quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Desgoverno e niilismo

por Ricardo Goldbach

Como epílogo do deplorável espetáculo de despreparo que o governador Sérgio Cabral ofereceu ao Rio e ao mundo na noite de 15 de outubro, chega notícia, via Ancelmo, segundo a qual entre os presos pela PM (manifestantes que se encontravam na escadaria da Câmara dos Vereadores), está o pesquisador da Fiocruz Paulo Roberto de Abreu Bruno. O cientista, com quem não tenho a mais remota ligação, tem um nada magro currículo nas áreas de Engenharia Sanitária, Saúde Coletiva, Saúde Ambiental e Saneamento, além de passagens por História, Geografia e Antropologia Social, segundo me informa a Plataforma Lattes.

Pelo que aparenta ser falta de assunto (e de estofo suficiente para tratar de algum assunto), Rodrigo Constantino dedica-se, já em 16/10, ao seguinte trecho da Coluna do Ancelmo:

"Entre as 182 pessoas presas durante os conflitos entre polícia e manifestantes no Centro do Rio, ontem, está o professor e pesquisador Paulo Roberto de Abreu Bruno, da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Segundo a entidade, ele tem como um dos principais objetos de estudo a pesquisa de movimentos populares urbanos. Desde junho, vem recolhendo material de campo e fazendo registro fotográfico das manifestações no Rio de Janeiro. Paulo Bruno atua também no campo da saúde coletiva e ambiental tanto em comunidades indígenas amazônicas como em favelas."

Num desafio simultâneo ao Direito e ao Jornalismo, o articulista da Veja conclui:

"E agora temos isso: um representante, professor e pesquisador da entidade envolvido com criminosos, baderneiros, vândalos que atacam a polícia e quebram coisas nas ruas."

Estranha e precipitadamente, Constantino esperava da Fiocruz uma "nota de repúdio pela participação de um dos seus nesses atos vergonhosos e criminosos".

Baixando a bola e indo por partes, começando pelo Direito: atribuir falsamente um crime a alguém é em si o crime de calúnia, previsto no art. 138 do Código Penal, e seu autor está sujeito a pena de detenção de 6 meses a 2 anos, além de multa. Não é à toa que o Estado de Direito (não confundir com estado de direita) promove a atuação dos tribunais e o estabelecimento do contraditório, alimentados, por um lado, por inquéritos instaurados pela Polícia Civil e apreciados pelo Ministério Público e, por outro lado, pelo direito à defesa. Passados apenas dois dias, ainda se está em fase de inquérito e de indiciamentos (espera-se também que haja inquérito sobre disparos de armas de fogo com munição letal, por parte da PM). Por enquanto, qualquer imputação de crime é... mera imputação de crime.

Quanto à ótica jornalística, nenhuma novidade para quem conhece os fundamentos do Jornalismo, ou mesmo para quem aprecia estar informado sobre o mundo ao seu redor: toda e qualquer veiculação de informação dever ser precedida por apuração, pela minuciosa verificação dos fatos reportados. Pelo bom senso, o preceito deve valer também para conteúdos autorais, de opinião; caso contrário, é descrédito para quem escreve e para quem veicula.

No texto publicado na Veja, há mera releitura distorcida do texto de outrem. Nesse ponto, Constantino desvia-se de um de seus ídolos, Ludwig von Mises, economista e filósofo austríaco, refratário ao nazismo, um dos pilares da Escola de Viena, que condenou a lógica do polilogismo (trabalhar com hipóteses antagônicas como se harmoniosas o fossem): "A humanidade precisa, antes de tudo, se libertar da submissão a slogans absurdos e voltar a confiar na sensatez da razão". Segundo esse apelo, "o polilogismo é tão intrinsecamente sem sentido que ele não pode ser levado consistentemente às suas últimas consequências lógicas". Dadas as carências de sensatez e razão no libelo que Constantino brande contra Paulo Roberto e a Fiocruz, sobra apenas um polilogístico tiro no próprio pé. Dizendo de outra forma, quem distorce o que quer atacar, acaba dando sopapos no ar.

Quanto á presença do cientista na Cinelândia, nada há de estranho em ele ter estado lá para recolher "material de campo e fazer registro fotográfico das manifestações no Rio de Janeiro", à luz da informação de que o preso tem "como um dos principais objetos de estudo a pesquisa de movimentos populares urbanos". Se é verdade ou mentira, a conclusão caberá a um tribunal, não a um economista afoito. A princípio, não vejo por que duvidar da Fiocruz. Como certeza, fica o fato de a PM só ter começado a agir horas depois do início do vandalismo, optando por deixar escapar o flagrante de arruaceiros – aí sim – em pleno quebra-quebra. E o governador Sérgio Cabral, diga-se, deve ser chamado às falas para responder por isso.

Outra coisa estabelecida até aqui é que atuar no setor financeiro não instrumentaliza alguém, automaticamente, a ler e interpretar corretamente uma simples nota do Ancelmo. Quanto à exacerbação desmedida de vieses ideológicos, isso já é material para outra enfermaria, basta comparar os títulos dos dois textos.

Afirmação de Ancelmo Gois: "Entre os presos, professor da Fiocruz, que pesquisa protestos"

Conclusão de Rodrigo Constantino: "Fiocruz tem representante entre os criminosos presos nas 'manifestações'"

Fica o convite à reflexão: vamos de informação ou de deformação?



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Ritalina, Rivotril, todo mundo ri

De vez em raramente, um copy&paste:

"Pills"
(Alan Sherman, 1964)

There are pills that make you happy
There are pills that make you blue
There are pills to kill your streptococci
There are pills to cure your cockeye too

There are folks whose pills have made them healthy
There are folks whose pills have cured their chills
But the folks whose pills have made them wealthy
Are the folks who make all those pills



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Eduardo Paes, Sérgio Cabral e os Blackbacas -- tudo a ver?

Ricardo Goldbach

Chamam a atenção a passividade e a omissão do Estado, nas figuras de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, diante da previsível baderna que tem acompanhado toda e qualquer uma das recentes manifestações da sociedade civil no Rio de Janeiro. Aquele policiamento ostensivo,  competente em forjar flagrantes e espancar jornalistas, é mandado ficar ao longe ou ausente, como se tem visto, quando se trata de evitar o crime.

O que esse descerebrado acha que conseguiu? (foto: Pablo Jacob)
O que esse descerebrado acha que conseguiu? (foto: Pablo Jacob)

Pensando bem, aquelas duas autoridades(?) devem apreciar -- e muito -- ver as manifestações populares contrárias às suas pífias atuações transformarem-se numa grande mudança de assunto, nessa unânime condenação aos rebeldes sem causa, a esses idiotas que até agora não disseram a que vieram, a não ser saquear estabelecimentos comerciais e emporcalhar monumentos e prédios históricos. Pivetes mascarados, Blackbacas que tendem a esvaziar e calar a legitimidade das ruas, é o que são, além de covardes, já que precisam pegar carona nos movimentos dos outros.

Pronto, Eduardo e Sérgio: o assunto deixou de ser a remoção de dezenas de comunidades ao avesso da Justiça, não são mais as Construtoras Delta da vida, deixou-se de lado as licitações cinzentas e as fortunas duvidosas que surgem da noite para o dia com os eventos desportivos que se avizinham. Os Blackbacas já fizeram a parte deles, tirando da pauta temas que causam incômodo a vocês. Está de bom tamanho, ou vão continuar a ser cúmplices dessa baderna?



terça-feira, 10 de setembro de 2013

Cultura no lixo e lixo cultural

Ricardo Goldbach

Há poucos dias, tive a oportunidade de conhecer o escritor Cláudio Murilo Leal. Ouvi pequena palestra desse professor itinerante de Literatura (Brasil, Inglaterra, França e Espanha), finda a qual ele apresentou duas pilhas de livros, de duas obras poéticas suas. Com ar constrangido, explicou que os exemplares estavam à venda, que não os havia trazido como presentes. Mais que explicações, praticamente ofereceu pedido de desculpas por estar a vendê-los, dando relato de um evento daqueles que não precisava ter acontecido -- ou que, em tendo acontecido, melhor teria sido não presenciar.

Em ocasião passada, ao receber de editora em situação falimentar um grande lote de livros de sua autoria, Murilo havia optado por dá-los de presente ao final de aulas, palestras e conferências. Um dia, viu um dos contemplados dar uma rápida folheada no regalo e em seguida atirá-lo ao lixo. Desde então, o poeta abre mão do elegante gesto de presentear pessoas desconhecidas com suas obras.

Que tipo de pessoa atira um presente ao lixo? Mais que um presente, um livro? Me ocorre uma explicação fantasiosa, ainda que plausível: deve ser alguém que, ao invés de achar que o presente não está à sua altura, não se considera à altura do presente que ganha. Tem que ser isso, só pode ser isso, pois, do contrário, a indústria cultural – de novelas e enlatados, principalmente -- terá dado mais um passo no processo de alienação identificado por Adorno: produtos ditos culturais se destinariam apenas a fazer o trabalhador entreter-se com superficialidades entre duas jornadas de trabalho, tirando dele um de seus ativos mais preciosos, que é a capacidade de discernir o mundo por seus próprios olhos, coisa não fertilizável por, digamos, uma novela das oito (das nove?) -- cuja eficácia em sentido oposto, aliás, pode vir justamente do excesso de fertilizante oferecido.

Como diria aquele filósofo romeno, "tá danado". "Concerteza", responderia um de seus pares.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

NSA-ruled UK dumps the rule of law

by Ricardo Goldbach

Meanwhile in a former western democracy, a time machine sends David Miranda back to 1984, as government officials issue an ad hoc regulation:



A hat tip goes to Glenn Greenwald:
If the goal of the UK in detaining my partner was - as it now claims - to protect the public from terrorism by taking documents they suspected he had (and why would they have suspected that?), that would have taken 9 minutes, not 9 hours. Identically, the UK knew full well that forcing the Guardian UK to destroy its hard drives would accomplish nothing in terms of stopping the reporting: as the Guardian told them, there are multiple other copies around the world. The sole purpose of all of that, manifestly, is to intimidate. As the ACLU of Massachusetts put it:
"The real vengeance we are seeing right now is not coming from Glenn Greenwald; it is coming from the state."

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O rei morreu, viva o rei. Subtitle Workshop vs. VisualSubSync

Ricardo Goldbach

Como usuário do Subtitle Workshop há cerca de 7 anos, achava eu que todas as instabilidades do produto haviam sido sanadas com a liberação da versão 1.0.4.0 da SubtitleAPI.dll.

Não era o caso. Na última tradução que fiz ("Cartas de Iwo Jima", belíssima direção de Clint Eastwood, para o canal Fox), percebi que o SW havia corrompido mais de 1.500 tempos de entrada/saída, com a geração de frames inválidos, superiores a 29 (para um frame rate de 29.97).


Foi a gota d'água. Após um dia inteiro de retrabalho para liberar o produto, fiz uma varredura do cenário atual de aplicativos disponíveis. Dei de cara com uma joia chamada VisualSubSync. Dentre outras coisas, o VSS permite timear olhando-se a onda do áudio, e fazer a sintonia fina deslocando-se, com o mouse, as extremidades do intervalo de onda correspondente à legenda. Em cerca de 1s, crava-se entrada e saída, sendo possível a adoção de sugestão automática para a duração, em função do reading speed estipulado por parâmetro -- a produtividade sobe incrivelmente. Num dos campos de informação da interface é exibida, em tempo real, uma comparação entre o RS corrente e o ideal, à medida em que se estica ou se contrai a duração.

A gama de erros apontados e de suas características, quando se solicita um relatório, é superior tanto à do Subtitle Workshop quanto à do Horse.

Além de tudo isso, também é possível a customização das funcionalidades, pois os plugins são escritos em javascript. Por exemplo, alterei o plugin de verificação de timing para que aceite legendas coladas, e não somente as que tenham distância superior ao mínimo parametrizado. Agora meu VSS rejeita distâncias inferiores a 500ms, mas aceita as menores que 2ms (em termos práticos, zero frames), bastando eu ter alterado a linha 43 do script overlapping.js, localizado no subdiretório jsplugin do aplicativo:

de
      if ((OverlapInMs > 0) && (OverlapInMs >= VSSCore.MinimumBlank)) {

para
      if ((OverlapInMs < 2) || (OverlapInMs >= VSSCore.MinimumBlank)) {

O VSS é freeware e está disponível no Source Forge.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Beware, Zorpia scamming ahead - Cuidado, golpe do Zorpia à frente

by Ricardo Goldbach
Centuries have passed, Occam Razor still rules: Zorpia is definitely a spamming site. That' s the most simple and straightforward conclusion accounting for the spam spree fueled by Jeffrey Ng and his bad-famed, Hong-Kong based, so-called "social network", when one faces the evidences.
I've just received an e-mail from Zorpia as for some gorgeous babe having left me a message. Out of the blue, just as recommended on "Scamming 101". And, yes, I would have to go to the site address and login in order to read it. As a rule of thumb, I googled the scamming operation site's name and confirmed my first thoughts: either Zorpia is the like of another Badoo’s scamming engine or the 1.000th doomed Facebook wannabe.

C. Custer, at Tech In Asia Online Community, carried out a thorough investigative job,  comprising even personal e-mail exchange with Ng, who assured he was a good guy and unaware of  complaints. Faced with factual and solid evidences, Ng replied that "even if we assume there were 500 complaints, that represents a complaint to user ratio of only 0.0018%”. I say thousands of users and negative reviews (and still counting) dispute that claim.

One of the zillion samples out there

Wikipedia entry for the stenchy operation denounces this guy's evildoings: “Account deletion requests are not honoured and [people's] data is continuously used for outbound invitations”.
An eyebrow raise goes to the fact that Zorpia doesn’t seem to face ban issues in China. Huh? Facebook and Twitter do, but Zorpia doesn't?
Moral Decency in doing business Sheer greed Privacy concerns set aside, just figure out the mess a “friend invitation” — especially if attached to the profile picture of a smiling beauty — could bring to a jealous wife/fiancee/girlfriend’s paranoid mind. I don’t need to think about it, as I’ve been there and seen that. You really don’t need that pain in the ass; just go get yourself another wife/fiancee/girlfriend. Or not. Life goes on.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Atualização de firmware da Nikon D300 - não faça isso em casa

Ricardo Goldbach

Sobre-exposição -- o novo default da Nikon D300
(imagem: exposureguide.com)
Em maio de 2013, a Nikon liberou atualização de firmware para a D300 (de 1.10 para 1.11), anunciando suporte à AF-S NIKKOR 800mm f/5.6E FL ED VR. Embora eu não pense em gastar os mais de US$ 17 mil que a B&H pede por esta joia, sei que a Nikon embute melhorias não declaradas em suas atualizações (já tive gratas surpresas com update da D80). Assim, sem medo de ser feliz, instalei a 1.11 na D300.

Como dizem naqueles programas em que pessoas fazem coisas arriscadas, meu conselho é: "Não tente fazer isso em casa". O fotômetro encontra-se agora completamente alucinado, gerando sobre-exposições de até 3 pontos. Downgrade para a versão anterior? Nem pensar: a versão anterior não está disponível para download, já que é a originalmente instalada em máquinas novas (ao menos à época do lançamento deste modelo). O reset de 2 botões não faz qualquer diferença, o full também não. A solução, como sempre, é esperar por uma versão de correção -- que não traga novos bugs.

I decided to install the new firmware update (1.11) Nikon released for the D300 as of May, 2013, the sole benefit been announced as the support for the AF-S NIKKOR 800mm f/5.6E FL ED VR, a US$ 17K+ beast which I don't consider buying at all. But, as Nikon is known for bundling undisclosed bug fixes and minor enhancements in new firmware releases, I gave the 1.11 a try.

As they say on some TV shows, "don't do this at home" -- light metering has gone wild, with overexposure amounting to 3 EV points. As 1.10 version download is not available, here's to you, Nikon: kudos for messing with the delicate guts of my D300. Can't wait for the 1.12 amended version (or should I say 2.00?).

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[UPDATE - RESOLVIDO] / [UPDATE - SOLVED]

D300 A/B:1.10 firmware update: 
https://support.nikonusa.com/app/answers/detail/a_id/16149

Noto que o download não está disponível na página de "firmware downloads", mas na de respostas a dúvidas de usuários. Ou seja, há que garimpar muito -- ao longo das dúvidas de outros usuários -- para a solução de problemas. Mesmo assim, cheguei a esse link através de um outro fórum, não de pesquisas no site da Nikon.

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sexta-feira, 12 de julho de 2013

"O Globo" ou "O Funk"?

Ricardo Goldbach

Não trabalho no Globo nem quero isso. Sou "de fora", mas vou 'chamar a atenção para o fato' e 'criticar a forma como as coisas são feitas'. Em tempos em que a garotada pratica leitura no Facebook e escrita no Twitter, há jornalistas(?) que ainda não sabem usar corretamente os verbos de nosso idioma.

Ler um jornal escrito por gente letrada está cada vez mais difícil. E sem essa de que o Português é idioma vivo, que se transmuta e se adapta a novos tempos, usos e costumes. Lingugem falada é uma coisa, escrita é outra. Há que haver fronteiras entre baile funk e redação de jornal, como vejo a coisa.

Para mal da Comunicação, o Globo não preza o idioma, e seus funcionários (soa melhor que "jornalistas") primam por ir contra um papel secundário de um veículo de comunicação -- servir de referência para a boa escrita -- como se vê no aconselhamento abaixo, publicado em 11/07/13:
















4. Não critique a forma como as coisas são feitas. Preze pela diplomacia. Mesmo que os profissionais da empresa saibam que algumas coisas não são feitas da melhor maneira, ninguém gosta que alguém “de fora” chame atenção para o fato.


Se os funcionários (soa melhor que "jornalistas") globais ainda não entenderam a mensagem -- o que é plausível -- aí vai:
Prezar - v.t.d. (apreciar algo) - "Prezar um bom papo", "Prezar as amizades".

Primar - v.t.i.   (caracterizar-se por algo) - "Ele prima pela boa educação", "O prefeito prima pelo desrespeito às leis".
Desconhecer essas regências é coisa que não se deve fazer num jornal -- nem na primeira semana, nem nunca.

terça-feira, 9 de julho de 2013

O atendimento de emergência na visão dos profissionais de saúde

Matéria produzida a partir de entrevista que fiz, em setembro de 2008, com o prof. Jorge de Campos Valadares, pesquisador da Fiocruz/ENSP.

por Ricardo Goldbach
Estudo liderado pela psicóloga Marilene de Castilho Sá, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz, e publicado na edição de junho dos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, conclui que trabalhar em um hospital de emergência é lidar com uma demanda que não se esgota na busca por assistência médica num sentido estrito. “Usuários desses serviços também buscam sentido e amparo, pois são uma população em grande parte à margem da cidadania e das redes sociais de apoio e solidariedade”, esclarece Marilene.
"O paciente chega ao hospital procurando um amparo que vai além do atendimento médico".
Segundo o doutor em Saúde Pública pela Fundação Instituto Oswaldo Cruz/ENSP - onde é pesquisador titular - Jorge de Campos Valadares, “esse quadro não tende a se alterar enquanto não forem reestruturadas as condições de atenção primária e a infra-estrutura de oferta de serviços na área de saúde”. Valadares concorda com a autora do estudo, no sentido de que “o atendimento de emergência, especificamente, tem como ônus extra o estado emocional do paciente, que chega ao hospital procurando um amparo que vai além do atendimento médico”.
O especialista diz que a “procura pela estrutura hospitalar poderia ser reduzida com a implementação de atividades e programas de acolhimento, com esclarecimento e prevenção, fundamentados na atenção primária, regionalizada, incluindo aí o trabalho de saúde ambiental”. Não pensar desta forma, segundo Valadares, implica em “se estar continuamente apagando incêndios pontuais”, com as conseqüências recaindo sobre a população e a estrutura de atendimento.
Nas reuniões entre especialistas "muita coisa se dá de forma não transmissível, inclusive os jogos de poder."
“As políticas de saúde pública no Brasil favorecem a manutenção de uma demanda em muito superior à oferta”, diz Valadares. Para o especialista, uma política completa deveria incluir uma prática não somente pluridisciplinar, mas transdisciplinar. Segundo ele, “essa prática implica em uma travessia de confrontos, em que os investimentos afetivos são expressos e reavaliados pelo grupo multidisciplinar, composto por médicos, psicanalistas, enfermeiros, antropólogos, sociólogos, assistentes sociais, dentre outros, além da necessária disposição política de promover a transformação. Isto vai além dos dispositivos técnicos das diversas teorias”. Para o pesquisador, “o trabalho transdisciplinar é um trabalho de grupo que implica a mencionada experiência de confronto, não somente de teorias como também de experiências”, e ele lembra que “a arte da argumentação consiste em trazer a discussão para o seu próprio campo de saber”, segundo o ex-presidente da Fiocruz, Prof. Dr. Luis Fernando Ferreira.
Valadares afirma que “esses trabalhos transdisciplinares, incluindo-se aí a captação de fomento, são muito subalternos à prática política como um todo, e que a saúde pública ainda está num nível pré-freudiano. O ser humano age e produz ‘atuações’, negando que atua”. “Há comportamentos humanos que não são passíveis de ‘esclarecimentos’, pois se dão em ato e não são teorizáveis, se dão na prática dos encontros e dos desencontros”, acrescenta. Nas reuniões entre especialistas “muita coisa se dá de forma não transmissível, inclusive os jogos de poder. Em muitos hospitais se decide quem vai morrer, como uma conseqüência da escassez e do contingenciamento de verbas feitos em instâncias superiores” diz Valadares. Ele afirma ainda que “no âmbito local o investimento poderia ser melhorado através de conselhos municipais de saúde, pois as verbas seriam direcionadas para onde são necessárias, no nível da ação”.
Nosso entrevistado cita Foucault, dizendo que "não há saber sem poder", mas completa afirmando que "mesmo havendo este cuidado com os meandros do poder, pode haver a cooptação, no exercício da política de distribuição de verbas".
Quanto às pesquisas, “as decisões cabem aos pesquisadores mais articulados”, diz. “Isto poderia ser equacionado com a participação de especialistas com experiência consagrada em psicologia social, nas etapas de pesquisa, ensino e planejamento. O pensamento não pode ser baseado em certezas. Para que se tenha uma prática que não seja pré-freudiana, é necessário que se tenha em mente a afirmação de Heidegger: ‘a dúvida é a piedade do pensamento’”, afirma o cientista. “A cada minuto as certezas devem ser abaladas para que os conceitos não se transformem em preconceitos”, diz. Nosso entrevistado cita Foucault, dizendo que “não há saber sem poder”, mas completa afirmando que “mesmo havendo este cuidado com os meandros do poder, pode haver a cooptação, no exercício da política de distribuição de verbas”.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Prism, o Echelon 2.0

Ricardo Goldbach

Quem não tem lido jornais nas últimas décadas pode surpreender-se com o sistema de espionagem eletrônica Prism e seus objetivos, que o presidente Barack Obama tanto busca esconder ou minimizar. Trata-se de mais um aparato de dominação global dos EUA, operado por serviços de inteligência, a ganhar atenção da mídia, desta vez com a exposição dada por Edward Snowden.

O fato é que o Prism é como um sucessor do Echelon, turbinado com algo de Big Data. O Echelon é uma rede de coleta e processamento de dados de telefonia, fax e e-mail implementada com a cumplicidade dos governos do Canadá, Inglaterra, Austrália e Nova Zelândia. O sistema chegou a ser usado para espionagem industrial, de modo a dar às empresas sediadas nos países-membros vantagens competitivas sobre os concorrentes europeus. Foi essa a natureza da denúncia da então ministra da Justiça da Franca, Elizabeth Guigou, nos idos de 2000, segundo a BBC, em matéria com o título “França acusa EUA de espionagem”:
The Echelon surveillance network - which can intercept private telephone conversations, faxes and e-mails worldwide - had apparently been diverted to keep watch on commercial rivals.
A BBC explica:
Her comments came as a report commissioned by the European Parliament alleged that the UK was helping the US to spy on its European partners.
Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, James Rubin, fez seu papel – mentiu: "US intelligence agencies are not tasked to engage in industrial espionage or obtain trade secrets for the benefit of any US company or companies", no que foi acompanhado pelo então primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Ainda em 2000, a Wired deu atenção ao caso, sob o título “França perplexa e aterrorizada com o Echelon”.

No Wall Street Journal, em 17 de março daquele mesmo ano, James Woolsey, ex-diretor da CIA durante a administração Clinton, explica, com arrogância, “Por que espionamos nossos aliados”, em artigo que tem precisamente este título. Já no primeiro parágrafo Woolsey mostra a que veio e desmente o porta-voz do Departamento de Estado:
Yes, my continental European friends, we have spied on you. And it's true that we use computers to sort through data by using keywords. Have you stopped to ask yourselves what we're looking for?
Curiosa e inocentemente, a explicação de Woolsey diz que a espionagem permitiu que se descobrisse casos de corrupção, que então foram levados aos governos interessados, o que por sua vez alterou o resultado de concorrências. Assim, o projeto Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi ganho pela Raytheon, em 1995, porque a francesa Thomson havia subornado autoridades brasileiras. Igualmente, segundo Wolsey, numa concorrência para a aquisição de aviões pela Arábia Saudita, o consórcio europeu Airbus perdeu a vez para a Boeing porque havia subornado autoridades sauditas. O fato é que em ambos os casos empresas norte-americanas saíram-se bem.

Woolsey termina sua peroração com uma recomendação:
Get serious, Europeans. Stop blaming us and reform your own statist economic policies. Then your companies can become more efficient and innovative, and they won't need to resort to bribery to compete.
And then we won't need to spy on you.
Algo como, “Europa, pare de nos culpar e modifique suas políticas econômicas estatizantes. Se suas empresas forem mais eficientes e inovativas, não precisarão recorrer a subornos para poder competir, e nós não precisaremos espionar vocês”. Um primor de cinismo, não?

Em maio de 2001, o jornal The Guardian ainda se dedicava ao tema, fazendo um descrição sucinta do Echelon e trazendo links diversos sobre os ecos do escândalo.

Em julho de 2008, a CSN informa que o Parlamento Europeu abrirá investigação sobre o caso.

Somente agora, em meados de 2013, a exposição de Snowden consegue colocar o assunto nas primeiras páginas de todo o mundo. Old news, pode-se dizer. Mas pelo menos foi reaceso um tema sobre o qual a Casa Branca e seus cúmplices de além-mar tanto mentiram ao longo dos últimos anos. E provavelmente continuam mentindo, pois faz pouco sentido investir bilhões de dólares na coleta e filtragem de metadados, mas deixar de lado a coleta da informação propriamente dita -- o áudio de um telefonema ou o corpo de um e-mail, por exemplo -- quando relevante.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Brazilian major cities set on fire - part 1

understanding the June, 2013 riots

by Ricardo Goldbach (reporting from Rio de Janeiro)

The stunning outburst of violence that raided São Paulo, Rio de Janeiro and other major Brazilian cities presented two kinds of players. Small groups of hooligans and looters took advantage of the protests of a much larger group, the latter comprising students and workers concerned with the buildup of the corruption that is endemically spread throughout Brazilian political elites -- including the once left winged, now dominant Labor Party.


Photo by Marcelo Carnaval (Agência O Globo)
Brazilian media says that masses negative feelings were ignited by an average R$ 0,20 bus fare raise. But there is something missing here: the public transport business was recently granted some tax exemptions, provided that fares would go cheaper accordingly. However, that compensation didn't see the light and authorities played dead. Nonetheless, the mere fare raise is considered to be the initial movement's flagship, per se.

Besides that, a buildup of several factors lies behind the scenes that led to the social unrest we now see, the first of them being related to the big sporting events Brazil is going to host.

The Fifa World Cup, the Confederations Cup and The Olympics

Since Fifa first disclosed its rules regarding both World Cup and Confederations Cup, it was clear that they were kind of taking Brazil on lease. Among other things, Fifa was firm as for beverage being sold inside Brazilian arenas. National laws established a veto on liquor vending at major sporting venues, an effort to prevent violence among spectators, but Fifa won this round; Brazilian laws were revised as to comply with Fifa sponsors' needs (here, here, here, here and here). On a shameful move, federal government let to each involved city the task of handling the issue, on a local basis.

The rules imposed by Fifa established an exclusion zone of 100m radius around places holding official Fifa events, which extends to 2km when it comes to the sporting venues, where the selling of food and beverage of non-official sponsors brands is precluded.

Photo by Tiago Di Araujo (redebahia.com.br)
































Most surprisingly, "baianas" (women named after Bahia state), who sell a typical dish known as "acarajé", both on streets and at sporting venues, were forbidden to run their business inside the arenas. As popular outcry was huge, some arrangements took place in order to honor the most valuable tradition of the "baianas" (here and here). But the damage is visible, since Fifa proved able to make way through -- and even against -- Brazilian laws and traditions.

On a side note, few days ago Brazilian president Dilma Roussef was heavily booed when, sided by Fifa president Joseph Blatter, attended the opening of the Fifa Confederations Cup.


    

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Sobre charretes e computadores

Ricardo Goldbach

O portal de jornalismo Comunique-se traz, no dia 04/06/13, uma matéria sobre a onda de demissões que atingiu jornalistas do grupo Folha -- um "passaralho", como se costuma chamar.

Dos fatores que podem contribuir para estreitar o mercado de trabalho de jornalistas, dois são determinantes:  a existência de um governo avesso ao papel investigativo da imprensa e a irreversível migração dos veículos para o meio digital. Ficarei com este último.

À época em que eu trabalhava na Cobra -- para quem nasceu depois nos 70, naqueles anos a Cobra Computadores Brasileiros S.A. desenvolvia desde projetos de placas até compiladores e linguagens de programação, passando por assistência técnica em campo -- o Brasil vivia uma onda desenfreada de informatização dos negócios. Com a mesma intensidade, os sindicatos gritavam alertas de que a informatização levaria à redução da oferta de postos de trabalho.

Talvez, por eu ter viés de um trabalhador da indústria de computadores, eu comprava um peixe que era muito vendido: "Os postos de trabalho não vão desaparecer; haverá apenas a necessidade de os trabalhadores se adaptarem para preencher os novos postos de trabalho". A falácia ia além, descendo a exemplos: "Quando o automóvel surgiu, bastava que os charreteiros aprendessem a dirigir. O emprego não desapareceu, apenas mudou de cara".

Acreditei nisso por algum tempo, até que estendi um pouco aquele raciocínio. Com os motores a explosão não vieram apenas os automóveis; vieram também os ônibus, que levavam, de uma só vez, mais passageiros do que as antigas charretes e carruagens. Apenas como exercício de raciocínio, suponhamos que uma charrete levasse quatro pessoas, ao passo que um ônibus primitivo conduzisse, digamos, uns vinte passageiros. Assim, um charreteiro virou motorista de ônibus, enquanto quatro outros tiveram que inventar outro modo de ganhar a vida.

Enquanto isso, na época das cavernas...

Anúncio de emprego publicado no JB (18/12/1969)
Trazendo aquele cenário para época mais recente, lembro-me de quando as agências bancárias tinham listagens, atualizadas diariamente, contendo os saldos de todos os correntistas. Desse modo, quando eu queria sacar dinheiro da minha conta, na boca do caixa, o funcionário ia consultar meu saldo e anotava na listagem o valor que eu queria sacar. Antes disso, ele conferia visualmente minha assinatura, é claro, comparando-a com a que constava na minha ficha de correntista, que estava armazenada num armário, em algum canto da agência. Ao final do dia, as listagens contendo as anotações feitas à mão eram devolvidas ao CPD (centro de processamento de dados) do banco, onde digitadores (provavelmente em perfuradoras IBM 026, antecessoras das saudosas 029) preparavam as massas de cartões que atualizariam os saldos armazenados nos computadores.

É fácil olhar para essa cena e associá-la à época das cavernas, diante dos atuais cartões bancários chipados cuja senha é a palma da minha própria mão. Por outro lado, desapareceram funções administrativas tais como confrontar assinaturas, anotar saldos e perfurar cartões para atualização de contas. No lugar daqueles funcionários estão hoje os programadores de Visual Basic, COBOL e CICS, além de batalhões de analistas e gerentes de projeto, mas em muito menor quantidade, comparando-se relativamente.

Voltando à imagem dos charreteiros, é como se os quatro desempregados tivessem que ir estudar Odontologia, por exemplo. Antigos trabalhos são extintos, novos surgem em seus lugares, mas a quantidade de postos de trabalho é reduzida. Neste cenário não há lugar para adaptação; trata-se, mesmo, de reorientação profissional, se é que isso está ao alcance de um trabalhador técnico ou administrativo de nível médio.

Os Jetsons chegaram. E agora?

Quando os Jetsons encarnavam o divertido paradigma da sociedade do futuro (inclusive com a empregada Rosie, uma robô que, profeticamente, dispensava carteira de trabalho, férias e FGTS), dizia-se que com a automação do cotidiano as pessoas teriam mais tempo fazer o que quisessem. O futuro chegou, e é grande o contingente de pessoas que dedicam o tempo que têm a mais (o dia inteiro) às atividades de procurar emprego ou estudar desesperadamente para prestar concursos públicos. Isso é visível, tanto nas matérias de comportamento quanto nas de economia -- as publicadas em veículos digitais, é claro, já que rádio e jornal impresso estão em vias de extinção, no mundo inteiro. Com o progresso, os jornalistas daquelas mídias, da Folha e de outro veículos, agora têm mais tempo... para procurar novos empregos, cada vez mais escassos, ou para mudar de carreira, se tiverem o fôlego suficiente.

Esse não é pensamento de um ludita. Mas, como diz aquele filósofo romeno do século XIV, não custa pensar no assunto.

Feliz 2038.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Lamento, Hermínio. Cheguei muito atrasado.

ou “tempo é aquilo que a gente só descobre que tinha depois de ter perdido”

Ricardo Goldbach

Escalação que conquistou o 1º Campeonato Brasileiro do Colorado
(foto: site de Milton Neves)
Conheci Hermes Rianelli – o Hermínio – no início dos anos 90, por meio de um contato em comum. Hermínio tinha um casarão de dois andares, vazio, na Rua Pedro Alves, no bairro de Santo Cristo, e queria dar a ele alguma destinação. Quem nos aproximou foi um “executivo de fronteira” (apelido dado naqueles tempos ao “importador” de peças para a montagem de PCs) que já havia me atendido a contento –  à época, eu era gerente de sistemas de uma empresa dedicada à gestão terceirizada de processos de administração e engenharia de manutenção.

Nosso primeiro contato, um cafezinho para avaliarmos o que poderíamos fazer juntos, foi marcante. Aquele querido ex-zagueiro do Internacional era a simpatia em pessoa, ao mesmo tempo que simples, franco e perspicaz. Com o início da popularização dos PCs, ele havia enxergado uma oportunidade de negócio na qual eu me encaixava como a terceira peça. Assim, durante algum tempo, os três tocamos a vida profissional juntos, na 99 Computer (não me lembro de onde veio o nome da empresa, mas eu brincava com ele, dizendo que só não éramos “100” porque ninguém é perfeito).

Por motivos outros, que não passaram por falta de competência ou de clientela, a coisa não chegou a durar muito. Entre mim e Hermínio, no entanto, permaneceu a forte amizade, o respeito e a confiança: pouco depois do fim da 99, ele me contratou para informatizar os processos administrativos da Gymania, indústria de vestuário que possuía em Itaboraí, juntamente com mais dois sócios. Mais adiante, depois do fechamento da fábrica – arrastada pela falência da Mesbla, maior cliente e maior devedora – matávamos a saudade em ocasiões esparsas: um churrasco em Papucaia, uma visita à casa dele, durante recuperação de problema circulatório na perna, alguns telefonemas para marcar o almoço que jamais aconteceu.

Desde nosso último e longínquo contato, volta e meia Hermínio me vinha à cabeça. “Preciso saber dele, como andam a saúde e a vida”, eu me impunha. Ao mesmo tempo, as cobranças da vida cobravam mais alto (ou ao menos eu acreditava nisso).

Neste maio de 2013, decidido a pagar o débito para comigo mesmo, dou uma googlada em “Hermes Rianelli” para recuperar dados de contato. O jornalista esportivo Milton Neves me dá a notícia, através da seção “Que Fim Levou”, do blog “3º Tempo”:
"Ex-zagueiro do Coritiba, Internacional e São Paulo, Hermes Rianelli, o Hermínio, morreu no dia 12 de setembro de 1988. Ele chegou a atuar no Colorado ao lado de Carpegiani, Falcão, Valdomiro e outras feras."
Buscando um pouco mais, descubro que após aquela data Hermínio havia sido presidente do Sindicato dos Treinadores de Futebol Profissional do Estado do Rio de Janeiro. Segundo o site da entidade, Hermínio foi o segundo presidente, tendo exercido o mandato entre 1997 e 1999, ano este em que teria se dado sua morte.

Não sei quando nem como Hermínio se foi, mas pretendo descobrir. Nesse meio tempo, fico com a memória de um episódio que ele me contou, que bem mostra o faro e a determinação que possuía. No início dos anos 70, jogador consagrado do Internacional, Hermínio era consultado pelos dirigentes do clube quanto a contratações de novos talentos. Tendo assistido a uma partida de aspirantes, o zagueiro foi categórico: “Aquele garoto ali tem um tremendo futuro, ele tem cancha de campeão!”

Os dirigentes foram unânimes em discordar, ao que Hermínio me disse ter respondido: “Se ele não entrar no Inter, saio eu. E vou para o clube que o aceitar”. O garoto acabou sendo contratado, e não se passaram muitos anos até que o Brasil e o mundo reconhecessem o que Hermínio já havia identificado: a categoria e a raça do craque Paulo Roberto Falcão.

Descanse em paz, grande Hermínio.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Bitcoins: a moeda do futuro tem futuro?

Entusiasmos, pragmatismos e ameaças

Ricardo Goldbach

Muitos kWh e pouco retorno (autor desconhecido)
Apesar de a garimpagem de moedas digitais ser um mau negócio nos dias que correm, os adeptos (eu inclusive, por mero diletantismo e curiosidade) continuam descobrindo moedas e perdendo dinheiro no processo. A aritmética mostra que o investimento torna-se deficitário na medida em que os blocos tornam-se mais raros: gasta-se mais com energia elétrica e depreciação do computador do que se ganha com a remuneração pelo esforço computacional dedicado. O ponto de equilíbrio já foi alcançado, em algum momento do passado. Ponto.

Em que pese o obstinado entusiasmo, os garimpeiros de Bitcoins (BTC) têm mais um motivo para perceber que o jogo está com os dias contados. Fabricantes de ASICs (application-specific dedicated chips, chips voltados a aplicações específicas) e de FPGAs (field-programmable gate arrays, circuitos genéricos, com as configurações de hardware sendo programáveis pelo usuário), começam a oferecer boxes com capacidades de processamento antes inimagináveis.

A Butterfly Labs oferece um produto com capacidade de 50 Gh/s (50 bilhões de hashes são calculados por segundo), e a Avalon promete mais de 65 Gh/s, o equivalente a 1000 desktops parrudos, com Intel Core i7. Em termos comparativos, um i7 3930k está limitado a cerca de 65 Mh/s. Se a máquina contar com uma placa de vídeo ATI 6870, por exemplo, cerca de 280 Mh/s serão acrescentados ao poder de fogo: os processadores das atuais placas de vídeo turbinam um PC, sendo mais poderosos do que a própria CPU, quando se trata de cálculos criptográficos. No setor de mineração com placas de vídeo (GPU mining), a nVidia está perdendo feio.

No entanto, mesmo considerando-se os pools de garimpagem -- aos quais usuários se unem para somar esforços de CPU e dividir resultados -- um único ASIC conectado à rede é capaz de morder significativa parcela dos ganhos obtidos coletivamente por um pool.

We Accept Bitcoin Only – Bitcoin allow us to collect large sum of assets in a short period of time, and due their nature the bitcoins can also be move to where they are suppose to go in a similar time frame. It also make sense as the Avalon units mine bitcoins so they should be priced as such accordingly.
E por que prefiro o universo dos Litecoins (LTC)? É mera questão de bom senso. Por questões técnicas -- diferenças entres os algoritmos de criptografia usados na geração dos blocos originais de BTC (SHA-256) e de LTC (Scrypt), a garimpagem de LTC, seja individual seja coletiva, não sofrerá a concorrência desleal dos ASICs que começam a sair do forno: é impossível garimpar LTC com os princípios que fundamentam a arquitetura usada naqueles monstros capazes de dezenas de Gh/s. Quanto a ASICs dedicados a LTC, tendo a achar que são inviáveis, mas, se já é possível fabricar armas de fogo em casa, com impressoras 3D, há que se desconfiar de certezas tecnológicas.

Já os analistas de tecnologia e mercado têm um enfoque mais pragmático e realista: trata-se de uma bolha, que hipnotiza gente que não percebe que os tempos áureos de um BTC valer menos de US$10 (e ser bem mais fácil de ser encontrado) já se acabaram, além de haver o insofismável critério de custo x benefício. Neste exato momento (06/05/2013, 12h45) um BTC está cotado a cerca de US$ 110, mas de 40 dias para cá já registrou valores que oscilaram entre US$ 40 e US$ 260.

O raciocínio, realista, deve também apoiar-se no fato de que num futuro próximo (por volta de 2030, podendo ser antes, com a evolução de hardware e a adesão de novos mineradores), não haverá mais blocos a descobrir:

Curva assintótica de novas descobertas, assumindo-se intervalo constante de 10 minutos
entre cada dois achados (fonte: Wikipedia)

O que importa é que nada disso importa muito: as moedas digitais não têm na garimpagem seu objetivo último; a ideia é a disseminação e o uso corrente do BTC, com a descentralização do controle dos meios de pagamento, aí incluída a impossibilidade de rastreamento das transações. É na ameaça aos bancos centrais e às legislações vigentes que se concentram as atenções, nestes tempos em que traficantes mexicanos usam BTC como moeda corrente, empresas começam a dar aos empregados a opção de receber salários em BTC e os esforços regulatórios das autoridades monetárias dos EUA estão a todo vapor.

O grande temor da comunidade, por outro lado, está na "ameaça dos 51%": quem detiver isoladamente mais de 50% do poder computacional da rede, pode, em tese, adulterar blocos de transações mais rapidamente do que eles sejam autenticados pelo esforço coletivo. Por enquanto, o agente fiscalizador e disciplinador é a própria rede, mas até isso pode mudar.

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PS 1: A título de curiosidade, os sólidos e elegantes fundamentos conceituais por trás do Bitcoin estão neste paper produzido em 2009 por Satoshi Nakamoto, seja este o nome de uma pessoa, um apelido, ou mesmo o nome de um coletivo de desenvolvedores -- ninguém sabe ao certo, até agora.

PS 2: As referências que fiz a Bitcoins aplicam-se igualmente a Litecoins, à exceção do que diz respeito às particularidades dos algoritmos empregados. De resto, o panorama é o mesmo.