigentes desde a década de 1960. Em português claro, a administração temia processos judiciais por discriminação racial. Os 19 bombeiros brancos aprovados recorreram à Corte de Apelações e foram derrotados, mas uma decisão tomada pela Suprema Corte norte-americana neste dia 29 de junho reverteu a primeira sentença, por cinco votos contra quatro, expondo os limites do que se convencionou chamar de ação afirmativa, também conhecida como "discriminação positiva". De acordo com o voto do juíz Anthony M. Kennedy,
fear of litigation alone cannot justify an employer’s reliance on race to the detriment of individuals who passed the examinations and qualified for promotions.
(o mero receio de litígio não justifica que um empregador tome decisões com base em questões raciais, em detrimento dos indivíduos que foram aprovados e se qualificaram para as promoções).
Uma coisa é lutar para que seja assegurado a um cidadão negro o direito de sentar-se em um ônibus, sem a obrigatoriedade de cessão do lugar a um branco, como o fez Martin Luther King, com o posterior apoio de John F. Kennedy, nas décadas de 1950 e 1960. Outra coisa seria considerar válidos somente os concursos que tivessem representantes da etnia negra ou de qualquer outra, "positivamente discriminada", entre os aprovados.

Aparentemente, na raíz das distorções cometidas em nome da democracia está justamente a distorção do conteúdo semântico de "democracia". Com o significado original de "governo exercido em nome do povo" (demos kratein), "democracia" passou, por corruptela, a designar incorretamente o exercício da democracia direta (governo exercido diretamente pelo povo), o que termina por abrigar reivindicações de direitos abusivos, ou mesmo imaginários.

Um bom exemplo desta distorção são as eleições para elaboração da lista de candidatos a reitor das universidades públicas brasileiras. Votam alunos, professores, funcionários de segurança e conservação patrimonial, ainda que com pesos diferentes por categoria. Esta assim chamada "congregação" não tem plenas condições de avaliar os méritos administrativos e acadêmicos dos candidatos, e por vezes tornam-se dócil massa de manobra de movimentos sindicalistas, cujos projetos de poder ultrapassam as fronteiras da academia. Esta também é a opinião de Jacques Schwartzman, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG e ex-membro da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional da Educação:
"... com algumas exceções, só disputa a eleição quem tem capacidades histriônicas e políticas. Pouco importa a qualidade como administrador. A equipe do reitor também acaba por refletir a composição política que o elegeu, e não necessariamente os mais aptos".
Basta conversar com alunos que convivem com os agraciados pelo sistema de cotas, nas universidades, para se constatar o quão perverso é o resultado. Aulas de "nivelamento" são insuficientes para dotar os quotistas de capacidade para acompanhamento das aulas convencionais, e o resultado é o nivelamento do conteúdo, por baixo. Que profissionais podem sair de tal sistema de ensino, senão os frutos estragados deste nivelamento? Pode parecer "politica" ou "racialmente" incorreto, mas o fato é que cabe ao Estado prover melhor preparo ao ingresso na universidade, ao invés de loteá-la, num processo de diminuição da qualidade de ensino. A pretensa compensação não vale, em absoluto, o irreparável estrago causado.

Enquanto as vagas nas universidades públicas brasileiras são franqueadas - num grotesco e populista processo de mea culpa - a quem não tem mérito intelectual minimamente suficiente, em New Haven, pelo menos, os mais aptos comandarão os bombeiros. Independentemente da pigmentação da pele, como deve ser, já que o fogo não reconhece políticas de cotas.


sábado, 20 de junho de 2009

Sobre jornalistas não diplomados

Ricardo Goldbach

As discussões sobre a discutível decisão do STF são muitas vezes temperadas por paixões; de um lado, citações a Fernando Gabeira e Ricardo Kotscho, ambos bem-sucedidos representantes da ala dos sem-diploma, numa argumentação contrária à necessidade de graduação específica. Do outro lado estão posições apaixonadas em defesa do que poderia passar por uma legitimação de reserva de mercado ou por grita classista de igual teor.

Mas é preciso lembrar que o STF não está a serviço apenas do lógico, do razoável, do esperado ou do óbvio previamente codificado; como a própria instituição tem demonstrado nos últimos tempos, interesses políticos, patronais, menores mesmo, são ali fatores de determinação, numa evidência da falibilidade - de boa ou má-fé - que caracteriza os feitos humanos.

Se o que alegadamente se consegue agora, com a decisão do STF, é a universalização da liberdade de expressão, eu pergunto: se um julgamento em tribunal é uma manifestação argumentativa de posições contraditórias, porque não posso me candidatar ao exercício da função de Defensor Público? Ou de Promotor de Justiça? Afinal, possuo capacidades mínimas de expressão e argumentação que me permitissem a aventura. Mas já conheço a resposta: o exercício daquelas funções pressupõe conhecimentos acerca dos códices, da teoria, da praxis e da ritualística envolvidas nas lides processuais. Não seria o caso, então, de o STF informar-se melhor - isso mesmo, informar-se melhor - e levar em conta o que a ementa de um curso de Jornalismo efetivamente acrescenta ao cidadão que, a princípio, tem apenas mero gosto pela coisa? Do domínio das técnicas de reportagem à compreensão fundamental das categorias éticas e jurídicas envolvidas na abordagem jornalística de uma pauta, passando pelo estudo e meditação sobre os aportes humanísticos oferecidos por saberes tais como o da filosofia, sociologia e antropologia, não é pouco o que difere um escrevinhador de um jornalista, e para muito melhor, no caso em questão.

O exemplo de jornalistas famosos e não-diplomados, como Gabeira e Kotscho, não deve ser tomado como pá de cal no debate, uma vez que já houve um tempo na História no qual absolutamente nenhuma profissão era regulamentada. Ainda assim casas eram construidas, gado era transportado, abatido e vendido, mercadorias eram comercializadas em feiras, curandeiros curavam. Mas a ausência de regulamentação prévia não aboliu a necessidade de estabelecimento de códigos e normas de conduta profissional ou exigência de formação específica. Pelo contrário, qualquer profissão que hoje envolva responsabilidade moral ou material é muito bem regulamentada. E no que consiste o exercício do jornalismo, senão no fornecimento de um produto - informação apurada e tratada, com linguagem adaptada ao veículo - que pode causar danos morais e materiais em caso de defeito de fabricação?

Vejo também muita confusão ser causada pela mistura, em um único saco, das funções de repórter e de articulista, por exemplo. O primeiro cumpre pautas pré-definidas, sendo levado às tarefas de pesquisa, apuração de fatos e entrevistas, tudo para relatar algo de interesse da sociedade, com objetividade que rejeite os "achismos" e opiniões do profissional. A linguagem deve ser direta e correta, em texto bem encadeado e fiel a fontes gabaritadas e documentos idem. Já ao articulista, categoria em que são encontrados os contra-exemplos da atualidade, é permitida a expressão de opinião, em função de sua própria e notória trajetória pessoal ou profissional. Desta forma, se vê diariamente artigos escritos por médicos, advogados, filósofos, economistas e clérigos, sem que isso configure exercício ilegal de profissão.

A argumentação favorável à liberalização do exercício da profissão de jornalista, segundo a qual a Lei de Imprensa era um entulho do autoritarismo a ser removido, também não se sustenta. Pelo contrário, o "é proibido proibir", que surgiu na França como resposta aos tempos de treva dos anos 60, tem desaguado cada vez mais em leniência e permissividade, num movimento pendular oposto, que confunde autoridade com autoritarismo, e que produziu efeitos até na educação de crianças e adolescentes, uma vez que reprimir "é feio", passou a ser politicamente incorreto.

Como subproduto benéfico da decisão do STF, tenderão a sobreviver as instituições realmente capacitadas e dedicadas à formação de profissionais; aquelas a que se convencionou chamar de caça-níqueis tenderão a desaparecer, sepultadas pelo ainda menor valor dos diplomas que imprimem e vendem em prestações mensais.

Por fim, como exemplo extremo de ataque a uma suposta reserva de mercado, descubro texto no site do Observatório da Imprensa, de autoria do jornalista Maurício Tuffani. A peça é coalhada de citações, reproduções e até mesmo de expressões matemáticas - que se estendem por três estéreis parágrafos - tudo em formato reconhecidamente acadêmico. Chega a lembrar o que o psicanalista Eduardo Mascarenhas, opositor intelectual de José Guilherme Merquior, classificava de "terrorismo bibliográfico", tamanha a intenção de fazer o leitor perder-se ao acompanhar a ancoragem dos argumentos em terceiros eruditos.

Vertendo para a forma textual minha resposta à Lógica Proposicional de Primeira Ordem empregada por Tuffani para desqualificar por completo a necessidade de diploma para o exercício da profissão de jornalista, e igualmente empregando aquela lógica, me restou concluir, em resposta ao autor, que:
  1. favelas consistem de uma enormidade de edificações erguidas em encostas de substrato rochoso, de configurações topográficas e geológicas de contorno sabidamente não trivial;

  2. as ditas edificações, como também se sabe, são erigidas por pedreiros, carpinteiros, mestres de obra e assemelhados;

  3. logo, não é necessário que alguém seja diplomado em Engenharia Civil para construir, com sucesso, casas em encostas de formação geológica rochosa, quod erat demonstrandum.

Mas prefiro me alinhar com o professor de Legislação e Ética no curso de Jornalismo da Univali (SC), doutorando em Jornalismo na USP e Assessor de Comunicação do Ministério Público da Federal, Rogério Christofoletti, quando ele diz que:

"Dispensar o diploma hoje é como rasgar o documento do obstetra e reconvocar a parteira em seu lugar. Ela pode ser hábil, atenciosa e certeira, mas não teve acesso aos conhecimentos do médico, não dispõe das mesmas condições de operação e expõe as gestantes a riscos maiores. Tempos atrás, quase não havia obstetras, e sempre se recorria às parteiras. Mas o tempo passou, e jogar o diploma do médico no lixo é voltar atrás, permitir-se involuir".

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Economia e Sincronicidade


Num desses acasos que insistem em acontecer, imediamente após o post sobre Franco Modigliani recebo por e-mail a fábula abaixo, que faço questão de compartilhar aqui.

===


"Numa pequena vila na costa sul da França chove e nada de especial acontece. A crise é sentida. Todo mundo deve a todo mundo. A população está carregada de dívidas...

Subitamente, um rico turista russo chega ao foyer do pequeno hotel local. Ele pede um quarto e coloca uma nota de cem Euros sobre o balcão. Pede uma chave de quarto e sobe ao 3º andar para inspecionar o quarto que lhe indicaram, na condição de desistir se não lhe agradar.

O dono do hotel pega a nota de €100 e corre ao fornecedor de carne a quem deve €100. O talhante pega o dinheiro e corre ao fornecedor de leitões a pagar €100 que devia há algum tempo.

Este, por sua vez, corre ao criador de gado que lhe vendera a carne e este corre a entregar os €100 a uma prostituta que lhe cedera serviços a crédito. Esta recebe os €100 e corre ao hotel a quem devia €100 pela utilização casual de quartos para atender clientes.

Neste momento, o russo desce à recepção e informa ao dono do hotel que o quarto proposto não lhe agrada, pretende desistir e pede a devolução dos €100. Recebe o dinheiro e sai.

Não houve neste movimento qualquer lucro ou valor acrescido. Contudo, todos liquidaram as suas dividas e estas pessoas da pequena vila costeira agora encaram o futuro com otimismo.

Dá o que pensar..."


Abrindo uma exceção, para Franco Modigliani

ou "uma previsão sobre o estouro da 'bolha' econômica"

Ricardo Goldbach

Vou fazer um Ctlr-C / Ctrl-V, apesar do motto deste blog.

O caso é que o laureado com o Prêmio Nobel Honorário de Economia de 1985, Franco Modigliani, merece ser reconhecido por sua visão inteligente e premonitória, apesar de a premonição não ser aqui um dom metafísico, mas antes uma capacidade de interpretar fenômenos e acontecimentos dos processos econômicos que, queiramos ou não, regulam nossas vidas. Reproduzo aqui uma brilhante antecipação daquele economista, falecido em 2003, do momento que vivemos, em tempos de crise econômica de escala planetária, na forma de matéria de Floyd Norris, originalmente veiculada no The New York Times em 01/04/2000, e posteriormente reproduzida no Estado de São Paulo e no site do Observatório da Imprensa. É leitura de qualidade.

Observação: o prêmio ao qual a matéria de Norris faz alusão, o Nobel Memorial Prize de Economia, não tem associação direta com os desígnios originais de Alfred Nobel ou com o Prêmio que leva seu nome. À época da concessão, tal distinção levava o nome de Prêmio Sveriges Riksbank de Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel. Esta associação entre o prêmio concebido pelo Banco da Suécia e o nome de Nobel é repudiada pelos herdeiros do inventor sueco, segundo matéria do Le Monde Diplomatique veiculada na edição online de 12/02/2005, assinada por Hazel Henderson. Uma versão traduzida desta matéria pode ser encontrada aqui, sob o título "A impostura do Nobel de Economia". No entanto, o site oficial do Prêmio Nobel faz menção a Modigliani como sendo o laureado em Economia, no ano de 1985.

Vamos ao Ctrl-V da matéria de Floyd Norris, que é o que interessa.

===

Nobel de economia prevê estouro da ‘bolha’


"Franco Modigliani afirma que a atual mania por ações da Internet e de outras companhias de tecnologia não é irracional. Entretanto, é uma bolha, e vai explodir. ‘Posso mostrar, com precisão, que há dois preços para uma ação’, afirmou Modigliani, em entrevista telefônica. O preço que ele prefere é o baseado em fatores fundamentais, como lucros e índices de crescimento.

‘Mas’, acrescentou, ‘a bolha é racional, de certa forma.’ A expectativa de crescimento produz o crescimento, que confirma a expectativa. As pessoas comprarão a ação porque seu valor aumentou. ‘O problema é que o preço de bolha é naturalmente instável’, admitiu. ‘Ele só continuará a aumentar enquanto as expectativas continuarem a crescer’, diz. ‘Mas assim que os investidores se convencem de que determinada ação não está aumentando, nenhum deles estará disposto a manter um papel pelo fato de ele estar supervalorizado.’ Farão questão de vendê-lo e a ação cairá abaixo do preço determinado pelos fundamentos.

Modigliani sabe alguma coisa sobre isso. Atualmente com 81 anos, ele recebeu o Nobel Memorial Prize de Economia em 1985, em parte por causa do seu trabalho pioneiro, desenvolvido justamente em torno da análise dos fundamentos.

Um de seus ‘insights’ - que pareciam estranhos na década de 50, quando ele propôs suas teses pela primeira vez - foi o de que o preço dos valores mobiliários de uma companhia, inclusive o de ações e obrigações, deveria basear-se nos lucros esperados, descontados a uma taxa de juros apropriada. Isso também se aplica ao mercado de ações como um todo.

Sob essa luz, não é fácil racionalizar as gigantescas relações preço/lucro.

Modigliani argumenta que é impossivel, para a economia, crescer tão rapidamente quanto o mercado parece estar prevendo, ainda que algumas companhias venham a ter resultados muito bons.

‘Não se pode acreditar que os lucros das companhias continuarão a aumentar, sempre, na proporção de 7%’, enfatizou Modigliani. ‘Em algum momento, toda a renda nacional será tomada pelos lucros.’ Esses cálculos podem ser ignorados quando os investidores julgam estar testemunhando a chegada de uma nova era brihante, como ocorreu na década de 20 com o broadcasting e está acontecendo agora com a Internet. O presidente Bill Clinton será o anfitrião da Conferência sobre a Nova Economia, que se realizará na Casa Branca, na próxima semana.

Modigliani não é um homem dado a falar muito sobre o mercado de ações com freqüência. Telefonei-lhe depois de ouvir dizer que ele havia falado sobre bolhas em um discurso pronunciado na sede da Boston Security Analysts Society. No único discurso que havia dirigido anteriormente àquele grupo, em 1976, Modigliani havia caçoado de Wall Street por subvalorizar as ações.

Ele acha que as ações que compõem a Média Industrial Dow Jones poderiam cair para 8.000 ou 9.000 pontos, mas acha que as ações de companhias de tecnologia são muito mais vulneráveis. No caso da Internet, é muito dificil determinar os fundamentos para compreender até que ponto se trata de uma bolha’, afirmou. ‘Na minha opinião, há muito de bolha nessas ações.’ E então? ‘Não há bolha que se esvazie sem fazer barulho. Por sua própria natureza, a bolha tem de explodir. Eu não sei quando.’ Mas isso acontecerá e a dor será maior se a bolha for grande. Ele acredita que o Federal Reserve (o Banco Central dos EUA) tem razão em aumentr as taxas de juros, mas talvez esteja agindo lentamente demais.

Não é dificil encontrar administradores que admitam, em particular, que estão petrificados, mas seus portfólios estão plenamente investidos. A maioria deles estudou Modigliani na Escola de Administração de Empresas. A maioria viu seus pares que não compraram as ações mais ‘quentes’ perderem os respectivos empregos. Seu nervosismo aumenta com a volatilidade do mercado.

Modigliani começou a vender ações há cerca de um ano e não se desculpa por isso. ‘As únicas pessoas que se saíram bem em 1929 foram aquelas que venderam cedo demais’, afirmou. ‘O teste final ocorrerá se houver um colapso. Se não houver, eu estou enganado.’"